Cultura

Yuri da Cunha solta a voz nas canções de Carlos Burity

Analtino Santos

Jornalista

A noite de sábado foi mágica com o concerto "Yuri da Cunha Canta Carlos Burity", com o artista de cartaz a partilhar o palco com Manucho e Rialtino Burity, filho e irmão do homenageado, respectivamente, assim como os músicos guineense Justino Delgado e a angolana Ary.

10/06/2024  Última atualização 10H04
Yuri da Cunha e Manucho que aceitou o desafio para cantar um dos temas mais fortes do seu pai © Fotografia por: Luis Damião | Edições Novembro

No Jardim do Restaurante Alma foi montado o cenário para o segundo concerto temático de Yuri da Cunha para interpretar artistas que o inspiraram. O primeiro aconteceu no Royal Plaza, em Maio de 2021, quando "emprestou" a voz aos sucessos de Teta Lando.

O projecto, que surgiu durante uma tertúlia com o promotor cultural Carlos Alberto Jaime "Calabeto", nesta segunda edição arrancou com temas dolentes e que remetem à saudade de quem partiu muito cedo e era uma das melhores vozes do cancioneiro angolano. "Vamos celebrar a eterna voz do Semba, Carlos Burity,  cuja amizade e música vão iluminar os nossos corações para sempre", disse o artista momentos antes do concerto.

Os dois temas iniciais "Nzumbi dya Papá" e "Lolito", letras de Malé Malamba e Lulas de Paixão, ajudam a reforçar a capacidade que Carlos Burity tinha de dar "alma"  e voz a composições de outros autores. Tudo isso ficou marcado durante o concerto nas músicas escolhidas por Yuri da Cunha para homenagear o eterno homem do semba.

"Interpretar Carlos Burity é sentir e cantar Angola na sua essência mais pura. Tive o privilégio de viver momentos inesquecíveis ao lado do grande mestre, compartilhando música, risos e copos de vinho, do complexo da Samba aos recantos do Camama", lembrou com saudades o cantor.

Yuri da Cunha tem feito vários concertos temáticos em homenagem a outros artistas, tendo no passado interpretado Teta Lando e Artur Nunes, e formações históricas como Os Jovens do Prenda, que aconteceu no Muzonguê da Tradição.

 
Burity na voz de Yuri

Com o baixista Mayo na direcção artística da banda, o concerto combinou instrumentistas jovens com os já consolidados no mercado e com familiaridade no Semba, como os guitarristas Mário Gomes e Yark Spin, jovens que demonstraram que tinham fome de tocar quando chegou  "Onjala Yeya".

Tudo isso aconteceu numa altura em que o andamento rítmico acelerou em "Calema" e "Tonacaxi".

Yuri da Cunha reconheceu que teve dificuldades em absorver alguns temas do artista com quem aprendeu e partilhou momentos agradáveis. Fez dançar na sequência "Xixito", Uabite Boba" e "Narciso", marcos da renovação estética e da consagração do novo Semba que Carlos Burity trouxe ao cancioneiro angolano, de acordo com o investigador e jornalista Jomo Fortunato.

O artista explorou os lamentos e viajou para as baladas em "Mu Sanzala", "Olomangue" e "Lamento do Contrato". As influências latinas estiveram em "Te quero", "Mulololoke Santana" e "Santo António. "Malalanza", composição de Nsoky dya Nzenza, fez estragos na plateia, com Yuri a incorporar o bater de palmas de Carlos Burity com o microfone colado ao antebraço.

Ao longo da noite, Yuri da Cunha explorou o Semba pujante em "Minga",  "Manazinha", Mucagiami" e "Alucase", momentos em que o formalismo deixou de ser exercido, com todo o mundo a expressar publicamente o seu lado de apreciador da boa música angolana.

O artista levou ainda outros temas numa viagem ao passado que encerrou ao som de "Tia Joaquina", uma das incursões ao umbundu do artista Carlos Burity, que tinha o kimbundu como a língua principal da sua produção artística.

Com o trio Mayo Bass, Mário e Yark Spin estiveram no acompanhamento nos teclados Miqueias Ramiro e Booper, a secção percussiva teve Chalana Dantas e Chico Santos, que dividiram as congas ao longo do concerto, e o experiente Dino Silva  na bateria. Carla Moreno, Bevy Jackson e Ana Maria estiveram no coro.

Manucho ou melhor Ricardo Burity foi o convidado chamado a partilhar o momento em "Canção Nostalgia". O jovem, que não é músico, reconheceu ter sido uma grande responsabilidade subir ao palco, mas disse que sentiu orgulho por a obra do pai continuar a ser valorizada.

Por sua vez, Rialtino Burity, irmão de Carlos Burity, com algum percurso artístico e passagens pelo Facho e Conjunto Os Kiezos, começou por agradecer o gesto de Yuri da Cunha ao envolver os familiares na homenagem ao irmão.

O cantor fez reviver a carreira do mano com o sucesso "Ilha de Luanda", na altura pomar do amor e de encontros românticos que fizeram história.

A outra opção foi "Jingonça do Macaco", uma sátira social que retrata a calúnia, uma composição de Xabanú.

Rialtino fez um salto positivo deste momento de exposição como artista e anunciou o apoio de Yuri da Cunha para a gravação de músicas que tem produzido.

 
Parcerias musicais e solidariedade

O músico bissau-guineense Justino Delgado foi um dos convidados de honra da noite e fez o dueto em "Eji Taligo", tema tradicional trazido por Man Beto e que Burity contribuiu na sua mediatização. O ngoya combinou com o mandinga e fula. A artista Ary partilhou, mais uma vez, o palco com Yuri da Cunha e a música escolhida foi "Amor que dói e castiga".

A filantropia e solidariedade também marcaram o concerto, com o leilão de uma gravata de Carlos Burity, arrematada por 15 milhões de kwanzas pelo cidadão Luís Filipe Lélis, montante doado à Fundação Ana Carolina, que cuida de crianças com necessidades especiais.

Yuri da Cunha afirmou que tem uma relação muito estreita com este projecto de solidariedade, apelando a uma maior sensibilidade às causas sociais.

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