Opinião

A sociedade civil deposita cada vez menos confiança nos partidos políticos

Ismael Mateus

Jornalista

O MPLA enfrenta por um lado uma oposição política cada vez mais organizada e por outro um mar de críticas públicas vindas do interior do partido. Parece até um certo modismo de fazer críticas ao MPLA.

01/03/2021  Última atualização 15H10
Em termos globais, essas críticas vindas do interior podem ser positivas porque abrem um debate interno ao qual o maior partido não está habituado e, por outro lado, quebra a imagem de um unanimismo construído por conta do silêncio público sobre as divergências de opiniões.
Para quem não está nas lides internas do MPLA, fica difícil perceber exactamente a que passado essas vozes querem que o MPLA volte, quando as lideranças de Agostinho Neto e sobretudo de José Eduardo dos Santos são tão criticadas.

Perante o desgaste de 45 anos de poder é natural que o MPLA enfrente um declínio das filiações partidárias, do activismo entre os filiados, enquanto os que lutam pelo poder vivam um momento inverso. Por essa razão, faz sentido a lógica de corte com o passado, o corte geracional anunciado para os próximos congressos e a vassourada que se espera no Governo. Só a entrada de novos actores e também de novas formas de fazer política podem recriar as relações de identificação entre representantes e representados.

Mais difícil é ainda perceber se existe outra alternativa do MPLA senão embarcar numa aventura reformista e renovadora que está a fazer. Depois de 45 anos de poder desgastantes e cheios de erros, é possível manter o romantismo político dos anos passados ou a realidade política de hoje é completamente diferente?
Não é possível olhar para a realidade do MPLA sem perceber o que se está a passar por todo o mundo. Vive-se claramente uma crise geral da democracia representativa que se repercute directamente nos partidos políticos, através do seu declínio e na crise da participação eleitoral.

A sociedade civil fruto do seu amadurecimento, deposita cada vez menos confiança nos partidos políticos como representantes únicos dos seus interesses. O acesso à informação, o fortalecimento dos grupos de interesse extrapartidário e o nível de exigência dos eleitores quanto ao cumprimento das promessas eleitorais, têm vindo a impor em todo o mundo uma nova conjuntura que exige que os partidos estruturem novas relações políticas entre Estado e sociedade civil.

Não há por isso nada mais enganador do que esperar que o MPLA volte a ser o velho MPLA como alguém afirmou. Não é possível. Tem de passar necessariamente por novas relações, novas caras e novas abordagens. É uma refundação.
Na actualidade, o sistema político mundial, onde se situam o MPLA, o ANC, da África do Sul ou PS de Portugal, mas também a UNITA, a Casa CE e outros, enfrenta dificuldades na articulação e agregação dos distintos interesses da sociedade e pouco representativos. Os níveis de confiança nos partidos políticos são baixíssimos e os políticos com os seus escândalos continuam a fazer por baixar.

Os partidos outrora vinculados ideologicamente aos seus filiados, transformaram-se em máquinas eleitorais procurando abarcar tudo e todos, mesmo aqueles que não reúnem perfil para seus militantes tradicionais. A ambição e a luta pelo poder sacrificaram gradualmente as barreiras programáticas e ideológicas que muravam a relação entre eles e permitia a sociedade escolher. Aqui sim os partidos se foram conscientemente descaracterizando e no caso do MPLA e outros partidos angolanos isso já vem de há mais de cinco anos.

As máquinas eleitorais em que os partidos se tornaram afastaram os partidos das suas posições de classe e, cada vez mais estabeleceram relações ditadas pelo objectivo de conquista do poder. É preciso encarar os novos tempos com esse realismo e toda uma indústria eleitoral faz dos partidos, dos media e agora das redes sociais elementos de uma disputa feroz pelo poder, para a qual os partidos políticos mudam quase tudo.

Essas "máquinas eleitorais”, que hoje existem no poder, mas também na oposição, produzem uma conjuntura que dita novos interesses, novas alianças (muitas vezes entre partidos sem qualquer afinidade programática e ideológica) e até novas narrativas públicas entrelaçadas por mero oportunismo politico, pragmatismo eleitoral. Tudo isso suscita dúvidas entre os eleitores e reduz as possibilidades de cumprimento das promessas que se fazem.

A propalada crise de identidade que muitos se queixam em relação ao MPLA está na verdade a ocorrer em todos os partidos políticos, mas também na própria democracia representativa. Há por todo o lado uma acentuada crise de credibilidade do sistema político e invariavelmente a resposta é reforma e adaptação aos novos tempos. A disputa entre oposição e partido no poder não é mais uma luta ideológica, mas uma luta sobre quem melhor se adapte a esta nova conjuntura, ao domínio das redes sociais, ao diálogo com a sociedade e quem oferece mais sinais de adaptação reformista às necessidades da sociedade.

Nestes termos, o apelo ao passado é tudo que o MPLA deveria dispensar e rapidamente deveria empreender uma luta pelo rejuvenescimento e reconstrução de novas relações com a sociedade. É exactamente por essa saturação e falta de credibilidade nos sistemas políticos que os partidos anti-sistema têm vindo a crescer em todo o mundo. Os eleitores querem confiar em quem faça as coisas de modo diferente, quem seja de fiar, quem cumpra o que promete, quem não caia no vale tudo.

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