Reportagem

Viagem memorável ao Deserto de Baikonur

Edna Dala

Jornalista

A caminhada inicia. Aos poucos, a tranquilidade vem ao de cima, quando percebo estar rodeada de excelentes profissionais. Simpáticos, verdadeiros companheiros e patriotas.

04/12/2022  Última atualização 16H28
Moscovo ao Cazaquistão © Fotografia por: Edições Novembro
Mal desembarcamos, o frio intenso de Moscovo deu-nos as boas-vindas. O ar húmido que respiramos já não é o mesmo da "banda”. É como se tivesse enfiado o nariz no congelador. O momento remete-me à doce infância e às traquinices de menina. Adorava colocar o narizinho no congelador, para sentir o fresco, uma época em que nem sequer sonhava com o ar condicionado.

Mas nada comparado ao frio aterrador de Moscovo. Um compatriota desvaloriza a sensação térmica que sentimos. Revela que não é nada comparado ao inverno brutal de Dezembro, altura em que o gelo preenche as avenidas. Tomada pelo pânico, penso comigo: "Dezembro na Rússia, never que never!”.

O frio é tanto que mal dá para sentir o rosto. Em alguns momentos, nos sentimos como que completamente despidos, sem qualquer agasalho a cobrir o corpete.  Pergunto à Vânia Varela se tem a mesma  sensação de perder a sensibilidade do rosto. Num tom simpático, ela respondeu: "Edna, não sinto o rosto, nem as orelhas”. A gargalhada é inevitável.

Por segundos, vejo-me a circular que nem uma doida, enquanto o serviço protocolar da Embaixada organiza as malas e decide quem vai no primeiro ou segundo carro. Já com as viaturas em circulação, o olhar convida-nos a apreciar a bela cidade de Moscovo, com aqueles imponentes castelos dos filmes e séries. Um sentimento de segurança invade a minha mente, ao não avistar qualquer elemento fardado nem vestígios de guerra. Penso comigo: "Afinal, aqui há vida, ya!”. Uma realidade que contrasta com a imagem de uma cidade pálida, quase abandonada, que trazia comigo, fruto das notícias sobre a Rússia que chega de vários meios europeus e ocidentais.

De repente, um aspecto desperta a atenção da delegação angolana: um interminável engarrafamento, em pleno centro da cidade, capaz de superar o trânsito de Luanda na hora de ponta.

 

Deserto de Baikonur

Em Moscovo, já depois de um baptismo de engarrafamentos, conseguimos nos hospedar. Mal pregamos o olho, corremos logo para o aeroporto onde apanhámos um jacto russo, com destino ao Cazaquistão, numa viagem de, aproximadamente, três horas e poucos minutos.

De lá, prosseguimos para a Estação de Lançamento de Baikonur – onde foi lançado o Satélite Angolano (Angosat-2) –, para uma curta visita de constatação. Um trajecto igualmente calmo, sem trânsito e ruas completamente isoladas de tudo e todos, embora com as estradas ligeiramente esburacadas. Localizada numa zona extensa e deserta, onde não se via qualquer movimento de pessoas, excepto pouquíssimas viaturas que entravam ou saíam da zona de lançamento..

O cosmódromo está localizado numa zona deserta extensa e distante de qualquer povoação. As únicas almas vivas visíveis eram alguns camelos bem robustos e cavalos e pouquíssimos casebres que ficavam a largos metros de distância. Uns tantos respiradores que emergiam da terra, davam o ar da sua graça e as pequenas lagoas, um facto que suscitava a nossa curiosidade sobre a sua origem, questões estas que, infelizmente, ficaram sem respostas.

Sobre a Estação de Baikonur, algumas vozes confidenciaram-nos que a sua construção foi mantida a sete chaves e longe de qualquer holofote. Especulava-se tratar-se de um estádio de futebol subterrâneo, obras estas que vieram a durar mais de três anos. Só mais tarde veio a revelar-se que, afinal, era o cosmódromo de lançamento de satélites.

Apesar de nos sentirmos livres do engarrafamento de Moscovo, ficámos com os corpos completamente moídos, por causa das longas horas de viagem e das estradas meio esburacadas. 

Logo à entrada principal da zona de lançamento, estruturas metálicas de puro aço para acolher os satélites saltavam à vista. Verdadeiros monstros em pleno deserto. Entre as estruturas, estava a rampa mais adornada com o Foguete Proton-M que levaria o nosso Angosat ao espaço sideral. Bem no cimo, era visível o vermelhão da nossa Bandeira.

Uauu.... Em voz alta exprimi a minha admiração por algo tão surreal e acima de tudo pela inteligência extraordinária do homem. Essa gente não brinca em serviço! Pensei.

À saída do deserto, fomos até à cidade mais próxima, onde nos hospedámos para aguardar o momento mais alto deste grande desafio. Uma zona completamente isolada, que fiquei com a impressão de que tivessem anunciado uma catástrofe e quase todos os moradores tinham abandonado a cidade.

Um dia memorável

O dia 12 de Outubro de 2022 foi memorável a todos os níveis, não apenas para o país, mas particularmente para nós, que tivemos o privilégio e a responsabilidade de acompanhar de perto – "não tão perto” – o que se estava a passar em Baikonur para informar aos angolanos sobre todos os passos subsequentes do lançamento do primeiro satélite do país.

Foi uma noite simplesmente surreal, carregada de um misto de emoções, expectativas e apreensão. Até as primeiras horas do dia do lançamento, estávamos todos serenos, mas depois, as explicações que envolviam o processo todo, os cuidados e os mínimos detalhes que podiam pôr em xeque o sucesso do lançamento, deram lugar a um sentimento de preocupação repentina que se confundia com medo e ansiedade. Um nervosismo que nos remeteu de imediato à experiência de 2017, com o desaparecimento do Angosat-1. Entre os esclarecimentos despontavam as condições climatéricas, técnicas, entre outras.

Antes do lançamento, a parte russa preparou o tradicional banquete para celebrar o momento e "garantir” o sucesso do Angosat-2. O ritual, de acordo com alguns engenheiros, era para exaltar o marco e auspiciar boas energias. Isso levou-me a colocar a seguinte questão: se no lançamento do Angosat-1 houve a tradicional celebração, o que terá influenciado o seu desaparecimento?

A pergunta foi dirigida a mim mesma, porque, como referi atrás, não acompanhámos tão de perto. O permitido era estamos a 7 quilómetros da Rampa de Lançamento, tendo em conta o seu impacto.

Às 20 horas locais (16 em Angola), todas as atenções estavam concentradas na Zona de Lançamento. Com os olhos fixos, os telefones nas mãos para captar o momento mágico, uns em jeito de preces, aguardávamos todos ansiosos pelo grande momento. Em contagem regressiva, apesar de não entender russo, percebemos que era chegada a hora do grande espetáculo.

Com o coração aos pulos e ao som de uma voz gutural que fazia a contagem regressiva através de um megafone, fomos tomados por um som retumbante e um leve estremecimento da terra que anunciava o disparo do Foguete Proton-M, que carregava o Angosat-2 com destino à órbita. Num piscar de olhos fez-se uma luz que, como bola de fogo, subia e encandeava o céu negro de Baikonur, levando consigo o sonho da melhoria dos serviços de Telecomunicações dos angolanos, e não só.

O som ecoava enquanto o foguete subia a uma grande velocidade  e, em fracção de meio minuto, a bolinha de fogo reluzente que iluminava o céu de Baikonur desapareceu aos nossos olhos. É como se tivessémos saído de um transe. Seguiram-se as salvas de palmas e os abraços das duas partes.

Ainda sob efeito do grande momento, questionei-me sobre a capacidade do homem e como conseguiram chegar àquele nível de inteligência extraordinária. Criar, construir, montar, desconstruir e levar coisas ao espaço? Enfim... é um mistério muito grande, concluí.

Spasibo e Beluga

Terminada a primeira etapa, seguiu-se a segunda fase e, por sinal, a crucial, que ditaria o sucesso ou insucesso do satélite. Foram sete horas de espera e agonia. O cenário que horas antes era de alegria, por conta do lançamento, agora se traduzia em ansiedade. Tudo dependia dos primeiros sinais que seriam enviados à Terra por telemetria.

Às 3h30 chegou, finalmente, a boa nova e, com ela, momentos de mais abraços acompanhados de choros de emoção, em particular do engenheiro Zolana João, que acompanhou todos os passos, desde a concepção do satélite, incluindo o Angosat-1.

Os abraços exprimiam sentimentos de alívio e dever cumprido, depois do filme de terror que foi a experiência com o primeiro satélite. Seguiu-se o "urrhaaa urrhaaa” 4x, que em português significa "Viva viva viva viva” e um brinde de vodka russo, a famosa "Beluga”.

Mal vimos as horas correrem. Apesar de estarmos do outro lado, o de reportar, o nervosismo também tomou conta de todos nós, fizemos figas para que tudo fosse diferente e com um final feliz. Foram dias muito intensos e em alguns momentos nos vimos privados de sono. Sim, mais de 24 horas sem dormir! Foram dias corridos e de espera, mas o dever sempre falou mais alto. A boa conversa à maneira angolana foi o grande combustível para aquecermos o corpo, arejar a mente e manter a sobriedade naqueles momentos em que o sono teimava em surgir.

"Spasibo” ou "spasiba”, que em português significa obrigado, foram as palavras mais usadas e que retivemos desta jornada.

É caso para dizer "Spasibo” à delegação angolana, sob a liderança do ministro de Mário Oliveira, aos nossos compatriotas da Embaixada de Angola na Rússia, onde cada um, de forma singular, contribuiu para o sucesso desta nobre missão. Particularizo aqui o professor Quim Paulo e o Emmanuel.

Apesar de distantes da Mãe Pátria e dos nossos lares, estávamos entre nós e com os nossos!

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