Política

Vítimas do 27 de Maio: Ossadas de Luzia Jai repousam em Benguela

Arão Martins / Benguela

Jornalista

As ossadas de Luzia Leopoldina Jai, nascida em 1953 e morta em 1977, na província do Huambo, no âmbito dos acontecimentos do 27 de Maio, repousam, desde quarta-feira, quarta-feira, no Cemitério da Camunda, arredores da cidade de Benguela.

20/06/2024  Última atualização 10H43
© Fotografia por: Arão Martins | Edições Novembro

Descobertas numa vala comum no perímetro adjacente ao Aeroporto Albano Machado, na província do Huambo, as ossadas foram entregues à família pela Comissão de Reconciliação em Memória das Vítimas de Conflitos (CIVICOP).

O porta-voz da família, Jai Ventura, enalteceu o gesto e considerou a entrega das ossadas como um apaziguador de almas, sobretudo da família, que há muito desejava dar ao ente-querida um funeral condigno, cujo acto foi presenciado pela comissão organizadora de exéquias do CIVICOP.

Jai Ventura destacou a importância de se dar conforto às famílias e o repouso das almas daqueles que partiram. Reforçou que esta acção que o Executivo tem levado a cabo está a acalentar as famílias e a apaziguar as almas dos que partiram de forma trágica, depois de um longo processo de guerra, o que é "extremamente importante” para a reconciliação entre os angolanos.

O presidente da Fundação 27 de Maio e membro da CIVICOP, general reformado Silva Mateus, que procedeu à entrega da certidão de óbito e o relatório de genética à família, fez saber que naquela vala comum foram encontradas mais ossadas, cujo processo de identificação prossegue.

Sequência do processo

O general reformado Silva Mateus esclareceu que o acto de entrega das ossadas é a sequência do que já foi feito e que tem estado a ser executado ao longo dos últimos tempos no país. "Desta vez, nos deslocámos a Benguela para entregar as ossadas de uma cidadã que pereceu em consequência dos acontecimentos do 27 de Maio de 1977. As ossadas foram localizadas pela CIVICOP e nós acompanhámos o processo para dar um enterro condigno à malograda”, disse.

Explicou que é um acto triste, porque se está num óbito a recordar alguém que morreu de forma trágica, mas ao mesmo tempo é um processo gratificante, porque acalenta os corações da família por realizarem um funeral condigno da sua ente-querida.

"Apesar de ser um mo-mento de muita tristeza, as famílias sentiram-se consoladas por poder dar uma sepultura a quem não se sabia onde estavam as suas ossadas”, afirmou.

Silva Mateus enalteceu, por outro lado, o Presidente João Lourenço, que conseguiu, com este gesto de elevada magnitude, criar a comissão que "está a resolver este problema de apaziguar os espíritos e dar dignidade aos que partiram numa situação muito sensível para as famílias angolanas”. Garantiu que é mais um acto de memória que cala fundo no seio das famílias a que se seguirão outros.

Apelou às famílias que tenham perdido parentes no período entre 11 de Novembro de 1975 e 4 de Abril de 2002, durante o conflito político, que requeiram as ossadas junto da Subcomissão de Localização da CIVICOP.

Além do requerimento, disse, é preciso que as famílias se dirijam ao Laboratório de Criminalística para fazer a recolha do DNA, que será cruzado com as ossadas das pessoas que foram encontradas.

Explicou que na vala comum, descoberta no Huambo, foram encontradas ossadas de mais pessoas, cujo trabalho de identificação está em curso. "Essa não foi a única vítima que se encontrava naquele buraco, mas há outras que o Laboratório está a identificar”, afirmou, salientando que poderão não estar totalmente identificadas por falta do exame do DNA, porque algumas famílias desconhecem ou porque não acham que o seu parente tenha sido enterrado numa vala comum.

Informou que muitas valas comuns já foram identificadas e há outras por identificar. Afirmou que é um trabalho aturado e abnegado, além de sensível, solicitando alguma paciência às famílias das vítimas.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Política