Opinião

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Um olhar à criminalidade

Gaspar José*

*Coordenador da Comissão de Moradores do bloco 10 da cidade do Sequele

Era um sábado de Cacimbo de 2013, quando me mudei para cá. Tive os dias mais alegres daquele ano. Ah! Nunca mais me esqueço daquele ano. Os 86 quilómetros de distância percorridos por estrada, diariamente, na ida e volta, nunca foram, para mim, um obstáculo.

19/05/2024  Última atualização 10H18

O descanso perfumado de paz e tranquilidade dos anos iniciais era um cartão-de-visita da cidade do Sequele. Da janela da minha varanda  tinha uma vista maravilhosa e, no jardim, o gorjeio dos pássaros era como um "hino de esperança”, algo que fazia com que ficasse atento à mãe natureza, ao entardecer ou na aurora de um novo dia.

Quando o sol se punha, o brilho da iluminação pública nas ruas era um convite irrecusável à prática desportiva e o vaivém de atletas, caloiros ou profissionais, que, pouco a pouco, iam adquirindo ou aperfeiçoando o hábito pelas caminhadas matinais, era, para nós, a certeza de que o esforço de quem governa não foi em vão. Ao longo das caminhadas, falávamos da insegurança, da falta de saneamento básico e de outros tantos problemas dos bairros em que vivíamos. A segurança, na cidade do Sequele, era o nosso cartão-de-visita. Sim, mas o que vale isso hoje?

Desde meados de 2018 que o sentimento de segurança, na cidade do Sequele, está a depauperar-se. Só não vê quem não quer ver! A criminalidade está presente em todos os lugares e sociedades, em alguns dos quais com contornos mais preocupantes. E a cidade do Sequele não fica de fora. A criminalidade vai galgando terreno, dia após dia. O medo toma conta de todos nós. Os relatos de assaltos chegam-nos a partir dos grupos de WhatsApp, táxi, bares e de outros pontos de aglomeração da nossa urbe.

As causas sociais, como a pobreza, a mal vivência e o desemprego, vão dando maternidade à criminalidade. As tácticas e o modus operandi dos marginais, para o cometimento de ilícitos, tira o sono a todos nós. Nem os lugares sagrados eles poupam.

O roubo de objectos no interior de apartamentos por "homens-aranha” tem estado a crescer gradualmente, na cidade do Sequele, enquanto do Cepa, Fortim, Mulundo, Mayé-Mayé e Sombra dos Imbondeiros chegam-nos notícias de justiça por mãos próprias ou de existência de uma "turma do apito”. Qual seria o modelo adequado ao combate à criminalidade para a cidade do Sequele?

O cidadão conhece e reconhece as limitações da Polícia, muitas delas causadas pelo crescimento desordenado de bairros construídos clandestinamente na calada da noite, fruto da acção de invasores de terras. Gritos de socorro de moradores que passam mais horas acordados por causa das constantes ondas de assaltos na cidade do Sequele chegam, frequentemente, aos ouvidos da Polícia.

Enquanto esperamos que a Polícia restabeleça o sentimento de segurança, a escuridão tem tomado conta das ruas do Sequele. Vários são os gritos de socorro que batem, diariamente, à porta da esquadra policial, clamando por mais policiamento, nos vários períodos do dia, de modo que a Polícia garantir a ordem e a tranquilidade públicas que, pouco a pouco, estão a perecer. Com a demolição de casebres à volta da cidade do Sequele, registou-se, por um curto espaço de tempo, uma diminuição da criminalidade.

Mas  diz o velho adágio "Quem tem inimigo não dorme!” Rezam os dados estatísticos da criminalidade na cidade do Sequele que os praticantes de acções criminosas são, maioritariamente, pessoas da faixa etária dos 12 aos 38 anos e do sexo masculino. A acção heróica da Polícia, em dar resposta aos crimes de que toma conhecimento, é notável e presente no quotidiano. Qualquer um de nós já presenciou ou ouviu falar, no Sequele, que a altas horas a Polícia já acompanhou um morador até à porta da sua residência. Também já ouviu falar que algum agente da Polícia foi baleado quando tentava proteger um património público ou privado.

Apesar de a população estar a viver um clima de insegurança, é visível o esforço da Polícia no combate a assaltos a moradias e na via pública e isso merece o apoio e o aplauso de todos nós, sequelenses. Hoje, o distrito urbano do Sequele regista um aumento do número de casebres, fruto de invasões de terrenos no silêncio da noite, só ultrapassadas, talvez, pelas invasões registadas no Distrito Urbano  do  Zango, em Viana, o município que, actualmente, disputa com Cacuaco o título de município mais populoso da província de Luanda. 

De um modo geral, o crescimento de casebres tem estado a "driblar” a Administração do Distrito Urbano do Sequele, deixando-a de "mãos atadas”. À medida que aumenta a população, há, sem dúvidas, mais vozes a baterem-se por um sistema de policiamento mais eficiente e mais eficaz.

Quem dera que se intensificasse o patrulhamento preventivo, no período nocturno, em cada bairro adjacente à cidade do Sequele e que se registasse, também, um aumento do número de infra-estruturas policiais.

Não bastam só escolas, centros médicos ou requalificação das vias de comunicação que o Plano Integrado de Intervenção dos Municípios (PIIM) trouxe à cidade do Sequele. Também  sentimos falta de centros comunitários culturais, para promover a inclusão social e, quiçá, reduzir o esforço da Polícia no combate à criminalidade. Se forem criados, os centros comunitários culturais podem retirar muitos jovens da criminalidade.

Sou, portanto, de opinião que a segurança pública e o combate à criminalidade devem constituir prioridades das instituições (Estado, Igrejas e famílias) e que os objectivos gerais só podem ser alcançados quando todos nós andarmos na mesma carruagem do comprometimento com a pátria.  Teremos, assim, por exemplo, mais ruas e estradas iluminadas e asfaltadas, um dos factores que garantem mais segurança às pessoas e bens.

Quando são estabelecidos mecanismos apropriados, percebe-se o engajamento das instituições, incluindo as famílias, na resolução dos problemas de interesse público. Exprimo a minha satisfação pelo esforço da Polícia e espero que cada morador do  Distrito  Urbano do Sequele contribua, com denúncias, para a segurança e tranquilidade de todos nós.

*Coordenador da Comissão de Moradores do bloco 10 da cidade do Sequele

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