Opinião

Zungueira moderna

Edna Cauxeiro

Polegar, indicador, médio, anelar e mindinho. São os nomes científicos dos dedos das mãos. A cronista, que enquanto estudante, muitas vezes não percebia a necessidade de estudar determinadas lições, agradeceu em silêncio, no seu íntimo, aos pais por a terem colocado na escola e à mão pesada da dona Josefa (Zé) pelo rigor com que educou e instruiu os filhos, sobretudo a segunda, primeira menina, que vos escreve.

17/04/2022  Última atualização 08H35
Em seguida, faz um zoom na mão direita da zungueira sentada ao seu lado. As unhas postiças, ligeiramente compridas e pintadas a preto chamam a sua atenção. Além da cor incomum que usou, a dona da mão perdeu unhas nos dedos médio e mindinho. Para algumas mulheres, era motivo suficiente para correr ao salão com o intuito de repor as unhas. Mas a zungueira tem mais com o que se preocupar. Na mesma mão em que lhe faltam duas unhas postiças está um telefone digital, no qual faz a seguinte operação matemática: 19×6.500. O resultado da conta parece agradá-la. Visivelmente animada, dirige-se à cronista e pede o telefone emprestado. Ambas partilham o assento num mini-autocarro com destino à Cidade do Kilamba.   
                 

"Mana, tem saldo? Pode me dar só uma chamada?”. A mana satisfaz-lhe o pedido.

"Alô, Má (diminutivo de mana) Bela? É a Zita. Já despachei todas as caixas, a seis mili, assim estou a vir alí para fazermos as contas. Estás em casa? Estou a vir, então”, desligou, devolvendo o telefone à cronista que percebeu o motivo da satisfação da zungueira.

Além do acréscimo que fez, de 500 Kz em cada caixa (não se sabe de quê), portanto 500 Kz×19 seria o seu lucro, ainda teria direito a uma percentagem da venda. Jovem inteligente, pensou a autora do texto. As suas qualidades não se resumem ao intelecto. É fisicamente pequena, mas vistosa. De igual modo, tem um rosto bonito e usa tranças de linha em bom estado. Só o cheiro a calor lhe diminui a boa impressão que causa, inicialmente, nas pessoas.

Mas a pessoa que a observava atentamente, naquele momento, preferiu não dar importância ao odor da passageira sentada ao seu lado. Nada que a abertura da janela do veículo, para que a brisa entrasse ao recinto do mesmo não resolvesse.      

Era tarde de sol ardente, que castigava quem andava à pé ou em automóvel sem ar condicionado.  Quem por isso já passou tem, certamente, alguma noção, ainda que errônea, do que que seria um resumo do inferno.              
       

Nenhum perfume francês ou desodorizante de qualidade superior sobrevive à exposição ao sol luandense.  
                  

Zita adormece. Está cansada, coitada. Pensou a passageira ao lado. A viagem segue. À medida que uns vão descendo, outros sobem. Zita acorda muitos minutos depois e percebe que a sua paragem ficara para trás.

"Eh, cobrador, me deixa no Onze. Eu tinha de ficar na paragem do Calemba II”. Levanta-se, agradece e despede-se da passageira que a deixou ligar para a Má Bela.

"Mana fica bem. Obrigada yá?!”. Ao mesmo tempo vira-se e pede que outra passageira se levante para que tire debaixo do assento o seu balde. Zita desce com o balde na mão.      
    

O seu lugar é ocupado por um jovem bem vestido, cujo aroma deixa evidente que não passou o dia debaixo do sol que perfumou Zita com um cheiro "pouco simpático”, apesar da sua aparência bem cuidada.     
                        

Ou seria a falta de higiene o problema da zungueira moderna, de unhas postiças? A cronista nunca vai saber a resposta.      
   

Mas Zita é exemplo da força e da coragem da mulher africana. Não importa se, por vezes, não cheire a flores. O seu esforço diário, na busca do pão de cada dia, a iliba desse pequeno "delito higiénico”. Pelo menos enquanto estiver no exercício das suas funções, debaixo do sol abrasador que enfeita os dias de quem teve o privilégio de ter nascido em país tropical como Angola.

Um bem haja a todas as Zitas do mundo.

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