Opinião

Uma Universidade Agostinho Neto para o futuro

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Durante a manhã de ontem, a universidade organizou a cerimónia de abertura das “Jornadas Agostinho Neto”, que se celebrarão até ao dia 28 de Setembro: celebrar a vida, a obra, a trajectória política e intelectual do seu patrono é objectivo principal.

14/09/2021  Última atualização 08H50
Para tal, escolheram o Memorial que lhe é consagrado, na Nova Marginal, em Luanda, como o cenário do início das festividades que, a meu ver, por várias razões se afigurou como muito significativo: as palavras de boas-vindas não foram só de circunstância, nem foram palavras neutras de quem quer ficar bem na fotografia para, de seguida, passar rapidamente para outra coisa.

Pedro Magalhães, o reitor falou exaustivamente sobre os principais problemas e desafios com que a Universidade Agostinho se confronta, mas, não passou despercebido o seu lamento pelo facto de não poderem acolher a massa de jovens que se candidatou para uma vaga e solicitou encarecidamente que sejam dadas à universidade as condições para que ela, rapidamente, torne o ensino à distância operacional e adaptado aos novos tempos.

Quando Pedro Magalhães terminou a sua alocução, ficou meridiamente claro que, a Universidade Agostinho Neto ainda não é o que deveria ser, poderá um dia chegar a ser, mas, na prática, as coisas têm ido muito mais lentas do que previstas: é preciso investir seriamente nelas. Pese embora, a Universidade preservar a vocação e os objectivos que honram ao patrono que lhe confere o nome, precisa de ser melhor projectada ao futuro e essa não é uma tarefa que se consiga somente tendo um campus universitário com edifícios belos e modernos.

Para que a Universidade Agostinho Neto seja uma universidade pensada nas suas múltiplas dimensões, -do passado, ao presente e ao futuro -, é preciso que ela esteja melhor equipada, tenha recursos humanos melhor preparados e tenha financiamentos públicos e privados que permitam que a instituição seja mais competitiva, possa navegar comodamente entre a formação, a investigação aplicada e o mercado de trabalho, aspire a obter mais e melhores resultados em todos os domínios técnicos, científicos, artísticos e culturais, ela seja um dos catalisadores da revolução social que tanto precisamos.

No entanto, outras razões existem e fazem com que o dia de ontem, o da abertura das "Jornadas Agostinho Neto” mereça ser retratado nesta crónica: em primeiro lugar, a oração de sapiência sobre "As referências à música na Poesia de Agostinho Neto” proferida por Jomo Fortunato, ministro da Cultura, Turismo e Ambiente: foi um destes dias em que foi muito bom escutar o orador que, serena e tranquilamente, esmiuçou o assunto com elegância, profundidade e um inusual à vontade, digno de situar o célebre poeta-Presidente, na linha de continuidade dos intelectuais oriundos de Icolo e Bengo, de finais do século XIX à actualidade.

Em segundo lugar, numa "mesa-redonda” partilhada entre a ex-ministra da Cultura e historiadora, Rosa Cruz e Silva, e Domingas Monteiro, a docente da Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto, a primeira oradora, com a frontalidade que lhe caracteriza apelou (e, também) insurgiu-se contra o silêncio de estudiosos, - sociólogos, antropólogos e investigadores literários e das ciências sociais -, que, em Angola se têm mantido em silêncio face ao que considerou campanha insultuosa de descrédito da vida e da obra de António Agostinho Neto.

Este labor, de que vimos falando, que considera desprovido de cientificidade e rigor técnico, sendo, – Rosa Cruz e Silva fez questão de citar directamente -, os dois volumes da obra "Agostinho Neto – O perfil de um Ditador –" do historiador Carlos Pacheco é exemplo melhor conseguido das falácias que pululam em certos meios universitários, fora de Angola, que, no geral, carece de um contraditório rigoroso entre as distintas fontes históricas.

E, em terceiro lugar, o último momento significativo da cerimónia de abertura das "Jornadas Agostinho Neto” foi, sem lugar as dúvidas, o momento em que João Serôdio, docente e investigador da Faculdade de Ciências Naturais apresentou a "Colecção de Educação Ambiental Dr. Agostinho Neto” com o apoio da Fundação com o mesmo nome e da empresa petrolífera Chevron.

João Serôdio falou da sensibilidade e gosto pela natureza de Agostinho Neto. Além do mais, sublinhou que, têm todo o interesse em que as dezoito monografias que compõem a colecção sejam distribuídas nas escolas, facto que simbolizou, entre outros, entregando um exemplar da mesma ao Gildo Matias, secretário de Estado para o Ensino Técnico e Profissional.

Apesar de todos os esforços que  se vêm desenvolvendo, a Universidade Agostinho Neto está ainda muito longe de ser aquela universidade pública que todos gostaríamos que fosse: que ela, um dia, ocupe um lugar digno de destaque nos Rankings das boas universidades do continente africano e do mundo é o que mais desejamos.

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