Opinião

Velhas esperanças

Estamos já em 2019. Há uns anos que a entrada de um novo ano é o renovar de velhas esperanças.

08/01/2019  Última atualização 09H51
Animados pelo espírito da festa natalícia e de Ano Novo, somos todos muito optimistas, acreditando piamente que o novo ano será necessariamente melhor. E temos razões para isso? Estamos a conhecer mudanças profundas no Mundo. Para além da descrença acentuada no multilateralismo, há irrupções e disrupções que merecem a atenção colectiva. E 2018, nesta matéria, foi bastante fértil. A China e os Estados Unidos da América enfrentam-se, com desfecho imprevisível sobre o vencedor. Esta é a reacção mais severa do Ocidente ao risco de liderança chinesa. As duas Coreias parecem estar a re-entender-se e a extrema-direita avança, em marcha triunfante, face ao falhanço da governação socialista. O Brexit pode sinalizar a desagregação do sonho de Jean Monet. O Brasil é o caso mais recente, com a ascensão de Jair Bolsonaro, e a França poderá confirmar esta tendência diante da dificuldade do Governo de Emanuel Macron enfrentar reformas e reivindicações corporizadas no fenómeno dos “gilets jeunes”, e o risco de ascensão (ou vitória?) de Marine Le Pen nas próximas eleições. Também em África persistem os desafios em matéria de estabilidade política, democratização, paz e segurança, crescimento económico, combate à corrupção e melhoria das condições sociais personalizada em países como a África do Sul, República Democrática do Congo, República Centro Africana, Nigéria, Egipto, Angola ou Guiné-Bissau. É óbvio que é arriscado fazermos uma caracterização do todo pelas partes, contudo, o calendário coloca inúmeras situações com que as lideranças terão de lidar e estarão expostas à prova. Abundam por isso, inúmeros exemplos de uma nova liderança, do ponto de vista geracional, em África, quando todos temos plena consciência de que estamos numa encruzilhada. Se os líderes da independência cumpriram globalmente o seu papel, houve uma segunda que não teve melhor sorte ou não fez por isso. Agora, esta terceira geração de líderes tem imperativamente consigo a agenda do desenvolvimento e da transformação da realidade, marcada por um espectro generalizado de pobreza e atraso socioeconómico, ainda prevalecente na maioria dos países. No centro desta agenda de transformação encontram-se vários desafios como os da fragmentação do espaço, da história e do conhecimento, a refundação do Estado pós-colonial, a promoção da democracia e os direitos humanos, o combate à corrupção e o estabelecimento de novas condições de paz e liberdade, uma garantia de desenvolvimento sustentável. Estamos por isso a olhar com grande expectativa para figuras como Uhuru Kenyatta, Macky Sall, Paul Kagame, Abiy Ahmed, João Lourenço ou Ciryl Ramaphosa, todos eles marcados por um refrescamento ideológico, aceitação dos princípios democráticos – não obstante as dúvidas quanto ao “príncipe do Ruanda” – mas um profundo sentido pragmático na resolução dos problemas e agenda de transformação. O tempo para os países africanos é tanto mais urgente quando olhamos para o desafio demográfico. Receio que global e particularmente não estejamos a prestar a devida atenção a este componente. Por exemplo, as projecções apontam para uma Nigéria com a terceira maior população do mundo, em 2050, tendo à frente de si apenas a Índia e a China. Em 2100, um terço da população mundial será africana. É, por isso, urgente uma atenção especial ao que isso representa em termos de oportunidades – na lógica do mercado e do investimento – mas, principalmente, em termos do que será necessário fazer para assegurar o bem-estar deste mar de gente e inibir fenómenos como a imigração e outros indícios da precariedade. Estamos em 2019. Um ano pré-eleitoral em Angola, em que se anunciam duas profundas reformas. Primeiro, do ponto de vista da estrutura do Estado, a introdução das autarquias irá requerer dos poderes republicanos instituídos – Executivo e Legislativo, em particular – um grande dispositivo de discussão para um quadro legal e institucional que corresponda aos anseios do país. Em segundo, reformas também do ponto de vista económico. Estamos na cruzada das reformas e da viragem decisiva para uma economia de mercado, com menos Estado e mais iniciativa privada, num ambiente de sã concorrência – sem monopólios e outros esquemas, restringindo-se aquele primeiro ao que é essencial. As reformas de âmbito fiscal e monetário serão decisivas para a estabilização macroeconómica, voltarmos a crescer e conseguirmos tirar a diversificação do papel. Temos, adicionalmente, o apoio do FMI. No resto, como apontava ontem o Ministro de Estado Manuel Nunes Júnior em entrevista a este diário, dependemos apenas de nós – “precisamos ser mais focados e disciplinados na execução daquilo que programamos”, disse. Com velhas ou novas esperanças, bom ano a todos, especialmente ao novo governador da província de Luanda, Sérgio Luther Rescova. Esperamos todos que tenham, para nosso bem enquanto luandenses moradores ou nativos, muitos êxitos. Que salve ou recupere Luanda. Da Mutamba ao Rangel, do Bita ao Kapalanka. Feliz 2019.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião