Opinião

Uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão

A Política faz-se de percepções. Eu diria mesmo, de impressões. Por isso é que todos aplaudimos grande parte das medidas que são assumidas ultimamente pelo Presidente da República, João Lourenço, e que visam romper com o modus faciendi vigente. Ou seja, o tempo do deixa andar acabou. É importante que todos os gestores públicos, todos os políticos, tenham isso bem presente.

01/05/2019  Última atualização 08H31

A acção gera uma reacção. A acção gera uma consequência e por isso, a medida de suspensão dos efeitos do resultado do então concurso público da quarta operadora foi aplaudida cá dentro, mas sobretudo gerou uma nova percepção internacionalmente. Afinal, nos termos em que estava a ser seguido, com a abordagem que ouvimos, o impacto seria avassalador para a imagem internacional, sobretudo para a credibilidade e boa reputação que o País tem vindo a construir e consolidar nos últimos tempos.
É claro que existirão reveses. E não poderia ser de outro modo, todavia o que é mais importante é que haja uma preocupação, na gestão da coisa pública, com os destinatários que é a população, eu prefiro dizer, que são os cidadãos. Sim, porque a cidadania dá-nos a faculdade de participar na gestão da res publica, que é, em última análise, pertença de todos nós.
Se o lema da governação é a correcção do que está mal, inclusive do que possa ser mal-feito também neste tempo novo, faz todo o sentido que tenhamos humildade para ouvir e agilidade para corrigir. E é exactamente assim que poderemos captar a atenção de todos, a atenção dos outros que nos estão a escrutinar.
Foi extremamente oportuno que se tivesse dado esta pedrada no charco, no sentido de passarmos uma mensagem para dentro e para fora, rompendo-se assim o efeito bola de neve, que gerou notícias como aquela que vimos publicada na Bloomberg sobre esta matéria. Podemos até nos permitir discutir as opções, e este é um direito que assiste a qualquer cidadão. O que não podemos é deixar que se espalhe a ideia de um certo imobilismo ou condescendência, com opções legalmente inconsistentes e eticamente questionáveis.
Na mesma senda, são as imagens e mensagens que estão agora a circular à volta da segurança pública nas principais cidades de Angola, especialmente em Luanda. E este é igualmente um tema delicado, com impacto substantivo em vários aspectos da nossa conjuntura. Ou seja, é urgente e importante que olhemos para a situação com atenção e rigor. Seja por causa das consequências, seja no que concerne às suas causas.
Em primeiro lugar, estamos todos fartos de saber que a insegurança pode colocar em causa o esforço que está a ser feito no sentido de atrairmos um maior número de turistas estrangeiros ao nosso território. Recentemente, notamos com orgulho e satisfação, os cruzeiros que atracaram em várias cidades do litoral para além de outros movimentos, mas se deixarmos que esta imagem de insegurança vingue, corremos o risco de os voltar a ver a milhas da nossa costa. Literalmente! Há alguns dias circulam imagens deslumbrantes sobre as paisagens e praias do Namibe. Um verdadeiro paraíso virgem e é exactamente o que atrai o turismo de massas. É claro que Angola não tem as infra-estruturas e tem uma concorrência atroz em países como África do Sul, Namíbia, Moçambique e muitos outros, aqui no continente. Estamos a fazer a nossa trajectória e precisamos encontrar o fio condutor para que sejamos também uma referência. A desburocratização dos vistos foi uma medida de grande alcance, não apenas para o turismo, mas principalmente para os negócios e a livre circulação – e também é hora de avaliarmos a reciprocidade na facilitação de vistos para que os nossos cidadãos não passem as sevícias de que se fala... Então, o alerta das autoridades britânicas deve merecer, nos quadros estritamente diplomáticos, a sua abordagem, mas internamente deve ser dado um sinal mais contundente de combate ao crime.
Em segundo lugar, é claro que as causas também não nos são estranhas: o desemprego juvenil. De resto, quando olhamos para os dados do Instituto Nacional de Estatísticas não podemos estar satisfeitos. Pelo contrário, percebemos o enorme desafio que temos pela frente. Seja do ponto de vista da educação – um aspecto incontornável do nosso desenvolvimento e do modelo de sociedade que pretendemos ter – mas, neste caso presente, precisamos de trabalhar para que se concretizem os projectos delineados (PRODESI) para a efectiva diversificação da economia petrolífera e não-petrolífera e para que um melhor ambiente de negócios se traduza em mais empregos, especialmente para a juventude, e, igualmente, em mais rendimento para as nossas famílias.
Em terceiro lugar, merece uma palavra especial ao Plano de Acção e Promoção ao Emprego, perspectivando uma linha de microcrédito de apoio ao relançamento do empreendedorismo e a formação profissional. Reflecte claramente um sinal de preocupação e busca de soluções. Por isso, quando falava da educação é no sentido de, em primeiro lugar, seguirmos o exemplo ruandês. O sonho ruandês que caminha para a realidade é o de se tornar a “Singapura de África”, aliando dois aspectos fundamentais – educação e tecnologia. E num mundo onde vivemos a quarta revolução industrial, não pode ser de outro modo, salvo se os detentores de fortunas, patrioticamente repatriarem aquilo de que tanto se fala. Precisamos não apenas de uma educação libertadora, mas igualmente de uma formação para as tecnologias que comece desde cedo, valorizando a criatividade, inovação e o conhecimento, como elementos diferenciadores e os pilares da sociedade pós-moderna.
O novo empresariado que permita dinamizar a agricultura e nos ajude a conseguir autosuficiência alimentar, explorando melhor o potencial da agricultura familiar. Um empresariado que consiga tirar benefício das tecnologias para a melhoria da qualidade de vida das populações no campo e na cidade, em domínios tão nevrálgicos para nós como é a assistência médica e o saneamento básico e dando um novo lustro às nossas cidades, ao contrário do que se passa hoje, onde nos assusta a ligeireza com que convivemos com o lixo. São comentários que nos revoltam, envergonham, mas cuja realidade conhecemos bem. Não nos basta conhecer. É importante agir. Conduzirmos o nosso sonho para que a primeira imagem vingue.
A primeira imagem é a que conta. Por isso é que precisamos todos de dar mais ímpeto ao Presidente da República para que persista nas reformas tão necessárias à melhoria dos nossos indicadores de performance – Doing Business, Índice de Transparência, Competitividade, Liberdade de Imprensa, boa-governação, entre outros. Apoiar o quinquénio para que os resultados possam ser ainda mais animadores. E aí, sim, a segunda imagem seja efectivamente melhor do que a primeira.

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