Opinião

Uma nova política de quadros no MPLA

Desde que assumiu a Presidência da República de Angola e do Partido MPLA, em 2017, que João Lourenço vem se assumindo claramente como um líder reformador das estruturas governativas e partidárias sob a sua responsabilidade.

26/06/2022  Última atualização 09H44

Em virtude do número de exonerações que realizou nos dois primeiros anos do seu mandato ganhou o epíteto popular de "exonerador implacável”, de tão grande admiração social que as dispensas de membros do Executivo causaram na sociedade angolana, até então, desabituada a esta prática.

Embora o número de exonerações e a frequência com que elas passaram a ser feitas tenha diminuído nos três anos seguintes, o que pode ser resultado de uma relativa estabilização da estrutura e composição do seu Executivo, João Lourenço protagonizou, com sua política de gestão de quadros, uma das mais interessantes façanhas ao nível quadro axiológico da acção política, com fortes consequências para a racionalidade dos opinion-makers nacionais e estrangeiros.

Era comum, ao nível da empresa nacional e estrangeira, a divulgação de textos jornalísticos ou de opinião que faziam previsões dos actos do Presidente João Lourenço, seja como Titular do Poder Executivo como líder do MPLA. Com base em factos históricos e no modus operandis tradicionais destas estruturas, os opinion-makers vaticinavam as suas decisões, sobretudo no plano das nomeações e exonerações. Houve até épocas em que certa imprensa tentou, através da produção e divulgação de inverdades impor a sua agenda de interesses à governação de João Lourenço, que diligentemente não se deixou influenciar pelas fakes news que visaram manchar o seu bom nome ou dos seus colaboradores.As previsões e vaticínios sobre futuras nomeações eram cada vez mais falhas pois, os opinion-makers procuravam decifrar as ideias do líder a partir de códigos de leituras antigos e largamente desajustados à sua política e visão programática. Os "gurus” da opinião política viram-se a deriva numa espécie de movimento, onde nem a apofenia mecânica os conseguiu resgatar.

O Presidente tem demostrado que ciência de que o sucesso das reformas que pretende e está a levar a cabo dependente da existência de uma pool de quadros tecnicamente e capazes e moralmente impolutos para assegurar as rupturas no plano da gestão burocrática e das orientações axiológicas.  Esta sua visão vem sendo manifestada em diversos actos praticados seja na condição de líder partidário como de Titular do Poder Executivo. Um destes momentos foi quando decidiu retirar a pasta de política de quadros, da alçada da Vice-presidente do Partido, para atribuir a uma Secretária, fazendo regressar, deste modo, a figura da Secretário para a Política de Quadros, sinalizando já, de forma inequívoca, a importância que atribui à gestão dos quadros na sua estratégia de reformas dos aparelhos partidário e governativo.

Para compreendermos o sentido desta reforma, em seguida analisamos alguns dos indicadores de resultados até agora disponíveis: Durante oseu primeiro mandato, João Lourenço promoveu a igualdade de género em todas as estruturas de Direcção do Partido, elevou o número de mulheres à frente de Departamentos ministeriais e Governos provinciais, reduziu a média de idade dos membros do Executivo e do Secretariado do Bureau Político, entre as outras questões. Como sinal de coerência, a composição da lista de candidatos à Deputados a Assembleia Nacional foi elaborada obedecendo os critérios de equilíbrio de género e faixa etária. Nesta lista desponta existência de uma nova racionalidade na gestão de quadros, assente na separação e não cumulatividade de funções. Isto é, ao contrário do que habitualmente ocorria no passado, quando todos os altos quadros e dirigentes do MPLA integravam a lista de candidatos à Deputados, e que depois muitos suspendiam os respectivos mandatos para ocupar funções no Executivo, o Presidente terá já deixado de fora desta lista aqueles com os quais conta para a formação do próximo executivo ou outras funções, apontado para uma clara separação das esferas de actuação dos quadros.

A valorização da competência técnica e a relativização da militância como factores importantes para a ascensão aos cargos políticos e governativos é outra variável deste novo paradigma da política de gestão de quadros que já havia sido anunciada no último congresso extraordinário, quando João Lourenço alertou aos recém ingressados, que estar no Comité Central do MPLA não significava estar mais perto da nomeação para cargos ao ter acesso à benesses. Nesta senda, a recente indicação e aprovação da candidatura da camarada Esperança Maria da Costa, para o cargo de Vice-Presidente da República trouxe ao lume uma outra variável da equação da gestão de quadros: competência técnica construída por meio de uma carreira feita fora dos muros do partido.

Estatutariamente a JMPA é definida como o viveiro dos futuros dirigentes do Partido e, tradicionalmente, são os dirigentes do partido que se apresentam como putativos dirigentes no Executivo. Esta racionalidade permitiu que, ao longo de muitos anos, se priorizasse mais o tempo de militância e o percurso político partidário, em detrimento das qualificações profissionais, académicas ou competências pessoais. Tudo indica que estes tempos acabam de passar para à história. A nova política de gestão de quadros do Presidente João Lourenço está a combater o carreirismo. Não o carreirismo qualquer, até porque o verdadeiro profissional se forja no trabalho, através de uma carreira cheia de realizações. Trata-se do carreirismo político inócuo, primário e pernicioso, cujos anos de exercício não representam ganhos substantivos e qualitativos para os resultados da acção política do partido.

A importância desta variável foi reiterada na semana passada, no acto político de massas realizado no Moxico, onde o Presidente João Lourenço foi peremptório ao afirmar que trabalha com todos os bons quadros do Partido, não somente com aqueles que fazem carreira no Partido, e que não foi buscar alguém, para candidato à Vice-Presidente da República, que fez carreira no MPLA,foi buscar alguém que fez carreira no mundo académico. O Presidente sustentou a sua afirmação na crença de que é a ciência que desenvolve o país e não os políticos. Para terminar este nosso mapeamento das variáveis mestras da nova política de quadros do MPLA, retomamos aqui,analiticamente, as declarações de João Lourenço na entrevista colectiva concedida aos meios de comunicação social em que destacou, como uma das prioridades da sua governação no próximo mandato,uma forte aposta no sector da Educação, evidenciado o reconhecimento da necessidade de associar à sua agenda reformista um amplo plano de desenvolvimento do capital humano que assegure a qualificação técnica e científica dos quadros nacionais, elevando os níveis de competitividades da nossa economia e o bem-estar das famílias angolanas.


Mbangula Katúmua

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