Reportagem

Uma morte que empobrece a classe dos linguistas

César Esteves

Jornalista

A morte do linguista e decano da Faculdade de Humanidades, ex-Faculdade de Letras, da Universidade Agostinho Neto, o Professor Doutor Alexandre Mavungo Chicuna, ocorrida dia 10 deste mês, por doença, em Luanda, representa um duro golpe ao processo de formação de linguistas no país. O Professor Chicuna - é assim que nós, os estudantes, o tratávamos na academia - era, a nível daquela casa de letras, quiçá do país, dos poucos Doutorados em Linguística, com a qualidade exigida para a docência

20/02/2022  Última atualização 09H25
Decano da Faculdade de Humanidades, ex-Faculdade de Letras, da Universidade Agostinho Neto, Doutor Alexandre Chicuna © Fotografia por: DR
Alexandre Mavungo Chicuna fez o Doutoramento em Linguística na Universidade Nova de Lisboa, onde já tinha terminado o mestrado na mesma área, e a licenciatura em Ciência da Educação, opção Português, no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), de Luanda, da Universidade Agostinho Neto.


Ao longo da sua carreira académica exerceu inúmeras funções de realce na Universidade Agostinho Neto, nomeadamente a de chefe de Departamento de Investigação e Pós-Graduação, regente do curso de licenciatura em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa e coordenador do curso de mestrado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa. Foi, igualmente, regente da disciplina de Língua Portuguesa da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto e colaborador no Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa (CLUNL). Ministrou, ainda, os seminários de Linguística Portuguesa, Fonologia, Sintaxe e Didáctica do Português nos cursos de mestrado da Faculdade de Humanidades da UAN e do ISCED de Luanda.


Como docente no curso de licenciatura em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa, leccionou, no 3º. e no 4º. anos, as cadeiras de Lexicologia e Lexicografia, Sintaxe da Língua Portuguesa, Análise do Discurso e Estilística. Pelas suas mãos passaram muitos dos docentes que leccionam, hoje, a cadeira de Língua Portuguesa em várias instituições de ensino superior e médio do país. Até antes da sua morte, estava a trabalhar num projecto para o lançamento do primeiro curso de Doutoramento em Linguística da Faculdade de Humanidades.

Alexandre Mavungo Chicuna é autor de duas obras académicas, nomeadamente "Portuguesismos nas Línguas Bantu - Para um Dicionário Português Kiyombe” e "Dicionário de Siglas e Abreviaturas Angolanas”. No primeiro livro, o Professor Chicuna mostra a presença dos portuguesismos, isto é, unidades do léxico português no Kiyombe, língua bantu da província de Cabinda, bem como faz a apresentação de um modelo de Dicionário Português-Kiyombe. É o primeiro trabalho do género em Angola. No segundo livro, o académico faz uma recolha das principais siglas, acrónimos e abreviaturas angolanas. Neste trabalho, o Professor levanta uma curiosidade interessante. Mostra algumas siglas angolanas partilhadas por várias instituições, ou seja, que têm mais de um significado. É o caso, por exemplo, de ADA, que significa, ao mesmo tempo: Associação dos Desmobilizados de Angola, Associação dos Diplomatas de Angola e Associação dos Defensores do Ambiente. O outro caso ocorre com o acrónimo FAA, que significa Federação Angolana de Andebol, Federação Angolana de Atletismo e Forças Armadas Angolanas.  

Primeiro contacto com o Professor Chicuna

Conheci o Professor Alexandre Chicuna, em 2011, minutos antes de saber que tinha sido admitido na Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, no curso de Língua e Literaturas em Língua Portuguesa.

A ânsia de querer saber, já, se tinha sido admitido ou reprovado nos testes de admissão - na altura dois: escrito e oral – levou-me a deslocar-me, muito cedo, às instalações da Faculdade de Letras, na altura nas instalações onde funciona a Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, para consultar as listas.     

Estas não tinham sido, ainda, afixadas, mas um funcionário da instituição assegurou-me que tal aconteceria nesse mesmo dia, o que me levou a não arredar o pé daquele lugar. Queria ser o primeiro a saber do meu resultado. Naquela altura - não sei se até hoje é assim - a notícia sobre o seu resultado podia encontrar-lhe em casa, através de um telefonema feito por quem lhe conhecesse.

Ora, não tinha passado muito tempo, quando, de repente, um senhor, ligeiramente robusto, trajando um facto azul-escuro, vinha a caminhar, vagarosamente, em direcção à vitrina, carregando consigo alguns papéis na mão. Deduzindo que se tratava das listas, aproximei-me dele e, sem que dissesse uma única palavra, questionou-me: "algum problema, jovem?” "Bom dia, senhor! Sou um dos candidatos e gostava de saber se os papéis que carrega são as listas dos admitidos e reprovados”, respondi. Sem responder, meteu-se a caminhar, até à vitrina. Aqui, voltou a perguntar-me: "o que o seu palpite lhe diz, que foi admitido ou reprovado?”. "Que fui admitido”, respondi.

"O bom estudante não depende da publicação de pauta, para saber se foi admitido ou reprovado”, afirmou, para, de seguida, pedir-me para segurar os papéis que carregava, enquanto removia os documentos já ultrapassados na vitrina.

A vontade de folhear os papéis, sem que ele se apercebesse, para ver o meu nome, era tanta, que, de repente comecei a transpirar. Mas descartei o plano, para não defraudar o senhor, que, também, não parava de mirar um olhar em todo o movimento que fazia. Depois de limpar a vitrina, pediu-me que lhe passasse algumas folhas, para começar a colar. Aqui, fiquei completamente bloqueado, sem saber se consultava, rapidamente, as folhas, antes de lhe entregar, ou se me limitava apenas a entregar. Era muita ansiedade. Ele deu conta, tendo, por isso, pedido que me mantivesse calmo e sem ansiedade. "Como é que se chama?”, questionou. Disse-lhe o meu nome completo. Nessa altura, já tinha terminado de colar as folhas que lhe havia entregado, tendo, por isso, solicitado outras. Não tinha terminado de afixar essas listas quando, sorridente, olhou para mim e afirmou: "é um jovem de sorte. Parabéns! Foi admitido”. Nesse momento, apetecia-me pular e abraçar-lhe bem forte, mas controlei a emoção. Lembrei que o senhor não era da minha intimidade. Revelei-lhe, apenas, que a notícia que acabava de me dar era de um significado imensurável, pois era o primeiro de um universo de mais de 20 irmãos a entrar para o ensino superior. Depois de terminar de colar todas as listas, agradeceu-me pela ajuda e despediu-se. A emoção era tanta que me esqueci de perguntar pelo seu nome. Nessa altura, não fazia, sequer, ideia de que estava diante do regente do curso que iria frequentar, muito menos que se tratava de um dos professores mais respeitados da instituição.

Só passei a ter essa noção no segundo ano, através de conversas mantidas com alguns colegas do terceiro ano, nível onde começava a leccionar. Estes diziam haver uma cadeira muito difícil no terceiro ano que era leccionada por um professor também muito rígido e difícil de lidar. Contaram que a cadeira chamava-se Sintaxe da Língua Portuguesa e o professor Alexandre Chicuna. Não fazia ideia de quem se tratava, até as investigações que fiz revelarem tratar-se do senhor que ajudara, em 2011, a colar as listas dos admitidos e reprovados. Custava acreditar que se trava de um senhor difícil de lidar, tal como descreveram os colegas do terceiro ano, mas, ainda assim, era preciso confirmar.

Rigor e exigência

Na sua primeira aula na minha turma, já no terceiro ano, protagonizou um acto que me levou a entender a razão que levava muitos estudantes a qualificarem-no como rígido. Mandou todos os estudantes prepararem uma folha e uma esferográfica. De seguida, ditou algumas palavras, constando, entre as mesmas, as palavras "doença” e "paludismo”. Acto contínuo, pediu a dois colegas para irem ao quadro escrever essas mesmas palavras. O resultado foi catastrófico. O primeiro colega escreveu a palavra doença com o acento til na vogal "e” e, o segundo, escreveu simplesmente assim a outra palavra: "palúdismo”. Essa situação deixou o Professor Chicuna tão furioso, dado o ano em que os referidos colegas já se encontravam (3º ano, faltando apenas um para o término do curso) que começou a questionar como conseguiram entrar para a Faculdade de Letras. Este incidente deu lugar a abertura de um trabalho de investigação a nível do curso de Língua e Literatura em Língua Portuguesa, para ver se havia mais estudantes naquela condição. O processo de investigação encerrou com a expulsão de muitos estudantes que tinham entrado para a Faculdade de Letras, sobretudo no curso de Língua e Literaturas em Língua Portuguesa, de forma fraudulenta, sem, provavelmente, terem sido aprovados nos testes de admissão.

A partir daí, passei a gostar do Professor Chicuna por causa, sobretudo, do rigor que impunha nas suas aulas e, também, por leccionar a cadeira que abarcava parte dos conteúdos que mais me interessavam no curso: Sintaxe da Língua Portuguesa. Para quem gosta de fazer uma boa viagem ao mundo da escrita, sem muitas turbulências, sabe do papel determinante da Sintaxe neste processo. A Sintaxe é a parte da gramática que estuda a disposição das palavras na frase e das frases no discurso, incluindo a sua relação lógica, entre as múltiplas combinações possíveis para transmitir um significado completo e compreensível. Nessa altura, acredito, o Professor Chicuna não fazia ideia que tinha conseguido um admirador, numa turma que também já entoava o hino de que era um professor muito rígido e difícil de lidar. Eu não via nenhum desses adjectivos no seu carácter. Para mim, era apenas um bom professor cujo objectivo passava por promover um ensino de qualidade. Não aceitava perder as suas aulas e, quando as perdesse, por razões de força maior, sentia-me muito mal.

O meu bom aproveitamento nessa cadeira despertou a atenção do professor, que, de repente, começou a prestar-me mais atenção, ao ponto de ser apelidado, por alguns colegas de turma, de o filho do Chicuna. No quarto e último ano do curso, essa amizade intensificou-se de tal maneira que deixou de ser apenas de professor para aluno  para ser, praticamente, de pai para filho. Ofereceu-se para ser meu tutor e, nessa condição, ligava, constantemente, para saber do trabalho. Ao notar uma certa lentidão no andamento do trabalho (admito que estava mesmo muito lento) deixou de me receber no seu gabinete, alegando que não recebia quem não defendesse. "Não recebo estudante da 4ª classe”, era essa a expressão que utilizava. Com essa atitude, o professor pretendia, apenas, incentivar-me a concluir o trabalho e a defendê-lo. A táctica funcionou, mas, agora, ele não está aqui para ver o resultado. Mas, mesmo assim, Professor Chicuna, obrigado por tudo. Vá em paz!  Concluo essas linhas, destacando que a minha primeira viagem de avião foi proporcionada pelo Professor Chicuna. Levou-me para conhecer a sua terra natal, Cabinda.

Morrem os homens, mas ficam as suas obras.
Académicoé enterrado em Cabinda

O decano da Faculdade de Humanidades, Alexandre Chicuna, foi sepultado no dia 16 deste mês, no Cemitério Municipal de Cabinda, sua terra natal. No dia 15, antes da transladação para a província de Cabinda, a urna contendo os restos mortais do académico passou toda a manhã na Faculdade de Humanidades, numa cerimónia de despedida marcada por muita comoção. Marcaram presença, neste acto, o corpo docente e discente da faculdade, trabalhadores da instituição, amigos e muitos ex-estudantes

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