Entrevista

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“As comunidades locais são vistas como os accionistas do negócio do turismo”

Na entrevista que concedeu ao Jornal de Angola, o embaixador Wellars Gasamagera aborda os caminhos de uma cooperação que pretende frutífera e bastante amistosa. Sobre Luanda, diz ser ela conhecida como uma cidade densamente povoada com 8,33 milhões de habitantes, quase um quarto de toda a população angolana.

06/03/2021  Última atualização 15H47
Wellars Gasamagera, Embaixador do Ruanda em Angola © Fotografia por: Rafael Tati | Edições Novembro
Luanda é também uma cidade muito movimentada, com instalações de produção empresarial, financeira e económica, mas também uma cidade cosmopolita com muitos resorts de lazer e entretenimento. É ao mesmo tempo um destino turístico de alto nível para os visitantes, mas também, uma cidade africana atraente e convidativa com atracções locais.

Apresente-nos o Ruanda
Ruanda é um país localizado na África Central. Faz fronteira ao Norte com o Uganda, a Leste com a Tanzânia, a Sul com o Burundi e a Oeste com a República Democrática do Congo. A superfície total do Ruanda é de 26.338 quilómetros quadrados, com uma densidade populacional estimada em 445 pessoas por km².

A ponte Luanda - Kigali é uma realidade ou ainda há muito por fazer?
A relação entre Angola e Ruanda é uma realidade, com representações diplomáticas a nível de embaixador nos dois países. Claro que sempre há mais a fazer e estamos aqui para isso. Esperamos mais intercâmbio, não apenas a nível governamental, mas também a nível de pessoa-a-pessoa.

O que Angola pode ganhar com o seu país?
Os angolanos podem ganhar com o Ruanda o que os ruandeses podem ganhar com os angolanos, que são as oportunidades no sector do comércio. À medida que os nossos países continuam a ter relações diplomáticas fortes, vemos mais empresários angolanos a investir no Ruanda. Damos as boas vindas ao povo angolano  e convidamos a uma visita ao nosso país para conhecerem as particularidades e maravilhas de um país de grande altitude, montanhoso e sem litoral. Também encorajamos o nosso povo a visitar Angola, com as suas inúmeras atracções turísticas e, em particular, a sua longa costa no Atlântico; as sete maravilhas e, principalmente, a calorosa hospitalidade do povo angolano.

Se tivéssemos de comparar o Ruanda a um produto comercial, acha que o mesmo é atraente o suficiente para os ruandeses, os africanos e investidores de outras parte do Globo?
No Ruanda produzimos excelente café e chá. Por muito tempo, esses foram os nossos produtos exclusivos que exportamos para África e outras partes do mundo. Recentemente, também temos diversificado a nossa produção para outras culturas de rendimento, como pimenta, horticultura e lacticínios. Mas também, fabricamos tecnologias de informação e aos poucos, queremos posicionar o nosso país como um centro de tecnologias de informação e serviços financeiros ao mesmo tempo que exportamos não apenas bens, mas também serviços.

Então ajude-nos a estruturar o peso de cada sector na estratégia de desenvolvimento do seu país?
A agricultura tem sido por muitos anos um grande contribuinte para a economia do Ruanda, mas outros sectores como turismo, mineração e serviços estão assumindo o controle. Isso também está muito de acordo com a estratégia do Governo de diversificar o emprego, e isso pela criação de mais empregos não agrícolas e a aposta no serviço, de forma a atingir o objectivo de nos tornarmos uma economia baseada no conhecimento.

Qual é o objectivo com o projecto "Visit Ruanda”?
Visite o Ruanda tem como objectivo agilizar os esforços de turismo do país numa estratégia nacional com foco no turismo de alta qualidade, ecológico e sustentável. Nós, no Ruanda, estamos olhando para o sector do turismo de uma forma holística, onde as comunidades locais são vistas como os accionistas central. A estratégia também se baseia em valores ambientais e de sustentabilidade.

Quais são os principais parceiros comerciais do seu país e o que eles dão e recebem em troca?
O Ruanda faz negócios com muitos países africanos, especialmente os da África Oriental e da região Central. Exportamos, principalmente, produtos agrícolas, produtos de mineração e outras matérias-primas utilizadas na construção. Também exportamos esses produtos para muitos outros mercados na Europa, Ásia e América. Em troca, importamos automóveis, equipamentos electrónicos e outros produtos manufacturados.

Quando fala com familiares, concidadãos e outros diplomatas sobre Luanda, o que tenta sublinhar por entender que é o ponto focal para atrair visitantes?
Luanda é conhecida como uma cidade densamente povoada com 8,33 milhões de habitantes, quase um quarto de toda a população angolana. Luanda é também uma cidade muito movimentada, com instalações de produção empresarial, financeira e económica, mas também uma cidade cosmopolita com muitos resorts de lazer e entretenimento. É ao mesmo tempo um destino turístico de alto nível para os visitantes, mas também, uma cidade africana atraente e convidativa com atracções exóticas locais.

Como o Ruanda recupera a sua juventude após os anos sombrios da sua História?
Logo após o genocídio de 1994 contra os Tutsi, o Ruanda tem investido, fortemente, na educação e recuperação da juventude. Há três décadas atrás, o Ruanda tinha meia dúzia de instituições de ensino superior, mas hoje possui trinta e duas. Com a criação de muitas escolas e outras instituições de ensino superior, o foco tem sido matricular e educar o maior número possível de jovens, de modo a dar-lhes a oportunidade de ter não apenas acesso a emprego e habilidades de empreendedorismo, mas incutir neles o pensamento analítico e crítico necessário, que os ajudaria a navegar nas complexidades do mundo de hoje.

E no campo da formação academico-profissional e de emprego, como respondem às expectativas da juventude?
Os campos académico e educacional foram revisados para atender às necessidades actuais e futuras. O Ruanda também investiu, fortemente, na formação profissional, de modo a equipar os jovens com habilidades e capacidades de resolução de problemas para competir no mercado de trabalho global e agressivo tal como se apresenta hoje.

Os países geralmente também trocam cultura. É o vosso caso?
Ruanda faz intercâmbios culturais com muitos outros países por meio de festivais e outros encontros culturais. Artistas, músicos, cineastas, dançarinos e representantes de outras áreas da indústria cultural do Ruanda participam em eventos globais, mas também dão as boas-vindas a seus colegas de todo o mundo no país para enriquecer uns aos outros com as suas experiências.

O idioma Inglês abre muitas oportunidades para vocês. Fale-nos do desenvolvimento tecnológico e a implantação da indústria digital no seu país.
Temos a ambição de nos tornarmos um centro de tecnologia e, portanto, tudo foi preparado para que isso aconteça. Do nível estratégico e político à atracção de investidores e treino de talentos, muitos projectos estão, actualmente, em andamento com alguns exemplos como a "Kigali Innovation City”, que reúne grandes empresas de tecnologia, universidades de ponta e investidores num ecossistema voltado para a criação de soluções e produtos de tecnologia de informação benéficos para o Ruanda e toda África.

Como embaixador, se ainda não o fez, com certeza pretende a fazê-lo; refiro-me a visitas às 18 províncias de Angola para definir onde melhor desenvolver os interesses económicos e comerciais do Ruanda. Como definiu esse calendário diplomático?
Apresentei as minhas credenciais como embaixador Extraordinário e Plenipotenciário em Angola a 16 de Outubro de 2019. Fiquei emocionado por conhecer um país que visitei pela primeira vez. Por meio de acordos diplomáticos, visitei a província do Zaire dez dias após a minha posse. Fiquei animado por descobrir um ambiente africano típico e oportunidades locais. Infelizmente, não pude levar adiante as minhas visitas devido à pandemia da Covid-19 que atingiu o mundo logo após a chegada. Tenho grandes esperanças de retomar as minhas visitas e explorações, pois o país está a abrir gradualmente as restrições necessárias. Angola é um país cheio de oportunidades e é meu dever abri-las aos ruandeses.

Por que falhamos nos blocos económicos e de desenvolvimento do continente?

África tem-se esforçado para promover a economia e o desenvolvimento por meio de blocos regionais. Os países desses blocos sempre tiveram diferentes níveis de abertura e cooperação. Na maioria das vezes, testemunhamos obstáculos como barreiras tarifárias e não tarifárias ao comércio, baixa preparação política na agenda de integração e questões de paz, conflitos e insegurança em algumas áreas. No entanto, por via da vontade política e determinação de líderes visionários e proactivos, a África ainda nutre a ambição de blocos de comércio e desenvolvimento como a ZLCCA, SADC, CEEAC, CAO etc, cujo sucesso está definitivamente nas mãos dos líderes africanos.

A Zona de Livre Comércio da qual você também é assinante representa o que é concreto?

Sim, a Zona de Livre Comércio Continental Africana é real e tem como objectivo acelerar o comércio intra-africano e impulsionar a posição comercial da África no mercado global, fortalecendo a voz comum de África e o espaço político nas negociações comerciais globais.

Como impulsionar o comércio inter-africano?
Abrindo não apenas as nossas fronteiras físicas, mas também as nossas mentalidades e tendo confiança e orgulho em comprar e vender Africanos.

A Europa e a Ásia continuam a determinar a agenda económica Africana. É uma visão irreal ou sente também a necessidade de despertar os Estados Unidos da África?
A África está ocupando o seu lugar certo na arena global, não apenas por meio de intercâmbios e económicos e de negócios, mas também na liderança de ideias em muitas questões globais, incluindo segurança, migração, mudanças climáticas e outras. Estes estão entre os pilares que irão posicionar a África e determinar seu relacionamento com outros parceiros - chave, incluindo Europa e China, entre outros.

A África pode deter a emigração e reter talentos para o seu desenvolvimento?
A solução não é deter a imigração, mas atender às necessidades básicas que esses imigrantes vão buscar em outros países. Vivemos agora em um mundo globalizado e as pessoas deveriam ser livres para viajar pelo mundo em busca de oportunidades, não fugindo em busca de necessidades básicas.

Ana Paulo e Isaque Lourenço

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