Política

Vinda do Presidente da Turquia gera expectativa de dinamização de negócios

Cristóvão Neto

Jornalista

Os meios empresariais reúnem expectativa nos meios de que a visita oficial de dois dias que o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, inicia hoje a Angola desencadeie a dinâmica da cooperação estratégica concertada com acordos institucionais quando, em Julho último, o Presidente da República deslocou-se àquele país.

18/10/2021  Última atualização 12H40
Presidente João Lourenço a discursar no Fórum Empresarial Angola-Turquia realizado em Ancara, em Julho último © Fotografia por: Kindala Manuel | Edições Novembro
Naquela ocasião, em Julho, Angola e a Turquia assinaram dez acordos de cooperação nos domínios do comércio, recursos minerais e dos transportes, além de entendimentos de índole consular e diplomática, mecanismos que podem ser vitalizados com a assinatura de novos acordos declarada, ontem, com o anúncio oficial da visita pelo Presidente Erdogan.
No quadro dos acordos


de Julho, a companhia aérea turca Turkish Airlines iniciou, na última quarta-feira, ligações semanais entre Istambul e Luanda, uma operação que se afigura promissora por servir os fluxos de comerciantes e outros operadores angolanos que se abastecem no mercado turco.

"As operações da Turkish Airlines vão impulsionar as trocas comerciais”, declarou Fernando Flo, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Angola-Turquia, uma associação que ajuda empresas dos dois países a elevarem o desempenho num e noutro mercado e que pode significar que, aos dois Estados, resta apenas viabilizar as ligações já estabelecidas entre pessoas e empresas.  


É esperada evolução relativa ao entendimento conseguido quanto à instituição, pelo Eximbank da Turquia, de uma linha de financiamento para a execução de infra-estruturas contratadas pelo Estado, algo que se inclui entre as maiores expectativas reunidas em torno desta visita.

Com operações de Investimento Directo Estrangeiro, segundo números da AIPEX, cifradas em 200,13 milhões de dólares, a Turquia desenvolve com Angola uma relação económica de pendor mais acentuadamente comercial, em que as trocas ascendem a 250 milhões de dólares, de acordo com Fernando Flo.
A Câmara indica que, enquanto as exportações angolanas para a Turquia estão constituídas por matérias-primas como o petróleo, em sentido inverso, Angola recebe bens acabados, principalmente farinha de trigo, vestuário, tapeçaria e mobiliário, uma relação assimétrica que as autoridades dos dois países decidiram inverter com a aplicação de acordos bilaterais.

Um projecto que o Presidente João Lourenço definiu ao intervir no Fórum Empresarial Angola-Turquia, realizado durante a visita àquele país, onde manifestou os desígnios angolanos da atracção de investidores turcos que tragam capital financeiro, tecnologia avançada e conhecimento, a fim de se aumentar, com rapidez e eficiência, a produção de bens e serviços.

A noção de urgência inserta nestas declarações do Chefe de Estado angolano está relacionada com a firme decisão do Governo de solucionar questões do mercado como a redução da taxa de desemprego, elevação dos rendimentos dos cidadãos e de diversificação da oferta de produtos acabados para a exportação.


Interesses convergentes

A estratégia para atingir estas metas deve incluir, segundo as autoridades angolanas, o fomento das parcerias entre empresários e investidores dos dois países, algo viabilizado por  um Acordo de Protecção Recíproca de Investimentos assinado entre Luanda e Ancara durante a visita oficial de João Lourenço.

Para absorver esses fluxos de investimento que emergirem dessa cooperação, Angola oferece oportunidades nos domínios da agro-pecuária, aquicultura e pescas, indústria transformadora, comércio, energia e águas, construção, transportes, telecomunicações e hotelaria.     


Há, ainda, interesse em acolher empresas turcas nas áreas da produção de materiais de construção, tractores, alfaias e outros equipamentos agrícolas, fertilizantes e sementes, montagem de automóveis, electrónicos, têxteis, vestuário e calçado, num cenário que pode beneficiar das alienações previstas no Programa de Privatizações (PROPRIV) em curso no país.

Os interesses da Turquia são convergentes com as aspirações contidas nas propostas angolanas: com a ascensão do Presidente Recep Tayyip Erdogan, Ancara adoptou uma estratégia de expansão a mercados alternativos ao da União Europeia, onde as trocas reflectem as diferenças suscitadas pelas relações diplomáticas, mas, sobretudo, para impulsionar o crescimento económico.

O Governo turco concede um forte apoio às exportações (algo que Angola quer converter em investimentos no quadro das suas ambições no domínio da diversificação da economia), tendo instituído aparatosas acções de apoio ao escoamento da produção daquele país para parceiros em todo o mundo, incluindo no continente africano.

Nos últimos 18 anos, a presença diplomática da Turquia aumentou em África, onde, de 12 embaixadas e investimentos de 100 milhões dólares, em 2003, passou a ter 42 representações diplomáticas e 6,5 mil milhões de dólares em investimento directo, em 2021.

No período de 2003 a 2019 o comércio com a África aumentou cerca de cinco vezes e 51 cidades africanas passaram a ser servidas pela Turkish Airlines.


Aceleração dos negócios

Transpondo todos esses cenários para o actual estágio das relações económicas entre Angola e a Turquia, pode assinalar-se uma dinâmica crescente, com a frequente renovação mediática de factos relativos a negócios bilaterais, podendo contar-se, em Janeiro último, o anúncio da disponibilidade manifestada pelo Ministério da Indústria e Comércio para acolher uma parceria entre a turca Raff Military Textil com a angolana Alaide Têxtil para a produção de uniformes.


A companhia turca tem uma carteira de fornecimentos que inclui a Polícia do seu país, Organização do Tratado Atlântico Norte (OTAN), Geórgia, Albânia e Iraque, projectando, caso se instale em Angola, remessas para a  Zâmbia, África do Sul, Namíbia, Congo, Marrocos, Argélia, Guiné Equatorial, Líbia, Senegal, Chade, Togo, Mauritânia, Mali e Sudão, que têm manifestado interesse na aquisição deste material.

Mais tarde, em Agosto, foi anunciada a assinatura de um Acordo Quadro pelos ministros da Defesa Nacional e Veteranos da Pátria de Angola, João Ernesto dos Santos, e da Defesa da Turquia, Hu-lusi Akar.

Em Setembro, uma missão empresarial liderada pelo presidente da turca AKSA Energy, Cemil Kazanci, esteve em Luanda a negociar com o Ministério da Energia e Águas, AIPEX e a PRODEL.

O arranque da operação da transportadora aérea da Turquia, a companhia de bandeira daquele país, este mês de Outubro, figura entre as maiores da lista de realizações da cooperação bilateral, sendo uma parceria de partilha de voo (code share) que beneficia passageiros com bilhetes emitidos pela transportadora angolana, TAAG.


  Vistos e banca são factores críticos do mercado nacional


Os empresários turcos consideram ter recebido apoio das instituições angolanas, na realização de negócios, mas apontaram a situação de concessão de visto e a falta de celeridade nas transacções bancárias como aspectos críticos das operações no país.

Mohammed Yilmaz, presidente da empresa de comércio geral Taflany Lda., e Refik Altunal, membro da direcção da holding Alapala, com operações no ramo da maquinaria alimentar, coincidiram em afirmar, em declarações ao Jornal de Angola, que a maior dificuldade a enfrentar para trabalhar em Angola é a obtenção de visto de entrada.


O Serviço de Emigração e Estrangeiros e as representações consulares angolanas deveriam conceder facilidades na concessão de vistos para permitir a entrada de profissionais ou técnicos contratados para trabalhar na montagem de equipamentos e na operacionalização de máquinas, disseram. A solução desta questão vai permitir o fomento de investimento por parte de empresários que cá já estão, bem como de novos empresários.

O segundo factor crítico, relacionado com a banca, pode ser solucionado com base em convénios e acordos de cooperação entre as instituições bancárias do seu país com as de Angola, para tornar as transacções mais céleres.
Defenderam a introdução de noções mais elevadas de urgência no atendimento das garantias e abertura de cartas de crédito, para que sejam atendidas com maior brevidade, tanto para os novos investidores quanto para os empresários que já actuam no mercado nacional.


Os mecanismos institucionais para proteger os investimentos e negócios existentes no país "precisam de ser aperfeiçoados”, considerou Refik Altunal, acrescentando que, "numa primeira fase, um dos mecanismos necessário para proteger os negócios e investimentos seria a existência de uma coordenação entre os bancos angolanos e bancos turcos”.
Mohammed Yilmaz considera os seus investimentos angolanos suficientemente protegidos pela legislação vigente e pelos acordos assinados entre os governos da Turquia e de Angola, embora enfrente dificuldades com o pagamento do IVA.


Neste momento, disse, "nós pagamos 14 por cento de IVA na importação de matéria-prima para produção de farinha de trigo. No final do processo de produção, a venda de farinha de trigo fica a cinco por cento de lucro”.



Victorino Joaquim

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