Sociedade

Vendedores do Mercado do 30 recebem aulas de alfabetização

Manuela Mateus

Tudo começou quando um grupo de três amigos trabalhava para uma instituição de micro-crédito, por via da qual se deslocava, frequentemente, aos mercados informais da província de Luanda e às comunidades periurbanas, para contactos directos com potenciais clientes.

17/09/2022  Última atualização 07H10
Cresce o número de interessados, principalmente de mulheres, em aprender a ler e a escrever © Fotografia por: DR

Era frequente o grupo encontrar, nos locais por onde passava, pessoas que não sabiam assinar o próprio nome. É assim que surgiu o projecto "Meu Mercado /Minha Vida / Minha Escola”.

O ponto de partida do projecto social foi o Mercado do 30, arredores da cidade de Luanda, uma decisão tomada pelos promotores da iniciativa por ser o mercado da província de Luanda que concentra o maior número de vendedores.

Em declarações ao Jornal de Angola, o coordenador do projecto, Domingos Vicente, disse que o "Meu Mercado /Minha Vida  / Minha Escola”, existe há dois anos e, até agora, já alfabetizou 280 pessoas, da faixa etária dos 16 aos 72 anos, maioritariamente mulheres.

Sem explicar as razões da fraca adesão masculina ao projecto, o activista social informou que, dos 280 alfabetizados, 275 são mulheres e 70 já frequentam o módulo II do processo de alfabetização em Angola.

Domingos Vicente destacou que o projecto não foi criado apenas com o objectivo de contribuir para a luta contra o analfabetismo.

O projecto inclui, também, a transmissão de valores relacionados com a cidadania, dando ênfase à importância do conhecimento e identificação dos símbolos nacionais, assim como com a higiene e segurança no trabalho e a prevenção de doenças.

O público-alvo do projecto são as pessoas sem ou pouca instrução formal. "O nosso objectivo é inserir estas pessoas no sistema de ensino, a partir de um convénio que temos com o Gabinete Provincial de Educação de Luanda”, acentuou.

Domingos Vicente referiu que o projecto está a receber daquele gabinete material didáctico e formação de formadores para a educação de adultos.

O activista social acentuou que a maioria das pessoas que, no Mercado do 30, aderiu ao projecto já tinha, sobretudo, noções fundamentais de números, revelando-se assim uma vantagem no exercício da actividade mercantil.

 

Aulas por módulos 

As aulas de alfabetização são distribuídas por cinco turmas, num espaço cedido pela administração do Mercado do 30. Depois desse espaço comercial, o projecto de alfabetização vai para outros mercados informais da província de Luanda.

Domingos Vicente não adiantou, ainda, um horizonte temporal para a extensão da iniciativa, mas assegurou que a efectivação deste desiderato pode ocorrer a qualquer altura.

O coordenador do projecto "Meu Mercado/Minha Vida/Minha Escola” elogiou a administração do Mercado do 30, por ter disponibilizado as salas de aula, com carteiras e quadros.

Mais cinco turmas vão ser criadas, sendo duas para o módulo I, igual número para o módulo II e uma para o módulo III.

O combate ao analfabetismo em Angola é feito em cinco módulos: O módulo I corresponde à 1ª e 2ª classes, o II à 3ª e 4ª classes, o III à 5ª e 6ª classes, o IV à 7ª e 8ª e o V à 9ª e 10ª classes.

O projecto "Meu Mercado/Minha Escola/Minha Vida” é materializado por um grupo de nove agentes de alfabetização, integrado por três homens e seis homens.

Quem quiser dar aulas de alfabetização, no âmbito do projecto, tem de ter o ensino médio concluído, experiência profissional na área de alfabetização ou docência, ter disponibilidade de, pelo menos, duas horas, de terça a sexta-feira, assim como disponibilidade para planificar as aulas quinzenalmente.

O combate ao analfabetismo em Angola começou há quase um ano depois da proclamação da Independência. Em 1975, a taxa geral de analfabetismo estava estimada em 85 por cento e, 25 anos depois, foi reduzida para 50%.

Em 2014, de acordo com dados do Censo Geral da População e Habitação, realizado naquele ano, a taxa geral de analfabetismo baixou significativamente para 34%.

Em 2019, o Executivo aprovou o Plano de Acção para a Intensificação da Alfabetização e da Educação de Jovens (Plano EJA-Angola), cujo período de vigência termina em 2022.

Por força do plano, cada Governo Provincial elabora o seu plano operativo para a intensificação da alfabetização e educação de adultos.

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