Opinião

Uma obsessão perigosa

Osvaldo Gonçalves

Jornalista

No Ghana, uma actriz e modelo famosa foi condenada a três meses de prisão por ter, em Julho do ano passado, publicado nas redes sociais uma foto nua ao lado do filho, de sete anos.

01/12/2021  Última atualização 09H05
Rosemond Brown, mais conhecida como Akuapem Poloo, de 32 anos, aparecia na foto agachada, com os seios cobertos pelo cabelo, a segurar as mãos do herdeiro, apenas de cueca.
No post, ela escreveu então: "Estou nua em frente a ti porque foi assim nua que eu estava quando te dei à luz, então, caso me encontres nua deitada em algum lugar, não passe por mim, mas olha para mim como tua mãe que te trouxe à vida. Parabéns para ti @sonof_poloo”

O caso teve um desenvolvimento inusitado, já que durante o processo, tanto a defesa quanto a acusação pediram para que ela recebesse uma pena que não envolvesse prisão, mas a juíza afirmou que o Ghana passa por um momento de decadência moral que precisa ser interrompido.

Condenada por ameaça à privacidade e à integridade de outra pessoa, material obsceno e violência doméstica, a famosa foi condenada a uma pena de prisão, mas, como já tinha cumprido a pena, saiu em liberdade. A fotografia publicada por Akuapem Poloo foi na altura bastante criticada e a actriz apagou a imagem diante de tanta repercussão negativa, mas acabou intimada pela polícia e levada a tribunal. O caso da actriz ganense faz-nos reflectir sobre o momento em que vivemos, marcado por uma quase dependência das redes sociais.

Entendidos apontam que o fenómeno de virtualização dos laços sociais experimentados pela Humanidade leva a que a "importância da manutenção da vida cibernética iguala-se, e por vezes até supera, à interacção física”.

Eles acrescentam que nos dias de hoje, "tão essencial quanto dar notícias sobre o próprio bem-estar a um ente querido é publicar excessivamente sobre si mesmo nas mais diversas redes sociais”. Mais ainda que "No momento em que os indivíduos submetidos a esse aspecto sociológico se tornam pais, existe a tendência desse comportamento obsessivo por compartilhar publicações online envolver também o cotidiano dos filhos menores”.

O envolvimento dos filhos menores nas publicações online é tão grave que ganhou até uma designação: sharentig. O neologismo combina os termos share (compartilhar em inglês) e parenting (paternidade) e refere-se à prática de divulgar, de modo exagerado, informações sobre os filhos menores, tais como fotografias, vídeos, detalhes das actividades realizadas pela criança, como expor a escola em que estuda, ou qualquer outra atitude.

Tudo isso é feito sem o consentimento dos menores e pode ter consequências indesejadas.Por não utilizarem os seus documentos pessoais com regularidade, como fazem os adultos, as crianças são geralmente os alvos principais dos criminosos. O uso das suas informações por terceiros pode ser realizado por anos sem que tal seja percebido. O banco britânico Barclay estima que até 2030 o excesso de informações compartilhadas online pelos pais "produzirá 7,4 milhões de incidentes de fraude de identidade”.

Há ainda outro tipo de delinquentes e de crimes, com realce para aqueles que atentam contra a dignidade e a segurança dos menores, como são as redes de pedofilia e tráfico de crianças. Nasci antes de inventarem a internet. Durante a minha infância, nem sequer havia televisão e as donas de casa passavam as tardes a ouvir discos pedidos e radionovelas; os amantes trocavam dedicatórias com juras de amor. As redes sociais eram outras.

Talvez seja caso para dizer "ainda bem” porque, tendo em conta quem eram e como foram sempre muito presentes e importantes para mim, talvez os meus pais se pusessem p’raí a espalhar fotos minhas a torto e a direito.
Se isso se tornasse uma obsessão, podia ser algo perigoso.                                                                                             

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