Reportagem

Um dos trigémeos falece por falta de leite

Domingos Mucuta | Lubango

Jornalista

A noite de segunda-feira, 9 de Maio, foi marcada por dor, lágrimas e tristeza. O casal António Ndambuca “Sequesseque” e Justina Cassinda “Chinda”, residente na zona 5B, no bairro da Mapunda, arredor do Lubango, na Huíla, perdeu um dos trigémeos, cujo nascimento deu direito à reportagem nas páginas do Jornal de Angola, edição do último domingo.

15/05/2022  Última atualização 11H35
Pais e coordenador de zona lamentam a morte do bebé. © Fotografia por: Domingos Mucuta | Lubango

Os pais, que enfrentam situação de extrema dificuldade para sustentar oito filhos incluindo mais gémeos, anunciaram que o bebé morreu em casa por escassez de leite materno, pelo facto da mãe "não se alimentar direito”.

 "A nossa alegria durou pouco. Uma das crianças morreu na noite de segunda-feira porque a mãe não tinha leite para alimentar as crianças. O bebé ficou fraco, não aguentou e morreu. Enterramos muito cedo no dia seguinte”, lamenta, o pai com o rosto entristecido.

O pai, que se vê de mãos atadas para sustentar a esposa e os filhos, está preocupado com a vida dos sobreviventes, neste momento em que estão sob cuidados médicos no hospital pediátrico Pioneiro Zeca, onde internaram depois da intervenção do governo provincial da Huíla.

António Ndambuca "Sequesseque” afirma que graças a reportagem do Jornal de Angola a família recebeu visitas do Gabinete Provincial da Acção Social, Família e Igualdade de Género, na pessoa da directora Catarina Manuel e de médicos.

O pai explica que a vulnerabilidade da família despertou atenção de membros do governo da Huíla. Ao tomarem conhecimento do estado de palidez da mãe e de saúde das crianças, a directora da Acção Social, Família e Igualdade de Género aconselhou o encaminhamento dos recém-nascidos para o hospital.

"É triste porque um dos nossos trigémeos foi embora. A criança morreu mesmo por falta de leite. A mãe não tinha o que comer e não tinha leite no peito. A nossa situação é péssima. Preciso de ajuda”, reconhece o pai, que suplica por apoios de pessoas de boa fé.

Ele conta que o Governo disponibilizou o primeiro apoio. Referiu que a família recebeu uma assistência consubstanciada em um saco de arroz, um quilograma de fuba de milho, duas barras de sabão, três litros de óleo alimentar, roupa para os bebés e três latas de leite infantil.

"Agradecemos o apoio. Graças à reportagem do Jornal de Angola alguém ouviu o nosso grito. Não sei o que seria das crianças. Preciso da ajuda do governo e de pessoas de boa fé. Temos que agradecer ao jornal, porque senão todas as crianças acabariam por morrer”, afirma, confiante na salvação dos dois bebés.

 

Moradores comovidos

O coordenador da zona 5B confirma que as razões da morte do recém-nascido comoveram os moradores daquela área que acompanham o caso com muita preocupação. Aurélio Tchipikita disse que enquanto coordenador tudo fez e faz para que o caso seja tomado a peito pelas instâncias superiores, no sentido de mobilizar mais apoios. "A nossa zona foi abençoada com trigémeos. Mas infelizmente um acabou por falecer. O nosso poder enquanto coordenação de zona é limitado. Tomamos conhecimento da visita da Assistência Social. Escrevemos para a Administração do bairro. Sabemos que o governador já sabe. Acreditamos que dentro em breve esta família será apoiada”.

O coordenador da zona 5B, bairro da Mapunda, confirma que domina a situação extrema da família. "Conhecemos a realidade da família. A residência não é deles. Não há a mínima condição de habitabilidade. Nem colchão, nem cama, muito menos um fogão. É uma realidade crítica que precisa da intervenção de quem tiver coração de carne”, argumenta.

Aurélio Tchipikita disse que está preocupado com a situação e promete mobilizar mais apoios. "Não consigo dormir por causa desta família. Por falta de condições perdeu-se um bebé. É muito triste, uma vez que os três bebés nasceram numa unidade hospitalar. A maternidade podia em primeira instância acompanhar, uma vez que foram trigémeos. Deram alta sem seguimento”, argumenta.

O coordenador de zona disse que os moradores da zona, a maioria de baixa renda, tem feito o possível para ajudar, mas o apoio é insignificante para tirar a família da miséria. "Gostaria que houve uma intervenção para ajudar dentro dos princípios de amor ao próximo. No sentido de se sentirem aconchegados. Esta família precisa mesmo de ajuda. Não há condições de comprar leite. Lançamos este desafio à sociedade”, apelou.

 

Sobreviventes sob cuidados médicos

Os dois sobreviventes dos trigémeos, ainda sem nome nem registo de nascimento, internaram na pediatria do Lubango no dia 10 de Maio, onde recebem os cuidados médicos de especialistas da área de neonatologia. O hospital nomeou os bebés de "Justina 1” e "Justina 2” para facilitar a identificação nos registos médicos.

O director clínico da unidade hospitalar, Kelson do Carmo, refere que os dois entraram no banco de urgência com sinais de fraqueza para mamar e baixo peso, conjuntivite bacteriana e infecções ligeiras no corpo, adquiridas ou durante o parto ou por manipulação em casa.

Kelson do Carmo relata que o quadro clínico de "Justina 1”, embora melhor que no primeiro dia, inspira cuidado, o que tem obrigado ao recurso a oxigénio e alimentação por sonda, pois ainda não tem forças para sucção mamária.

Ao passo que "Justina 2”, segundo o médico pediatra, está estável, respira ar ambiente e tem saturação de 99 a 100 por cento. "Ele está fora de perigo pois apresenta uma boa sucção mamária (mama em perfeitas condições), choro forte e vigoroso, embora precise de cuidados ligeiros”.

O director clínico explica que todas as crianças vão continuar internadas para receberam o devido tratamento, acompanhadas pela mãe. "Depois de estarem bem vão receber alta. Geralmente, quando um recém-nascido consegue mamar não precisa de alimentação por soro de manutenção. Só quando não mama bem é que precisa de uma alimentação paralela” frisou, sublinhando que a mãe, que come no refeitório do hospital, já começa a produzir leite.

O pediatra diz que a produção de leite depende da alimentação, hidratação e estímulos constantes da amamentação dos filhos. "Normalmente, o leite materno é suficiente para os bebés. A mãe tem apenas que se alimentar bem para conseguir produzir o leite necessário para alimentar dois ou mais filhos. Deve hidratar-se melhor e continuar a insistir na amamentação. O organismo produz leite automaticamente”, explicou, garantindo que a instituição hospitalar está a prestar todos os cuidados necessários para salvar as crianças. "Neste momento conseguimos tirar uma do perigo. Acreditamos que vamos conseguir salvar todas as crianças. Tudo está a ser feito para que corra bem”.

 

Intervenção do Governo

A directora do gabinete provincial da Acção Social, Família e Igualdade de Género, Catarina Manuel, informou que tão logo o Governo tomou conhecimento da situação dos trigémeos, através da reportagem do Jornal de Angola, orientou uma equipa de técnicos para visitar a família, no sentido de constatar a condições reais e mobilizar apoios.

Catarina Manuel disse que o gabinete que dirige constatou um elevado índice de vulnerabilidade da família e saúde débil dos recém-nascidos. A medida imediata foi orientar a família para ir ao hospital de especialidade, onde, acentuou, "está a ser bem tratada”.

A outra intervenção consistiu em dar resposta ao problema de carência com a atribuição de alimentação, vestuário, material de higiene e leite infantil, enquanto o governo da Huíla articula um apoio mais substancial.

A directora provincial reforçou que o desafio é acompanhar a família e orientar o casal para aderir ao programa de planeamento familiar e que o caso do casal é do conhecimento do governador da provincial "que se comoveu com a situação”. 

Catarina Manuel promete que o gabinete que dirige vai seguir de perto todos os membros do agregado familiar e disponibilizar mais a portes para o empoderamento do casal, nomeadamente a oferta de cursos profissionais. 

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Reportagem