Opinião

Universo masculino

Edna Cauxeiro

O motorista de um carro de alta cilindrada pára num repente. Poucos centímetros adiante, a estrada pintada de linhas brancas indica a existência de uma passadeira.

23/01/2022  Última atualização 07H30
Atrás do veículo que, em princípio, costuma ser atribuído a dirigentes, o utente de uma viatura deveras mais modesta chia os pneus tentando evitar que o seu meio embata no do aparente "chefe”.     
                          
Tão logo consegue imobilizar o carro, o automobilista enxuga a testa suada com um pano. Estava uma manhã ensolarada e fustigante para quem se fazia à rua a pé ou à bordo de um veículo automóvel sem ar condicionado. Ainda assim, pensou quem escreve, era "menos pior” que estar à bordo de um autocarro. Desde a infância dos que hoje são chamados tios pelos mais jovens, que dentro dos autocarros o junto e o misturado mostram aos utentes por que razão se complementam. São como "uma só carne”.       
             
Para uma senhora, mais valia ser macho, a bordo desse meio de transporte tão disputado por quem não tem alternativa e precisa chegar, ainda que suado, maltrapilho e atrasado, ao seu destino. Já para os homens "com tudo no lugar”, expressão popular que só a fase adulta permite compreender, também não deve ser fácil viajar, praticamente, grudado numa senhora com quem não partilham intimidade. 

À frente do carro de alta cilindrada, uma beldade ginga a passos lentos, mas poderosos. A saia travada que usa, como alguém cantou um dia, aliada à vaidade de quem, provavelmente,  contempla a própria imagem no espelho e se agrada do que vê, impedem-na de atravessar a rua com a mesma celeridade dos demais transeuntes. O seu andar hipnotiza o "chefe”, que a deixa desfilar e olha, além da frente, para o seu "verso”.  
Perde-se, distraído, na imagem daquele exemplar de um ser criado por Deus para, entre outros dons, gerar vidas e alegrar o coração masculino.

O som de uma buzina devolve o dono do carrão à realidade. Este, arranca, em alta velocidade, deixando para trás os demais veículos, dando mostras da potência do meio de transporte de que é detentor. Na paragem ao lado da passadeira, uma jovem estende a mão para o taxista, que pára.

A bordo do táxi pergunta: "É cem (kwanzas), né?”. O mesmo lembra-lhe que o valor do táxi é 150 kwanzas. A passageira oferece-lhe um belíssimo sorriso, exibindo um piercing rosa no dente, modernice muito comum entre os jovens, em países mais desenvolvidos. Rendido ao encanto da jovem, o motorista devolve-lhe o sorriso e aceita os cem kwanzas.   
     
A cena não passa despercebida a uma senhora de idade, que decide dar como exemplo o comportamento da jovem, para instruir quem estava a bordo da viatura, de como se deve agir diante de um homem.
                         
"Minhas filhas, estão a ver como é que a menina conseguiu, apenas com um sorriso, convencer o motorista a deixá-la pagar apenas cem kwanzas? Homem gosta de mulher humilde, mansa. Mesmo em casa, se o marido está chateado vocês devem ficar calmas, não responder com ordinarice. Homem é fácil de lhe deixar calmo, é só lhe oferecer um sorriso e ser humilde”, disse a mais-velha, dando origem a uma avalanche de perguntas por parte das jovens. 
                     
A idosa, que trajava roupas pretas da cabeça aos pés, simbolizando, assim, a dor pela morte recente do marido, citou a Bíblia Sagrada para lembrar que Deus criou primeiro o homem e, por isso mesmo, disse, a este atribuiu a tarefa de ser o cabeça do lar. "Se você não deixa o teu marido dar ordens e tomar decisões em casa, ele se sente di(s)minuído na sua masculinidade e isso causa problemas no lar. Não estou a dizer que ele deve tomar todas as decisões, mas deixem eles assumirem o comando. É melhor assim”, aconselhou a viúva. Além da Bíblia, lembrou das palavras que há muitos anos enfeitavam a entrada de muitos lares: "Cá em casa manda ela. E nela mando eu”, lia-se em pedaços de azulejos adornados com desenhos. 

Os direitos iguais que muitas jovens defendem hoje, advogou a idosa, são uma desculpa para não cozinhar, cuidar da casa, da roupa, dos filhos e do marido. "Uma cambada de preguiçosas, por isso os casamentos não estão a durar. Marido sai, você também quer sair e voltar mais tarde que ele? Comida dele quem vai fazer, a empregada? ‘Purisso’ vos roubam com ele (o marido)”, alertou a mais-velha, deixando até a jovem mais moderna na viatura, sem coragem para continuar a argumentar. A caminho do seu destino final, a jovem moderna percebeu o significado das palavras da mais-velha quando pediu às jovens passageiras para deixarem os cônjuges assumirem o comando no lar.      
      
Uma condutora habilidosa estacionava, sem dificuldade, a sua viatura. Aparentemente, não necessitava de ajuda. Mas dois senhores que conversavam animadamente interromperam o diálogo para orientar a automobilista. É provável que o mesmo não fizessem, caso se tratasse de um condutor. É o instinto masculino. Deus os orientou assim. A cuidar e proteger a mulher.

"E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem viva só; far-lhe-ei uma ajudadora idónea”. Génesis 2 - 18.
21 - "Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas e cerrou a carne em seu lugar”.

22 – "E da costela que o Senhor  Deus tomou do homem, formou uma mulher e trouxe-a a Adão”.
23 - "E disse Adão: esta agora é osso dos meus ossos e carne da minha carne: será chamada de mulher, porquanto do homem foi tomada”.    

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião