Cultura

Waldemar Bastos (1954-2020) : “Nos primeiros anos em Portugal fiquei a capinar sentado”

Quando contava apenas seis anos de idade, Waldemar Bastos foi surpreendido pelos pais a trautear canções de adultos, uma prática que foi revelando a sua prematura propensão para a música.

18/08/2020  Última atualização 07H38
Paulo Mulaza | Edições Novembro © Fotografia por: Waldemar Bastos gravou na memória as prisões e deportações dos nacionalistas angolanos

A condição profissional do seu pai, Carlos de Almeida Bastos, enfermeiro, provocou constantes transferências e deslocações da família para diversas províncias de Angola na época colonial. Por esta razão, Waldemar Bastos viveu em Mbanza Kongo, Luanda, Cabinda e Huambo, locais onde foi possível o contacto e absorção de várias aprendizagens culturais, factores que se revelaram de suma importância no processo de criação artística e construção da sua longa carreira musical.

De facto, a absorção da cultura musical luandense, plasmada em canções emblemáticas como “Velha Chica” e “Mungueno”, foi possível graças a frequência nos ambientes de tertúlia dos bairros Marçal e Indígena, no início dos anos sessenta. Deste tempo, Waldemar Bastos recordava com visível nostalgia, a velha Maricota, a Chiló, uma mulher que jogava futebol de bairro, e os mais velhos Sá Lemos, Lutero da Popa, Pedro Benje e Mário Campos, os dois últimos muito chegados ao seu pai, pela amizade.

Estávamos numa época de forte repressão colonial, 1961, e Waldemar Bastos gravou na memória as rusgas, prisões e deportações dos nacionalistas angolanos, factos que despertaram nele, enquanto compositor, um forte sentimento de pertença aos pressupostos culturais da angolanidade e de emancipação à cultura portuguesa.

Em Cabinda, com apenas oito anos de idade, e, curiosamente, num processo de auto-aprendizagem, Waldemar Bastos tomou contacto, primeiro com a concertina, instrumento diatónico gaulês cuja construção é semelhante a de um acordeão, note-se que o pai foi acordeonista e organista no seminário católico, depois com o acordéon, levando-o a optar, definitivamente, pela popularidade da guitarra eléctrica.

Logo depois, Waldemar Bastos formou a banda “Jovial” com Carlitos Freitas, guitarra ritmo, Lúcio Bastos, baixo, Faísca, bateria, e Fernando Gomes, guitarra ritmo, seu primeiro grupo musical com alguma consistência artística. Filho de Carlos de Almeida Bastos e de Guiomar Alonso de Almeida Bastos, Waldemar dos Santos Alonso de Almeida Bastos, Waldemar Bastos, nasceu em Mbanza Kongo, no dia 4 de Janeiro de 1954.

Influências 

Waldemar Bastos pode ser considerado, numa visão distante e inclusiva, um produto da genealogia musical de Mbanza Kongo e da tradição artística do grupo, São Salvador, de Manuel Oliveira. Na verdade, Waldemar Bastos passou pelas tertúlias musicais dos musseques de Luanda, dos contagiantes ritmos de Cabinda, do lirismo poético da musicalidade do Huambo, pelos movimentos “rockificados” dos então denominados “Conjuntos de Música Moderna”, incluindo as influências das sublevações estudantis pacifistas de Maio de 1968.

Destaque também para as influências da soul music norte-americana com os Jacksons Five, The Shadows, Nat King Cole e Otis Reding. Waldemar Bastos recebeu do pai a influência da música sacra, visível no registo expressivo da sua portentosa voz, que depois a veio emprestar, ainda em Cabinda, ao grupo “The Kings”. No Huambo, em 1968, tocou com o Zé Maria e Rui Carlos, pai da jovem cantora angolana Bruna, nas bandas “Quarta Dimensão”, “Orquestra do Ferrovia” e “Outra face”, num conjunto de influências que ditou o seu perfil artístico.

Prisão

Waldemar Bastos foi preso pela PIDE, em 1972, aos dezassete anos de idade, sob acusação de “actividades subversivas e mau comportamento”, comentou, angustiado, o próprio. Os pais presos e os irmãos na frente de combate, durante o recuo para Luanda em consequência da guerra no Huambo, e o apelo da avô, mãe do pai, autora dos versos “Filho não fala política, cuidado onde vais...”, foram ingredientes mais que suficientes para a criação da canção, “Velha Chica”, um tema que veio a ser gravado no seu primeiro álbum, “Estamos juntos” (1983).

Quarteto 

A necessidade de ressuscitar a dimensão telúrica da musicalidade luandense, e a partilha de uma estética concretizada na trova, foram os principais motivos do surgimento de um quarteto de cordas (quatro guitarras), em 1976, com os guitarristas Massangano, Quental e Marito. Foram sucessos deste quarteto, as canções “Velha Chica” e “Mungueno”, de Waldemar Bastos, e clássicos conhecidos do cancioneiro tradicional angolano.

Projecção

Waldemar Bastos ganhou, em 1977, o grande Prémio da Canção, num concurso promovido pelo Ministério da Cultura de Angola e participou em diversos festivais realizados em países do leste europeu, incluindo Cuba. Integrado, em 1982, numa delegação artística angolana ao FITEI, Festival Internacional de Expressão Ibérica, em Portugal, Waldemar Bastos decidiu permanecer em Lisboa e depois em Berlim, acabando por gravar, no Brasil, o álbum em vinil “Estamos juntos”, apadrinhado pelo cantor e compositor brasileiro Chico Buarque de Holanda, com participação dos cantores João do Vale e Martinho da Vila, músicos que estiveram em Angola integrados no Projecto Kalunga, em 1981, a maior caravana de músicos brasileiros vinda a Angola.

De volta à Europa, passou por França, país que, segundo Waldemar, é o mais acolhedor para a música proveniente do universo linguístico africano, sobretudo o francófono. Na sequência, decidiu permanecer em Portugal “onde nos primeiros anos fiquei a capinar sentado”, palavras de Waldemar Bastos.

Internacionalização

Em 1999, surgiu, milagrosamente, o cantor e compositor norte-americano, David Byrne, ex-Talking Heads, que se apaixonou primeiro pela capa do CD, “Angola, minha namorada”, quando passava por uma loja de discos em Lisboa, e depois pela música “Ngana”. Era o início de uma nova caminhada e motivo suficiente para gravação, nos Estados Unidos da América, do álbum “Pretaluz”, 1998, pela editora Luaka Bop, de David Byrne, com produção de Arto Lindsay.

Questões ligadas a uma deficiente promoção e distribuição do CD “Pretaluz” estiveram na causa da rescisão do contrato com a Luaka Bop. Na sequência, Waldemar Bastos abraçou os préstimos da editora “World Connection”, e gravou o CD “Renascence” que, segundo palavras de Waldemar Bastos ditas na altura do lançamento, “é um álbum que revela a profundidade da alma africana e, consequentemente, da angolana”.

Livro

Waldemar Bastos consta do livro “1000 Recordings To Hear Before You Die”, ( 1000 gravações para ouvir antes de morrer), escrito por Tom Moom, um dos mais respeitados e críticos de música dos Estados Unidos da América, onde o seu nome aparece no capítulo “Music to inspire reflection” (música para inspirar à reflexão) e “contemplação do Cosmos”, ao lado de J. S. Bach, uma referência universal da música clássica, dentre outros nomes consagrados da música internacional. Gravaram músicas de Waldemar Bastos, para além dos angolanos Génesis, os artistas Sadazzinia e Active Member (Grécia), Michaella, da Holanda, Hinka, Dulce Pontes e Boss AC, de Portugal.

Discografia comentada de Waldemar Bastos

A produção discográfica de Waldemar Bastos abrange um período de vinte e nove anos, que vai de 1983 a 2012, com uma obra variada e concebida em vários cenários artísticos, tanto do ponto de vista temático, como da concepção instrumental, incluindo importantes parcerias que propiciaram a sua projecção internacional.

O primeiro LP, “Estamos juntos”, em vinil, gravado no Brasil em 1983, constitui, quanto a nós, a obra paradigmática de Waldemar Bastos, pela qualidade artística dos textos e arranjos, prestação vocal, recurso às línguas nacionais e perfil dos convidados. “Marimbondo”, “Tereza Ana”, “Colonial”, “Humbi Humbi yangue”, participação especial de João Duvale “Mungueno”, “Lubango”, participação de Chico Buarque de Holanda, “Carnaval” e “Velha Chica” que teve a participação de Martinho da Vila.

Em 1990 surgiu no mercado o CD “Angola, minha namorada”, com os temas “Ndapandula”, “Nduva” (na morte da cantora), “Kiossongondofua”, “Zuimzuim”, uma canção esteticamente bem conseguida mas pouco referenciada, “Morna de Cabo Verde”, “Ngana”, “Eu sou do Kimbo”, e o tema que dá título ao CD, “Angola minha namorada”. Dois anos depois, 1992, surge “Pitanga Madura”, com as canções “Primavera”, “Futuro melhor”, “BasoluakeBaluakaco”, “Foi Deus”, “Guana”, “Saudação a Angola”, “Pitanga Madura” e “Waldemar”.

O álbum “Pretaluz” (Luaka Bop, 1997) marca o encontro com o cantor norte-americano David Byrne, com as canções “Sofrimento”, “Rainha Ginga”, “Muxima”, “Kuribôta”, “Morro do Kussava”, “Minha família”, “Menina”, “Querida Angola” e “Kanguru”. Waldemar Bastos dedicou o CD “Renascence”, 2004, ao Povo Angolano pelo 30º aniversário da independência nacional e pelos quatro anos de paz efectiva.

Fazem parte de “Renascence” as canções “Outro tempo novo”, “Água do Bengo”, “Esperança”, “Georgina”, “Pitanga madurinha”, “Dongo”, “Sabores da Terra”, “Paz, pão e amor”, “Renascence”, “Twendevossi”, e “Kuribota”.

Em 2008, gravou “Loveisblindness” dos U2 e, em 2012, “Classics of my Soul”, com a Orquestra Sinfónica de Londres nos temas, “Mbirin, mbirin”, “Aurora” e “Perto e longe”. Em “Classics of my Soul”, Waldemar Bastos regravou ainda “Humbi Humbi”, “Teresa Ana”, “Tata kumatadi”, “Pôr do sol”, “Muxima”, “Calção roto no rabo”, e “Nduva”, com a participação especial de Keiko Matsui, conceituada cantora e compositora japonesa.

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