Economia

“Uma aula de política monetária e supervisão para quem quisesse”

Entre a audiência que acompanhou a entrevista do governador José de Lima Massano à TPA, conta-se a do economista Rui Malaquias, para quem os pontos fortes “são mais predominantes que os pontos fracos, pois, o governador esteve calmo e mostrou que dominava os dossiês”.

30/07/2020  Última atualização 12H29
Mota Ambrósio| Edições Novembro


O economista diz que “viu-se que não foi conversa combinada, porque a entrevistadora esteve muito agressiva para com o entrevistado, até demais, que se demarcou das politiquices associadas às novas notas e fecho dos três bancos comerciais”.
Na perspectiva de Rui Malaquias, José de Lima Massano explicou, e bem, as vantagens da desdolarização e da adopção da taxa de câmbio flutuante, males que era acusado de cometer e, por fim, deu ainda uma aula de política cambial, monetária e supervisão bancária, para quem quisesse aprender.

O docente Rui Malaquias diz ter ficado com a impressão de que o governador sabe o que está a fazer e, principalmente, sabe para onde pretende ir. Outra apreciação de Rui Malaquias é o facto de José de Lima Massano deixar claro que se sente “inquieto e muito bem”, por fazer parte da Equipa Económica, pois, o BNA não pode se submeter a uma agenda puramente política. “Falando em revisão da lei, o governador esteve mal”, porque “não foi capaz de reconhecer, claramente, mas defendeu que a lei tem de mudar”.

Questões de domínio público

Por sua vez, o economista Fernando Vunge diz que enquanto gestor bancário, no cômputo geral, subscreve as questões abordadas pelo governador do BNA na medida em que muitas das informações prestadas já eram do domínio público, pelo menos ao nível da banca.
“Temos notado uma actuação mais activa do BNA na condução da política monetária e cambial, tal como se pode aferir nos normativos que tem vindo a produzir e implementar, enquanto órgão de supervisão e regulação do sistema financeiro nacional, o que tem obrigado aos bancos comerciais a pautarem-se por uma conduta mais alinhada com as boas práticas exigidas no sector financeiro”, afirmou.

Sobre as Medidas de Política Monetária e Cambial que estão a ser implementadas, Fernando Vunge considera serem as que se impõem, tendo em conta a actual conjuntura do país, caracterizada por uma crise económica, financeira e cambial decorrente de factores endógenos (corrupção, branqueamento e fuga de capitais, evasão fiscal, burocracia, impunidade, nepotismo, clientelismo e monopólios) e exógenos (caso das constantes oscilações do preço do petróleo e consequentes cortes a que o país está sujeito, enquanto membro da OPEP.

“Estes factores obrigaram o BNA a implementar uma política cambial flutuante para uma melhor gestão dos recursos cambiais do país”, disse. Nesse sentido, o docente de economia entende que as informações dadas pelo governador estão plenamente alinhadas com o optimismo dos agentes económicos. O foco dessas medidas, disse, “é a efectivação do propalado programa da diversificação económica, que permitirá alavancar a produção interna para substituição das importações e, assim, diversificar as fontes de receitas de divisas.
Para Fernando Vunge, quanto maior independência tiver o banco central, maior conforto terá no cumprimento das suas competências, pese embora, na literatura económica não existam consensos sobre esta matéria, pelo facto de haver casos de sucessos nos diferentes modelos.

“No caso específico, o governador do BNA não é membro do Executivo, mas participa nas reuniões da Comissão Económica do Conselho de Ministros e, enquanto membro da Equipa Económica, acompanha a elaboração das medidas de política económica a serem implementadas. Podemos inferir que a revisão dessas duas leis poderão trazer maior conforto ao BNA na execução da política monetária e cambial”, concluiu Fernando Vunge.

Perspectiva mais crítica

Uma perspectiva pouco mais crítica ao desempenho do governador na entrevista à Televisão Pública de Angola foi do economista Augusto Fernandes.
O gestor de uma das plataformas que se dedica ao incentivo à poupança financeira, no caso o “PoupaInvest”, diz nãoestar satisfeito com a política monetária neoliberal levada a cabo pelo Banco Nacional de Angola.

O economista considera que as mesmas andam à deriva no ambiente macroeconómico, pois,a política fiscal é 100 por cento intervencionista. Nisto, cita como exemplo, o facto de o banco central promover uma taxa de câmbio livre para os importadores e o Ministério das Finanças promover outros regimes de preço (fixo, vigiado e livre) nos mesmos bens importados.

Para Augusto Fernandes, “o facto de coabitarem na política monetária o regime de taxa de câmbio livre, com taxas de juros passivos, é um ponto fraco”.
Já o caso da nova família de notas do Kwanza, que hoje entra em circulação, é referenciado por Augusto Fernandes como “um ponto forte da política monetária levada a cabo pelo Banco Nacional de Angola”.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Economia