Opinião

Zeca Kajimbonzo, o filho do feiticeiro

Ferraz Neto

Jornalista

Falar de Zeca Kajimbonzo ou Zeca das Batatas é recuar no tempo e tocar numa figura de referência entre os jovens do Bairro Vila Matilde, arredores da cidade de Malanje. A história remonta à década de 80 e permanece viva na memória de muitos veteranos o bairro.

15/05/2022  Última atualização 06H45

Filho do mais velho Matadi ou tio Matadi, tal como o pai, Zeca Kajimbonzo é, até hoje, uma lenda entre os jovens da sua época. Nas noites de lua cheia e sem energia da rede elétrica, os adolescentes aproveitavam o clarear do luar para se juntarem num dos passeios de uma das residências vizinhas e meterem a fofoca em dia.

Nas conversas informais ao longo da noite, os filhos do bairro debatiam temas candentes da actualidade sobre o bairro, a cidade e o país. Numa das noites, as conversas giraram em torno dos mais velhos feiticeiros da Vila Matilde. Ao longo da conversa tio Matadi foi um dos visados. Os amigos de Zeca Kajimbonzo, em forma de troça, apontavam o dedo ao Zeca.

- O teu pai é um bruxo dos fortes -, disse um dos amigos.

Zeca Kajimbonzo ripostou e de forma peremptória disse que grande parte dos velhos do bairro eram feiticeiros. Exemplificou que numa das noites ouviu zumbidos em casa do mais velho Franco Estica, um dos históricos da Vila Matilde.

A conversa ganhou outra dimensão com os presentes a pedirem mais detalhes sobre o assunto, uma vez que o mais velho Franco Estica era bastante conhecido entre os  habitantes da cidade de Malanje, por ser um excelente padeiro, pois o seu pão era comercializado e saboreado em toda a cidade.

O filho, Zeca do Gil, um dos participantes da conversa, inconformado por terem acusado o seu progenitor, decidiu abrir o livro e adoçar a conversa. Da brincadeira, a conversa ganhou contornos sérios. Ou seja, como se diz na gíria, zangam-se as comadres… descobrem-se as verdades.

- É o tio João Cafumana que tem uma panela preta com ossos humanos debaixo da cama – alguém gritou.

Uaaaa! Uooolooo! Ngafo, foram alguns dos termos usados para apimentar a conversa. De repente, o ambiente ganhou contornos assustadores, quando as nuvens bloquearam a já fraca iluminação do luar e fez-se uma pequena escuridão. O silêncio instalou-se entre os jovens, fruto da ventania que agitava as folhas das árvores. Reinou o silêncio absoluto entre os quatro rapazes. Rapidamente, levantaram-se do passeio assustados e quase procuravam por um esconderijo. A conversa foi ganhando várias intervenções e com elas novas revelações.

Arrepiados e assustados, os jovens decidiram pôr térmo à conversa e seguir para as suas casas, atendendo ao adiantar da hora. Pelo conteúdo da conversa, depois das acusações, os quatro decidiram regressar à respectiva casa.  Feitos os acertos e as despedidas, cada um seguiu na direcção certa. Passados 10 minutos, como flechas, regressaram todos eles ao ponto de partida. Zeca Kajimbonzo, Zeca do Gil, João Calabatata e Toni Sankara cruzaram-se novamente no ponto de partida. Todos assustados e com respiração funda. E olhar de medo.

- Mamã ueeee... Parece que estamos lixados -, exclamou Zeca Kajimbonzo - Encontrei uma cabra grande, tão logo saí daqui.

Surpreendentemente, João Calabatata, Zeca do Gil e Toni Sankara também avistaram a gigantesca cabra no seu itinerário.

Assustados, os jovens juntaram-se e fizeram uma retrospectiva da conversa.

"Afinal quem é o verdadeiro feiticeiro do bairro, entre os mais velhos?!”

* Moral da história: os segredos dos mais velhos de uma comunidade nunca devem ser expostos publicamente ou ditos em qualquer lugar. Qualquer semelhança real com o caso aqui narrado é mera coincidência.

 

Vila Matilde, aos 4 de Abril de 2022.

 

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