Opinião

Vídeo de crianças e as reacções islamofóbicas nas redes sociais

Faustino Henrique

Jornalista

A propósito de um vídeo de crianças cobertas completamente com vestimenta preta, provavelmente meninas, a atravessarem uma rua, num dos bairros de Luanda, que gerou reacções islamofóbicas nas redes sociais e em grupos de WhatsApp, vale a pena reflectir antes de entrar em pânico.

28/09/2022  Última atualização 06H55

Tratavam-se de crianças ligadas às famílias muçulmanas, provavelmente angolanas que se dirigiam ou saiam dos agregados para os locais de ensino/culto ou vive-versa e a apresentação gerou alguma repulsa, evidenciando-se nas reacções claramente intolerância religiosa.

Não faz qualquer sentido o suposto conhecimento da religião muçulmana apenas pelo lado político que  enferma a mais nova das três maiores religiões (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) que, como se sabe, 1382 anos depois desde a sua criação encontra-se numa espécie de encruzilhada consubstanciada na luta entre o conservadorismo e a reforma.

Em Angola, não será exagero dizer que conhecemos mal a religião islâmica e, embora ela exista há mais de 1000 anos, estamos a aprender apenas a  conhecer a fase em que a politização desta religião em muitas partes do mundo fá-la associar ao mal. Esquecemo-nos de que em muitas sociedades africanas actuais, o Islão tem uma presença de mais de 800 anos e sempre coexistiu pacificamente com as outras culturas e confissões. 

Como demonstra a experiência, o desconhecido amedronta e o facto de a sociedade angolana estar a familiarizar-se, hoje com maior intensidade, com amostras de um segmento novo em termos  religiosos no seu tecido social, num contexto em que o "islão radical" sinaliza uma desastrosa mistura com a política, a tendência para se temer a religião muçulmana é grande. Não precisamos apenas de aprender os aspectos alegadamente negativos da religião islâmica, sobretudo focando-nos no que acontece em países como Afeganistão, Arábia Saudita, Nigéria e agora Moçambique, esquecendo-nos  de que a actual politização da religião que a radicaliza, além de não ter nenhum vínculo de facto e de jure com a confissão religiosa, não a define e nem a representa. 

Sem pretender fazer apologia da referida religião e sublinhando apenas a necessidade de conhecimento e reflexão que afugente o medo do lado desconhecido desta religião e erradique a "islamofobia", vale dizer que existem sociedades em que o Islão convive pacificamente com outras crenças e sem o lado radical que se lhe associa. Porque não olhar, estudar e reflectir sobre o Islão na Indonésia, o maior país muçulmano do mundo, na Turquia, a presença de comunidades islâmicas nos países ocidentais em que, conformando-se às leis locais, coexistem com a maioritária crença cristã? 

O radicalismo que se atribui hoje, sem uma fundamentação credível e aceitável, à religião islâmica não é diferente do que há mais de 1000 anos se notava na Cristandade, sobretudo na fase das cruzadas e em toda a Idade Média. Quantas pessoas, comunidades e povos inteiros foram dizimados em nome da fé cristã, com a qual milhares se identificam, preferem enterrar o passado tenebroso e ver hoje apenas o lado alegadamente pacífico?

É irónico que as pessoas estejam hoje contra a forma como se expande o Islão, completamente pacífica comparativamente à maneira como se impôs aos africanos o Cristianismo, realidade sobre a qual precisamos de ponderar e garantir sempre as liberdades individuais. É discutível e irremediável contestar hoje uma religião com o único argumento da natureza cristã da nossa sociedade, perdendo completamente de vista o que custou até chegar a esse estádio e esquecendo-se de que a mesma mentalidade perante o Islão hoje foi experimentada nos primórdios do Cristianismo na maioria das sociedades africanas.  Logo, parece fazer muito pouco sentido olhar o Islão com o ar de rejeição ou sugerir restrições a esta confissão que, seguramente, acabarão por "arranhar" a letra e o espírito da Constituição quanto à liberdade de culto.

Concordo com os que defendem que o Estado deve fazer mais para se assegurar de que a "inviolabilidade da liberdade de consciência,  de crença religiosa e de culto" não estejam a ser usadas para transcender deveres  que as pessoas têm de "se conformar" às leis.

Já foram feitas várias conjecturas e avançadas várias teorias relativamente à forma como o Islão se está a implantar em Angola, sobretudo nos últimos tempos, servindo, algumas delas, como verdadeiros avisos à navegação ao Estado angolano, mas nada que deva raiar ao medo ou à intolerância.

Por exemplo, constitui um desafio de Segurança Nacional saber se existem escolas corânicas em Angola e, mais importante, se o que lá ensinam está em conformidade com os superiores interesses do Estado angolano ou se, na verdade, de lá estão ser lançadas as sementes que se vão voltar contra este mesmo Estado.

De resto, como muitas vozes defendem, deve existir formas mais inteligentes de lidar com a religião muçulmana em Angola, aceitando-a como uma religião de paz, primando pela Educação e melhoria das condições económicas das populações vulneráveis, possivelmente mais propensas à conversão e promover políticas migratórias consentâneas com os interesses do Estado.

O tempo não joga a favor do medo, da intolerância, muito menos da tomada de medidas restritivas, ferindo direitos fundamentais constitucionalmente protegidos, por causa do alegado crescimento do Islão em Angola. Embora não seja uma religião oficialmente reconhecida pelo Estado, não há dúvidas de que não se poderá protelar ad eaternum o seu reconhecimento, cabendo ao Estado estratégias até, se necessário, de "angolanização do Islão", entendida essa realidade como a adaptação da referida religião aos valores e objectivos do Estado angolano, partindo do princípio de que os credos tendem também a adaptar-se ali onde se implantam.

Precisamos ter em mente que as histórias da vida de Maomé foram escritas para satisfazer as normas daquele contexto e incluíam histórias milagrosas e lendárias que poderão estar a ser mal interpretadas hoje. Mas que, no geral e independentemente dos aproveitamentos relacionados com a politização da religião, o Islão é pacífico e tende a ser ainda mais pacífico ali onde o acolhimento lhe permite adaptar-se às normas e valores como acontece no Ocidente. 

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