Opinião

Um olhar romântico

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

As ondas fazem das suas tornando o mar caprichoso que, repetidas vezes, “tira a língua fora” como se fizesse caretas aos homens que a ele se aproximam: nesta época do ano chove e necessário é regar cada gesto e cada projecto para que, no futuro mais próximo, haja prosperidade.

19/04/2022  Última atualização 06H25
© Fotografia por: DR

Ninguém ignora que temos diante nós o desafio de ter que enfrentar uma nova ordem de valores civilizacionais, de ter que interpretar uma nova ordem geopolítica internacional, de ter que desenhar um novo horizonte de expectativas mais realistas, de ter que reinventar as atitudes existenciais, como indivíduos e como colectivo: para tal falta uma boa dose de ousadia, de sonho e de romantismo.

As nuvens se dispersam por trás das montanhas e o horizonte é uma linha de água azul-cobalto que sai de Oeste a Leste. Sucessivas vagas fazem piruetas num mar inquieto como se elas pressentissem que os homens procuram ter poder, sem saber que, afinal, é o que menos sabem utilizar: que engenho é esse que só traz desassossego e tensão? Que prerrogativas são estas que ele dá que, ao ser possuído por alguém, - indivíduo ou grupo de pessoas - passa a exigir ser idolatrado? Que sina é esta que deveria ser para servir e que, vezes sem conta, termina utilizando-o para se servirem?

 O mar tem águas claras e águas escuras: transparentes e legítimas serão as escolhas de cada um, opacas são as razões que obrigam a quem deveria fazer o contrário, depois, ser egoísta e abdicar dos compromissos. Sem saber disso, lá longe, as crianças desafiam a correnteza, o vem e o vai das ondas sem querer saber quais as consequências da instabilidade e do caos.


Dá gozo ser empurrado pelas águas e desfrutar com o balançar delas como se houvesse molas por cima da areia que pisamos e flutuar fizesse parte da vida. As redes dos pescadores, que passaram a noite entre o salgado das águas baloiçam como se o horizonte trouxesse as águas às margens: quem resgatará o espírito romântico e revolucionário que tivemos noutras épocas?

A luta e a vida continuam: indefesos e desarmados ficamos entregues à altura e as oscilações da maré, às reviravoltas de iluminados que elegemos ou aceitamos que nos governem, sem partilhar o poder connosco, sem valorizarem as pessoas e os sítios onde reside, de facto, a soberania real: quem aspirará a erradicar a fome e a pobreza como o mais alto corolário de paz? Quem obnubilará o desfile de vaidades insossas? De quem estamos à espera desta vez?

O verde da vegetação à beira-mar, no início dos mangues, ao lado de pântanos e lagoas enlameadas depois das chuvas; as vendedeiras de peixe, de marisco e de caracóis secos que passam com os filhos adormecidos às costas com os seus pequenos bonés à cabeça a proteger-lhes do sol ardente que, ora sim ora não, espreita entre o nublado céu; a brisa que faz mexer as folhas das árvores emulando o balanço das ondas do mar: são testemunhas do tempo que passa e da bonança que tarda em chegar às maiorias decisivas.

O cheiro à maresia vem a mim enquanto escrevo e o meu olhar sobrevoa a paisagem, as pessoas e as coisas à volta: vejo tudo mais claro, a sombra que se estremece com o pára-sol e o cidadão no baloiço entre as suas múltiplas vidas, - as que pode ter, as que deveria ter e as que simula ter-, fazem parte dos rituais de sobrevivência, que permite sobrelevar as agruras e os prazeres do quotidiano.

Portanto, fracassadas que as utopias do último terço do século passado estão, quando as ideologias se revelaram insuficientes e não nos servem para nada, resta-nos o sentido comum e o romantismo: talvez, eles permitirão construir uma nova narrativa que sirva de bússola, que dê sentido tanto aos sonhos que temos como aos actos que praticamos, que indique o caminho que queremos percorrer independentemente da fúria dos mares da vida.

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