Reportagem

Um retrato à Vila da Nova Esperança

Silvino Fortunato

O caminho para a vila da Nova Esperança parte de um dos extremos da vila de Sanza Pombo, rasgando inicialmente um dos seus bairros suburbanos, continuando sinistramente por florestas, montanhas e declives íngremes com solos sempre arenosos, que provocam sérios danos às viaturas e à paciência dos condutores

11/09/2022  Última atualização 07H21
© Fotografia por: Silvino Fortunato | Edições Novembro | Buengas

A parte inicial do único trajecto para quem segue para a sede municipal dos Buengas é dominada por rugoso pavimento de terra avermelhada, facilmente vencido pelas águas das chuvas que abrem valetas e monstruosos abismos.

Na trajectória, miúdos correm à estrada, chamados pelo roncar dos motores aflitos, acenando do outro lado das ravinas que, em certos lugares, dividem a meio as sanzalas, deixando apenas alguma língua estreita de terra firme para os carros passarem. Os solos movediços favorecem que as viaturas escavem trincheiras que se parecem com túneis, que chegam a uma profundidade tão considerável ao ponto das viaturas não serem visíveis a longa distância.

Depois da vila do Mbuenga Sul, uma antiga concentração de colonos portugueses, as ravinas dão tréguas à estrada e passam o chicote do castigo para os abundantes e volumosos bancos de areia que crescem na barriga da via, obrigando o condutor ao uso permanente da primeira e segunda velocidades, auxiliadas quase sempre pelo canhoto, ou seja, o primeiro e até mesmo o segundo reforço.

"Chefe, isso fatiga o motor e cansa o motorista”, observou o Neto Kambembe, perante o silêncio penoso do repórter do Jornal de Angola, que prefere atirar a vista à floresta de árvores robustas, trepadeiras, ervas e outras espécies que se espalham quase por todo o trajecto, abrindo alas para o cultivo e para a caça. Estas florestas, geralmente abertas, de tipo tropical com vegetação rasteira e abertas no seu interior, sobre as quais voam em roda os abutres em busca de qualquer presa, dão abrigo a muitas espécies de animais, com destaque para os antílopes, pacaças, gazelas, macacos, chimpanzés, pacas (mbuiji), lebres, além de espécies diferentes de aves e serpentes, como disse um aldeão que transportava no lombo uma jibóia, morta em uma das suas armadilhas.

Ao longo da via podem ser vistas viaturas avariadas, com problemas de disco de embraiagem, rótulas ou mesmo de motor, o que obriga, quando assim acontece, a um repouso forçado dos viajantes, que ficam dias até chegar a solução para continuarem com a esfrega. "Desde que estou aqui (a trabalhar) já dormi três ou quatro vezes na via”, disse o administrador José Bunga em conversa com os jornalistas da Edições Novembro.

Em determinados troços da via, camiões muito potentes ou os passageiros de catanas e machados na mão abriram na selva novos atalhos, em busca de alternativas para contornarem a profundidade dos obstáculos ou o travão da volumosa areia. "No tempo colonial, as ravinas não existiam tanto assim, parece que o mundo está a envelhecer”, observou o ancião Samuel Mpaxi, ele próprio também incrédulo com os actuais problemas da via, quando lhe foi perguntado se a estrada esteve sempre nesse estado lastimoso, numa das paragens da velha viatura Land Cruiser para um pequeno repouso.

O ancião, que é o chefe da Associação das Autoridades Tradicionais (AST) dos Mbwengas, nome tradicional da região, ainda disse que na época colonial havia  um branco que obrigava os sobas a mobilizar a população para cortarem capim, que era colocado no trilho da via, o que facilitava o trânsito das viaturas. "Com capim os carros não patinavam na areia”, disse.

Quando o motor da viatura voltou a roncar e esta conseguiu escalar um pequeno monte, apareceu já próximo, mas ainda distante, dada a característica da via, um conjunto de habitações que mesmo ao longe marcavam diferença em relação às aldeias transpostas ao longo do trajecto. É a sede do município dos Buengas, "onde a estrada termina e continua a Esperança”, uma metáfora que regularmente é usada pelos seus habitantes, provavelmente pelas dificuldades enfrentadas no trânsito rodoviário ou por outra razão qualquer que somente eles conhecem.

A vila da Nova Esperança

Nova Esperança começou a ser erguida muito antes dos anos 40 do século XX, sendo apenas elevada à categoria de vila a 1 de Setembro de 1971, motivo que leva anualmente a população a juntar-se para festejar efusivamente. São promovidos rituais, feiras, partidas de futebol e noites dançantes.

Mesmo já na vila a viatura não deixou de "patinar”, um travão provocado pela mesma areia da via, que também obriga as pessoas a andarem como se estivessem a fazer vaidade, com a cadência dos passos ditada pelo esforço de retirar os pés do chão. "Nós no Uíge é fácil determinar as pessoas que vivem nos Mbuengas. Elas andam de braços e pernas abertas”, atirou  um funcionário do Ministério do Interior aqui destacado, em conversa com os repórteres  sobre o estado da via e do pavimento das ruas desta vila.

Por todo o lado vêem-se ainda muitos sinais da presença colonial portuguesa. As lojas, algumas já transformadas em residências, estão dispostas frente a frente na única rua. No lugar onde existia o quartel da primeira fase da ocupação colonial da região foi erguido um armazém e um elevador de água que abastecia a vila. A população vê-se agora sujeita a buscar o precioso líquido nos rios ou nas pequenas cisternas da administração, a julgar pela inoperância do sistema de captação, armazenamento, tratamento e distribuição de água a partir do rio Xixi, que fica a uns escassos três quilómetros.

José Bunga disse haver garantias da parte do Ministério da Energia e Águas para a construção ou alargamento deste sistema de abastecimento de água para beneficiar os 7.018 habitantes da Nova Esperança.

Por trás da vila velha foram construídas recentemente algumas infraestruturas, com destaque para o Palácio Municipal, a residência do administrador adjunto, a Casa Protocolar e outras residências para os funcionários públicos de nível médio. Muitas destas infra-estruturas foram construídas com materiais provisórios, pré-fabricados, como o hospital que está à entrada da vila, o edifício da Administração e algumas habitações.  A Administração Municipal funciona em cinco blocos separados, dos quais três de construção provisória e dois de construção definitiva, o que, na visão do administrador Bunga, que manifestou a intenção de se construir um edifício único para todos os serviços da Admnistração, "é desajustado à norma”. Recentemente foram construídos os edifícios que acolhem o administrador municipal, o seu adjunto e outros responsáveis, além dos focos habitacionais no extremo sudeste, o que "engordou” a vila e lhe retirou a pequenez colonial.

O programa dos 200 fogos permitiu a construção de 108 casas, das quais, entretanto, apenas 29 estão concluídas. Das por concluir 64 já têm os tectos, 12 não possuem cobertura e três estão na fase dos alicerces.

Na periferia da vila, os populares montaram um mercado informal onde vendem o resultado do suor de todos os dias. Podem ser comprados aqui inhame, ginguba, bombô, mandioca e outros produtos do campo que facilitam o matabicho. Às tardes, alguma carne de caça, fuba de bombô e demais produtos são aqui adquiridos sobretudo pelos funcionários da Administração, professores, efectivos da Polícia e enfermeiros.

A única padaria, edificada na época colonial, há muito entrou em defeso, estando apenas presente a sua enorme estrutura que se pode observar à distância, obrigando a que os residentes se abasteçam do "pão burro” feito em pequenos fornos artesanais espalhados pelo vilarejo.

À noite a pequena vila é iluminada através de um grupo gerador de 700 Kvs, que funciona com muita dificuldade relacionada com a aquisição pontual de combustíveis e peças de substituição, de acordo com o administrador, que faz depender a solução definitiva do problema da construção de uma mini-barragem hídrica a partir do rio Xixi.

Nunca desistindo da esperança, o administrador José Bunga acredita estar para breve a solução do problema da via, a julgar pelas garantias que disse ter recebido dos seus superiores, de que já existe   financiamento, assegurado pelo Banco Angolano de Investimento. "Quero deixar esse problema resolvido, o que certamente fará sorrir o povo dos Buenga, antes de rumar para a minha reforma administrativa”. 


O retorno das festas

Este ano os munícipes voltaram a juntar-se para festejar o 1 de Setembro, dia em que a localidade foi elevada à categoria de vila, na sequência da desintegração da antiga possessão dos Bayakas da jurisdição de Maquela do Zombo, em 1971. Foram três dias consecutivos de comes e bebes e de música em eventos abrilhantados por artistas locais e outros contratados na cidade do Uíge.

Desfilaram no palco montado no centro da vila vários artistas que animaram a população. "Não dormimos. Dançámos toda a noite. É melhor virem sempre para tirarem a tristeza das pessoas”, disse Pedro Nzengele, um idoso já na casa dos 70 anos. 

O cantor Caba Chato foi vivamente aplaudido, sobretudo quando ofereceu aos presentes a sua aclamada canção "Funguna”. Também receberam efusivos aplausos os cantores Baki Maquela e o grupo "Anambwenga”, músicos com muita experiência na praça nacional. O duo "Gémeos” e as "Pérolas Negras” também contribuíram para a noite não dormida da vila do futuro.

Muito antes do espectáculo, houve um ritual, realizado no rio Xixi, que os moradores da vila e cercanias consideram sagrado. Dirigido por três anciões que detêm os segredos da mística e os saberes da vivência da região, a cerimónia contou com a presença do administrador municipal José Bunga, de funcionários públicos e representantes de várias organizações sociais. Vinho foi derramado e  partículas de pão arremessadas sobre o leito do rio, para "alimentar as sereias”, segundo o costume dos Batsoso. Pouco depois, os residentes da Nova Esperança assistiram a uma partida de futebol entre jovens da vila e uma agremiação da Igreja Católica, com esta última no final a levantar a taça.  O administrador aproveitou a ocasião para oferecer bolas e outro equipamento desportivo às equipas locais. Era o culminar do torneio de futebol.

Já noite adentro, a Administração Municipal ofereceu um jantar de confraternização às várias entidades da região, incluindo os partidos políticos MPLA, UNITA e FNLA, cujos representantes degustaram as comidas da terra, lado a lado, à mesma mesa.  "Queremos devolver a alegria e a unidade aos jovens e aos mais velhos”, disse a dado momento José Bunga Alberto, também ele desejoso de ver resolvida a questão do acesso à vila, que é, segundo salientou, "a única preocupação da população dos Mbuengas”.

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