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Votação resiste à chuva

Os eleitores congoleses afluíram ontem às urnas para escolher os seus legítimos representantes, dentre os quais o actual Presidente da República, Joseph Kabila.

31/12/2018  Última atualização 06H00
DR © Fotografia por: Acto eleitoral na maioria das assembleias de voto da capital da RDC decorreu num ambiente tranquilo e ordeiro

A capital, Kinshasa, registou chuvas intensas pouco antes do amanhecer, mas a maioria das assembleias de voto abriu às 6 horas. Relatos de atrasos em diferentes locais associados à dificuldade de manuseamento das urnas electrónicas não terão posto em causa a realização das eleições gerais no país, com excepção das três regiões onde o acto foi remarcado para 19 de Março, por causa do novo surto de ébola e razões de segurança.
Até ao fecho das urnas, marcado para as 17 horas, não se registaram problemas de monta na capital e principais cidades congolesas. No entanto, ao fim da tarde começaram a circular informações dando conta de perturbações na província do Equador, onde o Exército saiu à rua para dispersar manifestantes com disparos. De Bakuvu também chegaram notícias de manifestações motivadas pela abertura tardia de assembleias de voto e falta de boletins. Em Kinshasa, porém, o acto eleitoral decorreu num ambiente tranquilo e ordeiro, tanto no centro da cidade quanto nas periferias.
Apesar da chuva, os eleitores começaram a perfilar-se à entrada das assembleias pouco antes da hora prevista para abertura das mesmas. No Instituto de La Gombe, situado no bairro com o mesmo nome, considerado o mais nobre de Kinshasa, a votação decorreu célere. Pelas suas catorze assembleias de voto passaram titulares de cargos públicos, cidadãos comuns e candidatos. Coincidentemente, o Presidente Joseph Kabila e Martin Fayulu, apontado como um dos principais candidatos à Presidência, votaram no local. Kabila exerceu o seu direito cívico por volta das 7h30 e o segundo aproximadamente hora e meia depois. Emmanuel Ramazani Shadary, aposta do partido governamental (Frente Comum para o Congo) votou na sua terra natal,Kasongo,  enquanto Félix Tshisekedi, herdeiro político de Etienne Tshisekedi (Chefe da mudança), escolheu fazê-lo no popular bairro de Tshango, zona de forte influência do seu partido. Joseph Kabila votou na mesa número 100013-1-A. Entrou e saiu rapidamente. Em respeito aos procedimentos, a agente eleitoral, identificada com o colete da Comissão Eleitoral Nacional Independente (CENI), conferiu o nome do estadista nas listas publicadas fora da sala de aula, confirmou a regularidade e decorreu a votação. A agente repetiu o protocolo com todos os outros eleitores, tendo tido o cuidado de revistar malas e mochilas. “Tudo em conformidade. O trabalho está a correr bem. Até aqui nenhum problema”, disse à reportagem do Jornal de Angola, sem se incomodar com as dezenas de jornalistas e câmaras de televisão que cruzavam os corredores do Instituto de La Gombe.

Martin Fayulu, da coligação Lamuka (despertar em lingala) não escondeu o optimismo quando chegou ao Instituto de La Gombe. Ao ser abordado pela imprensa angolana predispôs-se a falar um pouco mais do que as declarações de circunstância. “O processo está viciado desde o início. Estamos a referir-nos a um processo muito afectado e complicado pelo presidente da Comissão Eleitoral”. Acusou Corneille Nangaa, presidente da CENI, de “favorecer o senhor Ramazani para suceder ao Presidente Kabila”, mas sublinhou que tais “ma-nobras” não vão impedir a alternância. “Queremos mudança neste país, queremos uma alternância no poder e a partir de 2019. Precisamos de um novo Governo”, reiterou Martin Fayulu.

   O voto explícito na “festa” da democracia

Enquanto Martin Fayulu fazia as declarações à imprensa, alguns apoiantes se aproximaram. Mbumba Bibiche, que tinha sido entrevistada após votar, saiu a correr com o telemóvel para fazer fotos e gravar as palavras do político. “Apesar da chuva estamos para votar. Sinto-me muito feliz porque votei para as eleições do meu país. Votei para o candidato maioritário da oposição, para os deputados nacionais  e provinciais da oposição”, precisou. Durante a campanha apelou ao voto em Martin Fayulu. “Não sou da oposição, mas apoio a votação pela mudança”, frisou a jovem jornalista, temporariamente afastada da redacção em respeito ao código deontológico e à ética.  Hipólito Mboma, que se exprimiu em português, também não escondeu o “voto pela mudança. Espero que as eleições decorram em calma. Vamos aguardar pelos resultados”.
Polida e alheia à divulgação de preferências, Hortense Mukala Kyonde, directora adjunta do Gabinete de Joseph Kabila, apelou ao voto de forma pacífica. “O facto de aqui estarmos hoje representa uma vitória na consolidação das nossas instituições. Votamos pela democracia e pelo respeito dos direitos cívicos dos congoleses”, referiu. Civismo foi constatado pelo “JA” nas assembleias que percorreu em Kinshasa. Anexa à Paróquia da Santa Ana, da Arquidiocese de Kinshasa, funciona uma escola católica. É o College Saint Joseph. Os vestígios da chuva são visíveis no pátio cheio de lama. Aqui há mais gente. As filas são maiores, há menos figuras VIP. O processo decorre igualmente dentro da normalidade.
Representantes das cinco missões internacionais de observação, incluindo a da SADC, coordenada pela comissária Elizabeth Rank Frank, entram e saem dos locais de voto. Observam atentamente, tiram notas e trocam impressões entre si, mas evitam emitir opiniões. Em princípio deverão fazer amanhã um balanço preliminar sobre o processo de votação, depois de ouvidos os pareceres inerentes sobre a realização das eleições gerais noutras regiões do país. Quem não esperou para se declarar vitorioso foi Emmanuel Ramazani Shadary, candidato da situação. “Sou o vencedor”, disse, citado pela media congolesa. Coincidência ou não, na noite anterior o jornal principal do canal TELE 50 divulgou uma polémica sondagem que atribui vitória com margem percentual de 53,35 por cento dos votos a Ramazany Shadary. A sondagem teria sido executada pelo magazine Grands Lacs e posteriormente retomada pela televisão, conotada com o Governo. A mesma estação exibiu na véspera das eleições reportagens sobre inaugurações e obras de restauro. Mostrou o antes e o depois da reparação de uma ponte que conduz à terra natal de Patrice Lumumba. Um fervoroso “nacionalista e lumumbista”, assim descrito na matéria, destaca o empenho pessoal do Chefe de Estado para a concretização das obras que apresentam um emergente Congo modernizado.
A terminar o telejornal, o comunicado de um órgão público afecto ao sector exorta os jornalistas e todos profissionais da comunicação social a se absterem de publicar resultados e outras notícias susceptíveis de incitar actos violentos. A autoridade em questão recorda aos profissionais de media, actores sociais e políticos que a publicação de resultados é da competência exclusiva da CENI. Quem agir em sentido contrário sujeita-se a acções ao abrigo da legislação em vigor na RDC. Entretanto, o Presidente Joseph Kabila, que decretou indulto para os presos com penas até 3 anos, endereçou uma mensagem à nação no sábado, encorajando os eleitores a votarem de forma cívica de modo a que “o povo congolês dê uma lição de democracia ao mundo”.
A República Democrática do Congo jamais conheceu um processo de transição pacífico desde a sua independência da Bélgica em 1960. Segundo maior país de África, tem uma população estimada em 85 milhões de habitantes. Desses, 47 milhões estão em condições de votar. Só em Kinshasa os eleitores habilitados atingem a cifra de 14 milhões. Para as eleições realizadas a uma volta, é declarado vencedor o candidato que obtiver o maior número de votos, independentemente da percentagem.

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