Opinião

Uma coisa de cada vez

Kumuenho da Rosa

Jornalista

Ontem, ligou-me um velho amigo para recordar-me de uma conversa acalorada que tivemos há uns anitos sobre credibilidade dos órgãos de comunicação social.

25/06/2024  Última atualização 08H28

Bom, a discussão não era propriamente sobre isso, mas acabamos por ir lá parar. Falávamos de um episódio do qual resultou um autêntico sururú, porque, contrariamente ao que era costume, a "bomba” explodiu nas plataformas digitais e redes sociais, antes mesmo de passar nos canais oficiais.

Entendia ele que não era certo que um assunto tão sério como a exoneração do titular de uma pasta importante no Governo chegasse primeiro às redes sociais antes mesmo de passar em algum órgão de comunicação social.

A conversa, como disse, acalorada, acabou num zero a zero, porque o meu amigo se recusava a aceitar o aporte que dei sobre a necessidade de ele olhar o problema na perspectiva da credibilidade dos órgãos de comunicação social, antes mesmo de se pensar num qualquer vício de forma ou falha no sistema.

Questionava se não havia aí um vício ter o acto de exoneração do ministro amplamente discutido em hasta pública, antes mesmo de passar na tv pública ou num outro do universo da media paga com dinheiro público.

Ele, um jovem economista, gestor respeitado, cheio de ideias próprias, e eu jornalista, licenciado em Direito, mas que de tão acostumado a ser visto, por ele, como "homem da comunicação”, vou fazendo pela vida para sobreviver aos nossos combates intelectuais, com o mínimo possível de jurisdiquês.

Nos nossos debates, opto sempre pelo comuniquês. E faço-o desde dia em que me percebi que jurisdiquês, com ele, era o mesmo que dar murros numa faca. Com ele, escuta activa e uma abordagem com o mínimo de jargões jurídicos ou uso de termos que lembrem a lexicografia jurídica. Era assim, ou acabamos no zero a zero.

Sobre a exoneração do ministro nas redes sociais, não havia volta a dar. Ficamos mesmo no zero a zero. Ao fim de duas horas, acabei ficando com a bicicleta e ele com os pedais. Cada um foi para o seu lado sem esconder a frustração por não ter sido suficientemente convincente. Na verdade, tinha sido a primeira vez que um enfrentamento nosso tinha terminado em empate técnico.

Mas, ontem, ligou-me ele todo sorridente, a dar-me razão, porque entendeu, por fim (e já lá vão quase três anos), que fazia algum sentido, para naquele caso, falar-se também da credibilidade dos órgãos de comunicação social.

Claro que hoje, para mim, não tem qualquer interesse falar do ministro que até já nem está ministro. Para todos os efeitos, assunto morto e enterrado. Ficou apenas o registo de um acto administrativo àquele nível ter chegado ao conhecimento público através de diferentes fontes, inclusive anónimas, antes mesmo dos órgãos oficiais.

Retive essa nota, porque já lá vai o tempo em que as pessoas (incluindo os exonerados) esperavam pelo Telejornal para dar como certa ou oficial uma informação, mesmo quando veiculada num outro órgão. Ingrata a missão da Angop, porque se sabia que a notícia podia simplesmente ser retirada da emissão, a solução era esperar pelo Jornal de Angola, no dia seguinte.

Mas hoje os tempos são outros, as dinâmicas são outras. A Internet tem um efeito disruptivo e quer os órgãos de comunicação social, como as instituições públicas, devem adaptar-se aos novos tempos, sob pena de irem perdendo espaço para a concorrência que se apresenta agressiva e multiforme.

Mas acabei por não dizer, porque o meu amigo se deu ao trabalho de ligar para mim, para falar de um assunto de há três anos. E essa é mesmo para rir. Disse ele que tinha perdido a notícia sobre a proposta de uma nova divisão político-administrativa para Luanda, porque estava mais preocupado com a informação sobre o tempo.

Ora, fiquei baralhado. O que a proposta de uma nova divisão político-administrativa para a província de Luanda levantada em sede de uma reunião do BP do MPLA, tinha a ver com o serviço meteorológico da TPA? Foi uma gargalhada daquelas quando me explicou que perdeu a notícia, porque decidiu trocar de canal assim se deu conta de que a moça que apresenta as informações sobre o tempo, foi substituída. Foi um autêntico balde de água fria, disse ele.

Ri-me tanto que ainda hoje imagino a expressão de desencanto do meu amigo, profundamente desiludido, por lhe tirarem a grande motivação para ver o Telejornal. Rimo-nos de tão caricata que foi a situação. Tive que o tranquilizar sobre o destino da tal moça, que afinal saiu para o estrangeiro em formação, e depois também tive que lhe explicar que Luanda continuará Luanda e que o que aconteceu foi apenas uma recomendação do Bureau Político do MPLA para que a sua Bancada Parlamentar levasse o assunto à discussão na Assembleia Nacional.

Ainda pensei em falar da sua atitude de mudar tempestivamente de canal após o choque que foi a mudança do apresentador da informação meteorológica como uma evidência do problema de credibilidade dos órgãos de comunicação social, mas acabei por desistir. Prefiro avisar aos colegas da TPA que anda por aí um economista, gestor respeitado, com o coração partido.

Sobre a credibilidade dos órgãos de comunicação social e a urgência de se abordar o assunto, falamos noutra altura. Uma coisa de cada vez.

Jornalista

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