Cultura

Viver da venda ambulante de chá e café

Os pacotinhos de leite e de café presos ao avental preto, assim como os copos e a garrafa de plástico cheia de açúcar, como que espreitando dos bolsos, a mochila nas costas e a garrafa térmica, dão-lhe a imagem de um soldado que vai à guerra.

29/08/2021  Última atualização 07H55
Dânia Eduardo © Fotografia por: DR
E é isso que Dânia Eduardo, 29 anos, faz de segunda a sexta-feira, quando calcorreia os mais variados caminhos vendendo bebidas quentes como o café, o galão e o chá de capungo-pungo. É a estratégia de sobrevivência em que estão envolvidos milhares de jovens e na qual.

Dânia Eduardo decidiu enveredar depois de ter perdido o emprego, como consequência do despedimento dos funcionários do supermercado onde trabalhou. A rotina já leva dois anos. Caminha do bairro Nocal, no município do Cazenga, até à área da Tourada, na Maianga. Um percurso que para Dânia se tornou tão curto, tão curto mesmo, de tanto o percorrer todos os dias, com ganhos não só financeiros mas também, segundo afirma, para a sua saúde.

"Quando não se tem tempo para exercitar, o caminhar já ajuda”, realça.Para ela o tempo urge, o tempo que, desde o início, se tornou tão precioso para ganhar o aceitável. "Não sou uma mulher de estar na placa. Não gosto de ficar parada muito tempo. Atendo, converso um bocadinho e continuo a caminhar”, conta.A sua preocupação é ir atender os clientes que já fidelizou, considerando muitos deles como membros de uma família que, a cada dia, se vai fazendo mais extensa. 

Como conta Dânia Eduardo, algumas vezes tem de servir alguns clientes a crédito, quando alegam não terem dinheiro para pagar o que pretendem consumir, "com a promessa de saldarem a dívida posteriormente”. Ela sublinha que quando se aceita que um cliente de costume pague depois - sendo isso "uma maneira de o conquistar, de manter uma relação de confiança” -  não se corre o risco de o perder. E ao mesmo tempo que entende que os muitos kilapis tornam o negócio complicado, a vendedeira prefere vê-los também numa perspectiva de poupança.


"Não ser pedinte”Em média, Dânia Eduardo lucra entre sete e oito mil kwanzas por dia, num negócio em que investiu cinco mil kwanzas na compra dos primeiros produtos. Ainda assim considera pouco os ganhos do negócio ao qual se entregou para garantir a medicação da sua filha de nove anos de idade, que nasceu com paralisia infantil. "O tipo de xarope que ela tem tomado compro de três em três dias e cada frasco custa-me entre sete mil e oito mil kwanzas. Antes da Covid-19, o medicamento custava oitocentos kwanzas”.

A jovem chama atenção para as pessoas que, mesmo podendo trabalhar, mesmo podendo fazer algo para garantir o seu sustento, preferem levar uma vida de pedinte. "O negócio pode não ser muito lucrativo, mas se você souber lidar com o mesmo vais ver que consegues fazer alguma coisa e não ser pedinte”.

E foi graças à poupança, que fazia antes de perder o emprego, que conseguiu comprar o kit que usa no negócio.Dânia Eduardo, como vendedeira ambulante, sabe que a área onde se vai vender "também influencia nos ganhos”, sendo determinante na obtenção de lucros. Mas, no seu entender, mesmo que os ganhos não sejam altos "não se deve desistir”.

Anima-a o facto de quase todos os dias surgirem novos clientes e ter sempre condições de os atender, pois quando acaba o litro e meio de água com que sai de casa recorre às cantinas, onde, para além de comprar a água, aproveita para aquecê-la. A sua caminhada começa por volta das cinco e meia da manhã e vai até pouco depois das nove horas.

Durante todo esse tempo de actividade, a negociante conta ter aprendido alguma coisa que lhe permite saber gerir bem as suas finanças. Para ela, "o melhor vendedor tem de saber ganhar e perder. Deve saber lidar com os poucos ganhos e não desistir, pois não é todos os dias que se vende bem”.Quinze mil kwanzas é o valor máximo que Dânia Eduardo conseguiu fazer "num só dia”, num negócio que lhe dá esperanças de melhorar a sua vida e a da sua família.

António Capapa

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