Opinião

Vou é votar na educação!

Apusindo Nhari

Jornalista

– «Insistes sempre no mesmo!?» – resmungou o Tomé, que considera terem sido construídas imensas escolas e salas de aula, que o país tem muitas universidades, públicas e privadas, e não compreende o cepticismo do Quim, seu amigo de infância.

29/05/2022  Última atualização 10H07

– «Claro! Insisto e não sei que partido ganhará as eleições, mas já é hora de reconhecermos que a educação é o ponto de partida de qualquer mudança séria, do verdadeiro progresso».

É certo que o Tomé não lê livros, não se preocupou em continuar a aprender depois de acabar o Ensino Médio, é mais inclinado a ver televisão, a ‘postar’ nas redes sociais e a usar a maior parte do tempo em fofocas intermináveis.

– «Olha, meu amigo, sem revolução na nossa educação não há esperança de sairmos de onde nos encontramos» – retorquiu o Quim.

– «Revolução na educação?O tempo das revoluções já passou, palavra fora de moda!» – a incompreensão era sincera. Tomé não via o que está mal no país… Seguia uma cartilha e não a queria mudar – «Que é que queres realmente? Não vês o monte de escolas que andamos a espalhar pelo país? Não há noticiário que não fale em mais não sei quantas inaugurações!».

– «Pois, meu caro Tomé, esse é um dos nossos males. Fazermos a coisa pela metade. A obra de educar não devia parar com a inauguração... Mas depois de cortada a fita esquece-se a escola e ela resvala quase sempre para a degradação. Falta dar à escola o que é fundamental para que se ensine e se aprenda: respeitar os alunos, acarinhar e fortalecer os professores!».

Tomé faz um esforço para entender. "Faz-se tanto, mas parece que os resultados não satisfazem o meu amigo Quim". Sente-se confuso.

– «E não é tudo»– continua Quim –«É preciso um programa adaptado às necessidades das crianças das famílias mais pobres, que garanta pelo menos a alimentação para o seu desenvolvimento físico e intelectual. Como envolver a comunidade na preservação das escolas, na participação para enriquecer os programas e ajudar a resolver os problemas?!».

– «Espera aí! Estás a complicar. Só vês problemas. Não podes ignorar a enorme quantidade de crianças que entram todos os anos na escola! São bué! É um belo espectáculo vê-las, por todo o país, com as suas batas brancas, pela manhã!».

– «Lá estás tu com a ilusão do espectáculo e distraído pelo que brilha, esquecendo que algumas caminham quilómetros para chegar à escola. E vão, muitas vezes, com a  mobília  para se sentarem».

Quim pensa também na falta de planeamento familiar que aumenta exponencialmente a população, e agrava as coisas. Não é fácil acompanhar o ritmo a que ela cresce! É uma realidade que não podemos escamotear. – «Mais um milhão de crianças todos os anos!! De quantos professores precisamos! Porque não investir mais na carreira de professor, para que seja atractiva, para que mais pessoas optem por ela?».

– «Pois! Como é que queres que resolvamos isso se há milhões de novas crianças no sistema escolar todos os anos!» – reforçou o Tomé.

– «Já defendi que a quantidade deveria preceder a qualidade. Mas isso só funcionará se bem planeado para se ir transformando o ensino, introduzindo reformas paulatinamente, mas de forma consistente. Tem de haver visão, a força de uma verdadeira decisão política que não deverá depender do partido que estiver no poder. A educação só avançará se for uma questão de Estado, Tomé!».

– «Consistente como?».

– «Como? Umas vezes há merenda escolar, outras não! Umas vezes chegam os livros, outras não. Umas vezes produzem-se os livros no país, e quando as tipografias se equipam para responder às necessidades, importam-se os livros».

Consistência e continuidade são fundamentais em tudo. Indispensáveis para se concretizarem os planos. Reduzindo a gravidez  precoce, passando pelo acompanhamento das gestantes, dando atenção às creches, e ao pré-escolar, para que na  primária se possa dar o grande salto, cuidando sempre de preparar as crianças para o que aprenderão depois. Aprender a interpretar e a questionar…. Só assim evoluirão como bons estudantes, no ensino secundário, no profissional ou na universidade. Cultivando as habilidades e conhecimento necessários para fazer avançar o país. Com brio em fazer bem. Com vontade de aperfeiçoar.

– «Não se constroem edifícios a partir do telhado. Não se tem boas  universidades descurando sistematicamente os outros níveis de ensino...».

No fim, Tomé continuava sem perceber. Para ele estava tudo bem.

Quim tampouco compreendia porque é que o ensino público é menosprezado. "Não será por acaso que os filhos das classes dirigentes e das gentes privilegiadas não andam nas escolas públicas!”, pensou. Sabe que isso será sempre o mais indesmentível sintoma de que a Educação não vai bem.

Não lhe importa quem vença as próximas eleições, desde que seja a Educação. Uma educação pública de qualidade, consistente, organizada, séria e justa.

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