Cultura

Uma festa dos sentidos com arte e sofisticação

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Há cidades, que pela intensidade da vida artística, intelectual e cultural, são especiais: Paris é uma dessas. Elas são tão dinâmicas que é impossível apreendê-las.

21/09/2022  Última atualização 08H45
Interior da Pirâmide de cristal do Museu do Louvre, uma das maiores referências mundiais © Fotografia por: Dr

Assim que, tendo pouco tempo, decidimos visitar uma parte de alguns museus e galerias. Não os visitamos totalmente, mas escolhemos aquelas exposições, dentre as várias, que estavam patentes. As mais interessantes, como a do Museu do Quai Branly, da Bolsa de Comércio – Colecção Pinault, da Galeria Jeu de Paume, do Museu Guimet, do Museu de Arte Moderna, do Palais de Tóquio e da Fundação Cartier para a Arte Contemporânea.

Para movimentarmo-nos mais rápido, comprámos o bilhete diário de metro para circular pela zona do centro, mas, ainda assim, sempre que apetecia era melhor caminhar por algumas ruas e "boulevards”. Sempre que a ocasião surgia, para estar bem alimentados e hidratados, parava para comprar uma merenda ou almoçar nos café e restaurantes dos vários centros culturais e museus espalhados por Paris, tornando a visita numa festa dos sentidos, da visão e do gosto.

 Primeiro dia

O Museu do Quay Branly foi o primeiro a ser visitado. Há uns anos, antes mesmo de abrir ao público conheci o espaço, com um grupo de adidos culturais acreditados em França, numa visita guiada, na altura, por Stephan Martin, o primeiro director do museu.

Aquando da primeira visita, o edifício, projectado por Jean Nouvel, estava ainda em obras, mas já se poderia divisar que a estrutura arquitectónica era, quando menos, curiosa e o paisagismo, também. Quando foi inaugurado por Jacques Chirac, em 2006, o museu tinha detalhes únicos, inclusive até na selecção das espécies de plantas, árvores ou arbustos, plantados no jardim, montados tendo em conta como iriam florescer.

Passados dezasseis anos, o resultado é maravilhoso: quem chega hoje ao Museu do Quay Branly entra por um jardim frondoso, fresco e com aromas agradavéis, envolto numa sensação de refrescamento, mais activo, particularmente, no verão, na época das canículas, agora cada vez mais frequentes. Nesta altura, o museu se torna um lugar em que os visitantes podem satisfazer o seu exotismo.

Mesmo sendo um museu dedicado, também, às artes da Ásia, Oceanía e Américas, a sala África do espaço é sem igual. Durante quase duas horas, percorri o local e fiquei feliz, mesmo estando exausto. Ver centenas de objectos e artefactos oriundos de todas as regiões do continente africano, expostos com critério, gosto e dignidade, é algo que faz bem a qualquer africano.

Melhor ainda foi, uma vez mais, ver naquela sala África os objectos de arte ligados às culturas angolanas, com realce para as do kongo e cokwe, as melhores representadas. O único senão é que, em alguns casos, as legendas das obras expostas fazem menção, apenas, à República do Congo Democrático ou a Zâmbia, países vizinhos.

A saída do local, foi com muita contrariedade, algo que acontece sempre quando saímos de qualquer museu com um perfil semelhante ao do Quay Branly, herdeiro das tendências da antropologia e da etnografia colonial. Desta forma, é possível perceber, melhor, o porquê das fortes polémicas, que acompanham estas instituições, sempre que a questão abordada é a restituição dos objectos de arte e dos artefactos aos países de origem.

Para digerir o que vimos, passei pela livraria e a loja de "souvenirs” antes de almoçar no Café Jacques, cujo nome é também uma homenagem ao conhecido lado gourmet de Chirac. Pedi uma "salada césar”, como entrada, e ovos mexidos com estragão, espargos verdes e molho de aves, como prato principal. Terminei o almoço com um tiramissu como sobremesa. Toda a refeição foi acompanhada com água gasificada, da marca "perrier”, que ajudou a repousar o impacto de toda a informação visual, absorvida durante horas de visita.

O dia seguinte

No segundo dia, depois de passar pelo "boulevard” Garibaldi e conversar com a embaixadora e delegada permanente de Angola junto da UNESCO, Ana Maria de Oliveira, decidi visitar a Bolsa de Comércio – Colecção Pinault.

O belo edifício circular, que era a sede da antiga Bolsa de Comércio de Paris, hoje remodelado, após intervenção do arquitecto japonês Tadao Ando, é sublime. Percorrer as suas salas amplas e com um enorme pé direito, na decoração, que facilita a montagem de importantes obras de arte de vários artistas, dentre os quais Larry Bell, Marcel Broodthaers, Miriam Cahn, Nina Canell, Liz Deschenes, Ryan Gander, Dominique Gonzalez-Foerster, Felix Gonzalez-Torres, Roni Horn, Pierre Huyghe, Gustave Le Gray, Sherrie Levine, Philippe Parreno, Anri Sala, Tino Sehgal, Rudolf Stingel, Sturtevant, Wolfgang Tillmans e Carrie Mae Weems é um momento de desfrute e de consolidação da formação estética.

Nesse dia, o almoço foi frugal com Nicásia Casimiro, num "bristó” na Praça Des 2 Écus. Falámos sobre as coisas essenciais da vida, das artes e cultura, que têm sido as maiores obsessões dos últimos 20 anos: os conselhos recebidos e a intensidade da conversa exigiu uma caminhada para espairecer, logo de seguida.

Então, já sózinho caminhei pela Rua do Louvre até ao entrocamento com a Rua Rivoli e entrei no pátio do museu para ir ver a pirâmide de cristal. Depois sai para continuar por ela, no lado do Museu Nacional de Artes Decorativas, bordear o jardim das Tulherías e voltar a entrar antes da Praça da Concórdia, de forma a aceder a Galeria Jeu de Paume.

Na galeria Jeu de Paume, as exposições dos cineastas Jean Painlevé e Marine Hugonnier são uma mostra da importância que a história do cinema e do audiovisual tem actualmente em todo o mundo: há um aumento exponencial do interesse pela vida e a obra dos cineastas, assim como pela maneira como eles, na obra que produziram, lidaram com os seus objectos de observação.

Neste dia, andei até ficar cansado pelas ruas e "boulevards” dessa parte da cidade, até atravessar a ponte que dá a Esplanada dos Inválidos: visitar exposições de arte faz ter um cansaço prazeroso e revitalizador, sentimentos que sedimentam conhecimentos e alimentam  a qualidade de qualquer vida sensível e inquieta.

O último adeus a dias memoráveis

No terceiro e último dia, casualmente um sábado, visitei um velho amigo, com quem fui visitar o Museu Guimet, de Artes Asiáticas, para alimentar uma paixão que tenho desde os anos da licenciatura em História de Arte.

O Museu Guimet é especializado em arte oriental – China, Japão, Índia, Vietname, Cambodja e outros países da região – e estava como recordava. Quem foi à Paris deve visitá-lo para ter uma noção do trabalho de exímios escultores e pintores, cuja destreza e refinamento os permitiu trabalhar, em grandes formatos, materiais como a pedra ou o papel.

Qualquer obra aí exposta pode justificar uma tese sobre o tema que trata, mas, também, um pretexto para fazer uma incursão sobre a história e as técnicas usadas. O segredo é desfrutá-las no mais absoluto silêncio, para, de certa forma, participar no mistério da sua criação.

Depois de sair do Museu Guimet,fui à Avenida Presidente Wilson. Aos sábados montam um mercado onde vendem frutas, legumes, peixe, mas também flores ou peças de antiquários. O objectivo não era ir ao mercado, mas sim ao Museu de Arte Moderna, onde visitei rápidamente as suas salas, com obras de clássicos da pintura europeia, da primeira metade do século XX: Picasso, Derain, Léger, Kokoscha e Modigliani, entre outros, obras célebres e outras não tanto, numa espécie de revisão geral da história de arte do período.

O almoço nesta dia foi cuscús com salada e brocheta de frango e, depois, para sobremesa, damasco com gelado de baunilha. Saboreei o prato, enquanto via os barcos a passar sobre as águas do rio Sena. Foi a melhor maneira para estar mais confortável e bem disposto para visitar o Palais de Tóquio.

As primeiras exposições da sessão "Reclamar a Terra” no Palais do Tóquio – o centro de arte contemporânea que acolheu recentemente a retrospectiva da cineasta Sara Maldoror - e, em particular, a própria exposição que dá título a mostra, é belíssima: tratam de um modo sofisticado as questões concernentes à relação entre a arte, a biodiversidade e a consciência ecológica. Têm particular imponência as exposições de Laura Henno e Aicha Snoussi.

E, finalmente, antes de ver o músico (tocador de Quissange) Lulendo, visitei a exposição de Sally Gabori, na Fundação Cartier de Arte Contemporânea. O trabalho desta artista australiana inscreve-se perfeitamente na tendência expressionista: espontâneas manchas de cor sobre telas em grandes formatos, que encontram ressonância na memória visual de um público que tem o fauvismo e os trabalhos de Sónia e Robert Delaunay, na sua cultura visual.

Visitar museus e galerias é sempre uma festa dos sentidos. Quem o puder fazer, nem que seja somente por escassos três dias, o sensato é escolher a dedo o que fazer e como: é a única forma de desfrutar do prazer de ver e rever, parar e pensar, com calma e livremente, sobre a arte e a cultura visual deste e doutros tempos.

 

 

 

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Cultura