Entrevista

Virgílio Coelho: “As populações acreditam piamente nos poderes do Kilamba”

Isaquiel Cori

Jornalista

Agostinho Neto, Presidente-Fundador da República, era profundamente conhecedor da Cultura dos povos de Angola. Prova disso, além dos célebres discursos sobre a Cultura Nacional e de toda a sua obra poética, é o antropónimo Kilamba que ele, enquanto guerrilheiro, adoptou como seu nome de guerra.

18/09/2022  Última atualização 07H05
© Fotografia por: DR

O Jornal de Angola procurou o antropólogo Virgílio Coelho, um dos maiores especialistas sobre a história do antigo Reino do Ndongo e sobre a cultura das populações Kimbundu,  para nos explicar o significado histórico, religioso e espiritual do antropónimo Kilamba. Inevitavelmente a entrevista abarcou outros campos de estudo e o contexto das pesquisas do antropólogo. A base da conversa foi a leitura da sua obra "Os Túmúndòngò, os ‘génios’ da natureza e o Kílàmbà. Estudos sobre a Sociedade e a Cultura Kímbùndù” (Editora Kilombelombe, 2010)

 

O que significa o antropónimo Kilamba? E o composto Kilamba Kyaxi?

Para responder a sua pergunta temos que ver em primeiro lugar o entendimento que geralmente se tem do termo antropónimo. A onomástica é uma parte da linguística que estuda os nomes, enquanto que a antroponímia, de acordo com a onomástica, é formada por duas palavras: anthropos + nymia,isto é, "homem” + "nome”, sendo um termo que etimologicamente designa o "nome dos homens”. Deste modo, a antroponímia refere-se ao estudo dos nomes próprios, sobrenomes e apelidos. Assim, passando ao fundamental da sua pergunta esclareço que em geral nas línguas bantu e em particular na língua kimbundu, o designativo Kilamba é um termo polissêmico e complexo. Por um lado, designa o titular ou detentor de um cargo político que exerce funções junto de um chefe político do tipo soba; em segundo lugar indica o desempenho de um especialista,que é um exorcista nas sociedades de tradição. Em resumo, a função de um Kilamba articula-se no âmbito político e religioso. Ilamba, o plural de Kilamba, designa o nome de um território que durante os séculos XVI-XVII era o nome de uma província (mudinda) do Estado Ndongo ou, tal como ficou mais conhecido na história, o Reino dos Ngola. Já o designativo composto Kilambakyaxi, ou seja, Kilambakyaixi, quer dizer "Dignitário”, "Senhor” ou "Mestre da terra”; trata-se, igualmente de um título político, desta vez composto. Como Agostinho Neto era então conhecido como Kilamba, quem na ocasião dirigia a província de Luanda, ao promover a criaçãode um novo município, designou-o por Kilambakyaxi, isso com vista a honrar a memória do Presidente. Deste modo, o antropónimo inicial passa a ser considerado um Axiotopónimo, porque este implica "topónimos relativos aos títulos e dignidades que acompanham nomes próprios individuais”, mas também pode ser considerado como um Anthropotopónimo, por dizer "respeito a nomes próprios individuais: prenome, hipocorístico, prenome mais alcunha, apelido de famílias e prenome mais apelidos de família”. Escreve-se kyaxi porque entre duas vogais deve entrar sempre uma semi-vogal.

 

Agostinho Neto ao atribuir a si próprio o antropónimo Kilamba, como nome de guerra, assumia o seu nascimento como tendo sido "extraordinário”, assim como o seu destino?

Quem conhece o significado do antropónimo Kilamba pode realmente pensar assim; contudo, devemos ser no mínimo cuidadosos. Por isso, respondo-lhe positivamente quanto à assunção do título e acrescentarei assunção numa fase contemporânea, pois, com efeito, enquanto guerrilheiro, Agostinho Neto assumia a identificação de Kilamba, visto que era praticamente obrigatório cada combatente ter uma identificação de guerra. Porquê numa fase contemporânea? Porque esse designativo Kilamba é um dos mais antigos títulos políticos utilizados pelas populações e comunidadesKimbundu e que chegou aos nossos dias. Quanto ao mais, vou responder-lhe por dedução, visto que nunca tive a oportunidade de abordar o assunto com o Presidente Neto. Contudo, sendo ele um extraordinário conhecedor da sua língua e cultura, e repare, falo desse modo pela leitura dos seus escritos e, sobretudo, de muitos dos seus poemas onde encontramos inúmeros traços, marcas e símbolos da cultura ancestral, tenho a convicção que ele conhecia o papel e o significado desse título oriundo da sociedade de tradição; finalmente, quanto a saber se ao utilizar a identificação de Kilamba o Presidente Agostinho Neto assumia o seu nascimento como tendo sido extraordinário e o seu destino enquanto tal,nada lhe poderei adiantar... Assumiu a identificação, sim, que sabia o seu significado é, creio, mais do que claro, mas não acredito que este tenha assumido a natureza mística do título enquanto personagem. Perguntar-me-á porquê e eu responderei com algo que para mim é indubitável: pela sua formação ideológica que o colocava na condição de marxista-leninista assumido, o Presidente tinha ultrapassado há muito as questões e problemas das sociedades de tradição em Angola, muito particularmente da religião. Para ele, a solução a encontrar para a resolução dos problemas entre as sociedades de tradição e a nova sociedade a criar teria que passar necessariamente por um diálogo em que, embora reconhecendo a sua importância, interpunha-se o espírito de modernidade que, de qualquer forma, era ou é prenúncio do futuro. O homem novo era um projecto de que Neto acreditava e que estava naturalmente predisposto a impulsionar e a desenvolver. Quais eram as suas implicações, não sei!... Entendamo-nos: Neto não teve nem tempo nem possibilidade de levar adiante o seu programa de dirigente do MPLA-Partido do Trabalho e do Governo da nossa República Popular. Era desse modo que estaria a dar conta do seu destino, não sei, confesso ser impossível responder-lhe...

 

Como é que os pais (ou a própria comunidade) se dão conta que estão diante de uma criança predestinada a ser Kilamba? Quais são os sinais?

Em primeiro lugar temos que olhar para a sua pergunta porque ela parece estar um pouco inquinada; nenhuma criança nasce predestinada a ser Kilamba. A predestinação está relacionada com a característica do nascimento!...E é a partir daí que tudo vai acontecer!...Antes de mais nada temos que atender às características do nascimento;saber se uma determinada criança nasce ou não na condição de "génio” e quem é que determina essa condição. Na cultura kimbundu são várias as palavras para designar um "génio”: kiximbi, kituta ou kyanda.Entretanto, geralmente, nas sociedades de tradição em África, observamos que há indivíduos - homens e mulheres - que se sobressaem pela natureza das suas qualidades,desempenho e prestígio. São pessoas para as quais a comunidade devota respeito, crédito e confiança, sendo, geralmente, estas chamadas a desempenhar papéis importantes na resolução de problemas na comunidade. Temos observado muitos exemplos, tais como: o chefe político, o ferreiro, o médico e adivinho, mas também o exorcista, o caçador, o músico, o guardião das tradições e história da comunidade, enfim, a parteira. Vamos nos referir a esta última porque são as parteiras que têm dado um contributo muito importante para a manutenção e a continuidade da vida no seio da comunidade, ao assistir as mães no trabalho de parto. No acto de nascimento de uma criança são elas as primeiras a se dar conta da natureza do parto e do nascimento de um novo rebento. Se nasce com pés à frente, se nasce raquítico, se o parto é gemelar, se a criança nasce com os membros superiores e/ou inferiores inanimados, se nasce com cabeça anormalmente grande, às vezes com uma coifa, se nasce com a gengiva dura denotando que já nasce com dois dentes à frente, enfim, uma série de características que alguns especialistas denominam "nascimentos anormais”. Não é uma terminologia que me anime ou agrade!... Ora ao longo dos meus trabalhos de campo registei um número elevado de nascimentos como os que apontei e que essas populações as colocam sob o signo de um "génio” da natureza, que se identifica através de pelo menos três termos, tal como apontei antes: kiximbi, no interior continental; kyanda, na faixa marítima atlântica e kituta, um pouco por todo o lado. Ora são as parteiras quem primeiro detectam quem nasce e como nasce e são elas que os identificam e alertam aos pais e, sobretudo, ao chefe da comunidade, de modo que conjuntamente se engajem no tratamento das questões místicas à volta do recém-nascido. Enfim, resumindo: saber se uma pessoa nasce "predestinada” depende sempre da forma como ela se apresenta na altura do parto e como ela nasce... Um bom exemplo é, por exemplo, o da soberana Njinga a Mbande, que nasceu com o cordão umbilical enrolado e logo no acto as parteiras denotaram a sua predestinação, alertando para o que ela poderia vir a ser no futuro e alertando para a necessidade documprimento estrito dos rituais que lhe são devidos  fossem feitos; e, de facto, pelos escritos deixados pelo padre capuchinho italiano Giovanni António Cavazzi de Montecúccolo, Njinga foi uma mulher destemida, respeitada pelo seu povo, incansável lutadora e chefe política  que desempenhou um importante papel na luta contra os conquistadores portugueses e cujo carisma ficou mundialmente conhecido. Por tudo isso a sociedade tinha apontado a sua predestinação!...

 

E normalmente o Kilamba identificado à nascença acaba sempre por cumprir o seu destino?

Se percebeu o que se disse na resposta anterior, nenhum indivíduo nasce Kilamba ou é identificado à nascença como tal. Para se chegar a essa condição temos que observar dois passos: primeiramente, a criança tem que nascer com as características de um "génio”, quer dizer, de um ser que se apresenta com algumas características semelhantes àquelas que apontei anteriormente; depois, passa-se para a manutenção de inúmeros rituais durante a infância, juventude e início da idade adulta. São esses rituais e respectivos tratamentos reais e simbólicos que vão determinar se este está ou estará apto ou não para exercer com confiança, brio e consciência o título em questão.

 

De certo modo nascer como um "génio”parece ser uma maldição, pois a criança sofre bastante e tem de ser submetida a tratamentos, a ritos de exorcismo, para controlo dos seus poderes?

Não acredito que as populações vejam isso como sendo uma maldição, antes pelo contrário. Eu acho que elas vêm isso como uma salvação, uma vez que acreditam piamente nos poderes do Kilamba. Se há uma praga de gafanhotos, ou ataques constantes de elefantes, se há falta de chuvas ou, pelo contrário, se há chuvas em excesso e com isso inundação dos espaços de plantação, a salvação estará nas preces e organização de cerimónias propositadamente organizadas pelo Kilamba e que, quando surtem efeito, ele aparece sem dúvida como um herói. Portanto, entendem, ter entre nós um chefe, um exorcista, um especialista preparado para dar solução a esses múltiplos problemas é, para toda a comunidade, uma garantia à partida de bem-estar e salvação contra todos os males. Eu ouvi muito recentemente uma reportagem feita a um dos jisoba (plural de soba) de Catete, efectuada por um jornalista, onde ele explica com toda a clareza que até me impressionou, como é que tudo se passa quando se tem um especialista do tipo Kilamba na resolução dos múltiplos problemas que o quotidiano campesino enfrenta. E, repare, Catete não está muito longe, Catete fica logo aqui atrás!...


Sem os ritos garantidos pelo Kilamba "o soba não é nada”

Não sendo os Ilamba(plural de Kilamba) pessoas comuns, eles nascem de longe em longe?

Em termos de números não tenho registo estatístico para poder avaliar a sua pergunta. Mas posso responder-lhe partindo de um facto mais do que evidente. Quando o antropólogo Ruy Duarte de Carvalho estudou os pescadores da faixa marítima, a faixa lagunar e sedimentar de Luanda, ele escreveu que há muito que não eram efectuados os rituais à Kyanda e uma das causas estava relacionada com a inexistência de um Kilamba. Para efectuar os rituais que são devidos ao "génio” das águas (que nas sociedades de tradição aqui em Luanda, é mais conhecida por Kyanda), os pescadores tiveram que ir buscar um "mestre” na província do Bengo. Durante os meus trabalhos de campo observei o trabalho de alguns rituais e o Kilamba teve que ser procurado na Muxima que, diga-se de passagem, é ainda um pouco distante de Calumbo. Antigamente, e posso levar esse antigamente para o século XIX, pois há registos históricos que encontrei em vários jornais e me serviram para analisar e comparar aos meus registos, contava-se um Kilamba para cada região e os ritos eram normalmente observados. Se hoje os Ilamba vão rareando é porque cada vez menos vai nascendo esse tipo de pessoas-génio e isso certamente pelas mudanças que diariamente vão ocorrendo (qualidade de vida) e as pessoas vão-se mudando para as cidades ou para os principais centros urbanos (espírito de modernidade) e esses elementos das sociedades de tradição vão sendo esquecidos e desaparecendo aos poucos...

 

Um soba na região do antigo Reino ou Estado do Ndongo é necessariamente um Kilamba?

O título soba tem ampla significação: ele é soba, soba yonene, mbanza e kilamba. São essas estruturas políticas que desde há séculos constituíam os denominadores comuns da estrutura política do Reino ou Estado do Ndongo. Entre os Ndembu, além dos já citados, há também que ter em conta o título Ndembu. A função do Kilamba é de grande-valia e de prestígio, visto que é ele quem assegura a razão "titular” do soba, ao garantir-lhe o poder através dos ritos consagradores que ele comanda e executa. Sem esses ritos o soba não é nada, não é ninguém. Mas para responder mais concretamente à pergunta, é possível que no princípio ambos os títulos estivessem fundidos num único indivíduo. Mas, possivelmente, a especialização levou a separá-los acabando hoje por se observar a existência e o trabalho de dois especialistas.

 

O Kilamba dos Ambundu tem alguma similitude com o Kalitangi dos Ovimbundu?

Em relação a esta pergunta vamos começar primeiro por esclarecer o que entendemos em relação ao designativo  Ambundu, que é um termo que, em meu entender, não designa povo. Mas muitas pessoas pensam que esse termo Ambundu (singular: Mumbundu) significa povo. Eu não penso assim, visto que Ambundu significa unicamente "negro”, "negros”, isto é, "pessoa” ou "pessoas de cor negra”, não está nem um pouco relacionado com a significação de comunidade e muito menos de povo. O povo e a língua desta comunidade é Kimbundu, e quando se quer referir à sua consciência como comunidade ou povo, eles são Akwakimbundu (singular: Mukwakimbundu). Então, é bom que as pessoas passem a reflectir e a compreender o significado das coisas, o significado das palavras. Não têm que seguir aquilo que os pesquisadores coloniais escreviam. Mesmo entre os Umbundu (povo) e umbundu (língua), é comum apresentá-los como Ovimbundu (no plural) e Ocimbundu (no singular), mas se se tem em conta esses termos, um designa "uma pessoa” e o plural "várias”; não determina a consciência de povo, que é o designativo Umbundu que aparece como determinante enquanto povo e língua. Quanto à pergunta responderei prontamente que não; aliás, o termo Kilamba não entra no esquema conceptual que é dado pela mitologia como aquele que ocorre com NdalaKalitangi, estudado pelo colega e amigo Luís Kandjimbo. Entre nós, o personagem que nos parece estar mais próximo e se conjuga com a ideia que é dada por Kalitangi é possivelmente o de Kimalawezukya Tumba a Ndala a Samba... O significado correcto desse "ser” ou "herói primordial”, que é extremamente complicado e de grande importância para a história antiga dos Kimbundu, foi por volta do ano 2000 motivo de um seminário que orientei no Rio de Janeiro, Brasil, e cujo texto poderá ser encontrado na revista Metamorfoses Revista de Estudos Literários Luso Afro-Brasileiros da Cátedra Jorge de Sena da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

Tem informação se Agostinho Neto na infância foi identificado como um"génio” Kituta e se ele terá passado pelos rituais de iniciação e consagração por que passa geralmente um Kilamba?

Não, não tenho qualquer informação fidedigna acerca das características do nascimento, nem da infância do Dr. António Agostinho Neto. Mas eu acredito piamente que a parteira ou as parteiras que estiveram no acto do seu nascimento o terão possivelmente identificado como o nascimento de um "génio” cujas características são de um "ser” Kituta... Também não posso afirmar se a família, quero dizer, os seus pais, o terão submetido aos rituais apropriados... Tudo quanto posso afirmar sobre o assunto são deduções. É por isso que eu gostaria de aclarar que um qualquer indivíduo que tenha nascido com as características de um "génio” ou "ser” do tipo Kituta e que tenha sido iniciado em rituais para abrandar o seu "poder” não se faz de um dia para o outro. Isso leva muitos anos e o abrandar a fúria e poderes com que a criança nasce faz-se com o tempo e com muita paciência. Enfim,o facto de ter passado por inúmeros rituais não o faz obrigatoriamente um Kilamba. Os rituais executados têm por efeito abrandar ou acalmar sobretudo a fúria, a intensidade(entenda-se o poder excessivo com que nasce) de  que a criança é portadora  e dos consequentes rituais e tratamentos a que ela é submetida...

 

A dado passo do seu ensaio refere que Kilamba também tem uma origem política, pois designava os chefes que viviam na província de Ilamba, do Reino do Ndongo, em épocas anteriores ao Século XVI. Ao fim e ao cabo Agostinho Neto ao chamar para si o nome Kilamba estaria a assumir simbolicamente a dupla componente sobrenatural e histórico-política do antropónimo?

Esta é a ideia que retive a partir das informações mais antigas que nos chegaram, desde os séculos XVI-XVII. Possivelmente, numa primeira fase, o chefe político ou soba era também um exorcista, isto é, umKilamba;desse modo, tornara-se, pois, um chefe político e religioso. No entanto, deve ter-se passado algo de maneira que em um determinado momento o poder do chefe político deixou de se tornar autónomo e passou a depender do Kilamba que, através de ritos de consagração, passou a assegurar-lhe uma força mística... Mas isso não quer dizer que no passado umKilamba tinha mais poder do que um Soba ou que lhe era superior hierarquicamente, mas apenas que se tornaram duas forças especializadas paralelas. Foi essa condição que chegou na forma dualnos dias de hoje. Como sabe, o nome em África tem um amplo significado porque depende muito da língua, da cultura e da realidade psicossocial. Agostinho Neto ao escolher o antropónimo Kilamba para conviver no espaço da guerrilha, assumia obviamente essas três componentes e sobretudo o do domínio político, que esse nome lhe garantia; mas também, como se sabe, sendo de formação e vivência marxista, entendemos  ser impensável uma assunção da visão sobrenatural que o designativo Kilamba comporta.

 

Quando fez a pesquisa de campo em Calumbo estava à procura de elementos para o estudo da "religião tradicional” da população local. Lá ainda sobrevive uma "religião tradicional africana” autónoma? Ou subsistirá sincreticamente no seio do cristianismo?

Referiu-se a uma "religião tradicional africana”... Antes de responder a sua pergunta vamos primeiro rever essa questão. É comum ser utilizado o termo "tradicional” para caracterizar muitas coisas em África, nomeadamente a "cultura”, a "religião”, enfim, a "sociedade” e mostrar que em África tudo é tradicional, tudo é fixo, nada muda, mantém-se tal como foi sempre. Ora, esse termo não é o melhor para caracterizar os contextos sociais africanos. É que, o adjectivo "tradicional”, mesmo quando se apresenta entre aspas, é inadequado, para não dizer depreciativo; o adjectivo "tradicional” não é inocente senão aparentemente. Utilizado de forma espontânea, por oposição a "moderno”, veicula a ideia obscura de um corte radical entre o antigo e o novo. Atira assim o antigo para um quadro estático, uniforme, sem história e sem profundidade, em que todos os pontos parecem rigorosamente contemporâneos, reservando para a categoria do moderno o prestígio da mudança, ou, numa palavra, da historicidade. Concluindo, mais vale, sempre que possível, usar o substantivo "tradição”, em vez do adjectivo "tradicional”, dando particular atenção às "tradições do saber”, ou seja, os processos de transmissão do saber, com a carga activa que a expressão comporta (do latim tradere, transmitir), em vez dos "saberes tradicionais”, ou seja, os resultados dessa transmissão, com a carga passiva que o termo latino (traditium, particípio passado de tradere: aquilo que é transmitido) comporta. Daí que, em vez de "religião tradicional”, sugerimos que se fale em religião nas sociedades de tradição. Voltando então à sua pergunta responder-lhe-ei que sim, ela subsiste e enquanto aquilo que a sustenta permanecer observaremos sempre uma forma de expressão que obviamente denota um contexto religioso que se expressa de forma dual: por um lado as crenças, os sentimentos e as acções encaminham-se para a realidade económica, social e ambiental que caracteriza o endógeno e, por outro, para uma inclinação para os sentimentos cristãos, nomeadamente católico e protestante, que funcionam a partir de lugares específicos de culto: as igrejas. Observam-se assim duas formas de entendimento religioso que permanecem e continuam de forma autónoma, em que não se observa quaisquer formas sincréticas...

 

O culto aos génios Ituta ainda é uma realidade nas comunidades de Luanda e do Bengo?

Obviamente, ele está extraordinariamente enraizado nas crenças das sociedades de tradição e determinam o modo de vida dessas populações e comunidades. Ademais, essas crenças integram o seu sistema religioso que, geralmente, andam de par com as crenças religiosas cristãs. No entanto, estas últimas não anulam aquelas, nem muito menos se observam sincretismos. Estão ambas enraizadas em contextos múltiplos e recebem créditos das populações e, por isso mesmo, permanecem e determinam realidades próprias. Um exemplo bem visível são as cerimónias religiosas que anualmente são realizadas à Kyanda, nas comunidades costeiras de Luanda ou à Kituta, no platô de Luanda; outras vezes, são os cultos devidos à morte de alguém nas comunidades. As cerimónias têm implicações próprias, por um lado são realizadas na Igreja e, por outro, na residência do falecido; geralmente, o que se passa aqui são cultos próprios das sociedades de tradição, não há vestígios de sincretismos; observa-se que ambas são válidas e que não há misturas; o corpo antes de chegar ao cemitério recebe tratamento místico apropriado em casa; no cemitério, o depósito do corpo na terra é geralmente antecedido de culto cristão.

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