Reportagem

Um caso de sucesso no Uíge

A subdirectora pedagógica do Complexo Escolar do Ensino Especial do Uíge disse ao Jornal de Angola que, no presente ano lectivo, foram matriculados 1.225 alunos com necessidades educativas especiais, entre portadores de deficiência visual, auditiva, físico-motora, com síndrome de Down, autismo e outras. Os referidos alunos estão incluídos nas diferentes salas de aula da escola primária número 68.

13/11/2022  Última atualização 14H44
Formação académica de pessoas com necessidades educativas especiais. © Fotografia por: Eunice Suzana| Edições Novembro |Uíge
Domingas Samuel fez saber que o processo de ensino e aprendizagem de pessoas com necessidades especiais não tem sido fácil, mas reconheceu que se trata de uma actividade importante para a formação e socialização desta classe social. Disse que a instituição conta com o trabalho profissional e aturado de professores qualificados, dedicados e pacientes.

"Procuramos estar à altura de lidar com todo o tipo de deficiência. Para os casos de alunos portadores de deficiência auditiva, o complexo escolar possui professores formados em Língua Gestual Angolana (LGA), que asseguram as aulas no ensino primário”, frisou. 

Para os alunos portadores de deficiência visual, foi instalada uma sala para o ensino do braille. O processo de ensino para este grupo de alunos está dividido em três subníveis, sendo o primeiro à entrada, em que se permite que os alunos se adaptem aos gestos, aprendam como estar numa sala de aula e se familiarizem com todo o material que usarão durante a formação. No segundo subnível, os alunos aprendem o alfabeto e a formação de sílabas, enquanto no terceiro subnível, aprimoram as habilidades sobre toda a envolvência da escrita do código braille.

Domingas Samuel sublinhou que as crianças com deficiência visual não devem, de início, ser matriculadas na 1ª ou na 2ª classes sem que tenham o domínio do braille.  "As crianças portadoras de deficiência visual não vão logo à primeira ou à segunda classe. Passam primeiro pelo aprendizado do braille para aprenderem a ler e a escrever, só depois são incluídas numa sala de aula da 1ª ou da 2ª classes, dependendo da sua adaptação ao processo de aprendizado”, referiu.

A subdirectora pedagógica salientou que as pessoas com deficiência visual são inseridas no ensino especial a partir dos cinco anos de idade e colocadas na sala de ensino do código braille para aprenderem coisas básicas, como os pontos referenciais de um lugar para outro, e têm aulas de actividades diárias (AVD), para que, vivendo sozinhas numa casa, saibam fazer tarefas do dia-a-dia como cozinhar, cuidar da higiene corporal, lavar a roupa, engomar e prevenir-se de perigos.

Segundo Domingas Samuel, as pessoas com necessidades especiais dividem-se em três categorias distintas. Estes indivíduos são caracterizados através das necessidades intelectuais, sensoriais e físico-motoras. No grupo de pessoas com problemas sensoriais, informou, estão os portadores de deficiência visual e auditiva. Entre os com dificuldades físico-motoras encontram-se os paraplégicos e os tetraplégicos, enquanto que no grupo de pessoas com desequilíbrio intelectual constam os portadores de autismo, os que têm a síndrome de Dawn, retardamento do desenvolvimento psíquico e altas habilidades.

 

Autistas com fraca adaptação

Entre os alunos matriculados no Complexo Escolar do Ensino Especial e incluídos nas salas de aula da escola primária número 68, no dizer de Domingas Samuel, os que apresentam problemas de autismo são os que têm maior dificuldade em se adaptarem aos métodos de ensino e aprendizagem. "Temos notado uma rápida adaptação na maior parte dos alunos. Os autistas são os que têm maior dificuldade em socializar. Mas a escola tem feito um amplo trabalho específico para que essas crianças se sintam confortáveis diante das crianças sem deficiência”, disse, acrescentando que "muitas crianças com necessidades especiais preferem passar mais tempo na escola a conversar e a brincar com os colegas, praticando exercícios e a linguagem gestual, porque em casa algumas famílias não conseguem se comunicar com elas com recurso aos sinais e gestos. Estes alunos nem sempre se sentem bem e à vontade em suas casas”.

A subdirectora pedagógica revelou que foi criada uma sala de sistema educativo especializado, onde são colocados os alunos com dificuldades de adaptação. Neste espaço, depois do período normal de aulas, as crianças têm aulas adicionais com um técnico para reforçar os conteúdos dados pelos professores.

Aulas específicas

Às crianças com dificuldades de adaptação aos conteúdos e ao ambiente escolar, sobretudo as com problemas de autismo, foi criado um plano de aula específico em que professores especializados agregam conhecimentos, técnicas e aptidões aos conteúdos que absorvem nas salas de aulas inclusivas. "Temos seis técnicos especializados para este processo de ensino específico dos alunos com necessidades especiais, dentre eles dois psicopedagogos, igual número para atender crianças com problemas sensoriais, de desenvolvimento intelectual e físico-motores, um psicoterapeuta e um técnico de leitura e escrita do código braille”, disse Domingas Samuel.

Lembrou que o psicoterapeuta e o técnico de leitura e escrita em braille trabalham em conjunto, por meio de um plano educativo individualizado para cada aluno na sala onde também permanece o professor da sala de inclusão do ensino primário, para que este formule novas estratégias de ensino e trace diretrizes para ajudar as famílias a lidarem com a criança. Fez  saber que o plano de aulas específico e individualizado é também extensivo aos alunos portadores de deficiência visual que já se encontram nas 7ª e 8ª classes e que apresentam dificuldades de adaptação nas salas de aula durante o processo de ensino e aprendizagem. "Com esta metodologia, temos notado que os alunos começam a desenvolver a capacidade adaptativa, razão pela qual é possível encontrar muitos alunos portadores de deficiência visual entre outros alunos, causando curiosidade aos observadores sobre como se apresentam, dando a impressão que têm sido preparados por outras pessoas”, disse.

Para um melhor desempenho, os professores provenientes do ensino geral são submetidos a vários ciclos de formação com vista a uma melhor adaptação e a saberem como lidar com os alunos com necessidades especiais, embora já tenham recebido formação para o ensino especial de formadores provinciais e municipais, que dão formações contínuas. "Deixamos de ter dificuldades de realce. A única que tínhamos era a falta de infra-estrutura, mas o Governo Provincial, por intermédio do Gabinete Provincial da Educação, prevê a construção de uma escola específica para o ensino especial na província no próximo ano. Por enquanto, temos todas as condições necessárias para o nosso normal funcionamento aqui na instituição”, frisou.

"Sem registo de discriminação”

Domingas Samuel sublinhou que passados 13 anos desde a criação do Complexo Escolar para o Ensino Especial e o processo de inclusão escolar dos alunos com necessidades especiais na escola primária número 68, os relatos de casos de discriminação às pessoas portadoras de deficiência deixaram de ser ouvidos.

"No início do processo de inclusão escolar, notavam-se comportamentos discriminatórios contra as crianças com necessidade especial por parte dos alunos do ensino geral. Era uma nova realidade. Com a globalização e o passar do tempo, já não são registados estes casos na instituição. Passados 13 anos de funcionamento, a comunidade e as famílias venceram o tabu, a discriminação e a estigmatização, o que contribuiu para o aumento do número de alunos matriculados no ensino especial”, afirmou.

A subdirectora pedagógica aproveitou a oportunidade proporcionada pela reportagem do Jornal de Angola para lançar um apelo às famílias. "Apelamos às famílias que têm crianças com necessidades especiais em suas casas que as matriculem neste complexo escolar com vista a se garantir um futuro melhor para elas. Uma criança educada e instruída é um activo valioso para as famílias e para a sociedade. As nossas portas estão abertas para todos e as matrículas decorrem durante o ano todo. A sociedade tem a responsabilidade de continuar a banir a discriminação e dar todas as oportunidades possíveis às pessoas portadoras de deficiência, evitando as barreiras físicas, psicológicas e outras”.

O Complexo Escolar para o Ensino Especial funciona, há 13 anos, nas instalações da escola do ensino primário nº 68, na Rua do Comércio, na cidade do Uíge.

 

Exemplo de vida

Sebastião Pedro, 29 anos de idade, estuda a 8ª classe no complexo escolar para o ensino especial acoplado à escola primária número 68. É portador de deficiência visual há cerca de sete anos, quando teve uma complicação de conjuntivite na altura em que  frequentava a 5ª classe. 

"Tinha uma conjuntivite e sentia muitas dores nas vistas. Os olhos começaram a ficar inflamados, avermelhados e saía muita remela. Meus pais fizeram tudo que lhes era possível para o meu tratamento, mas, infelizmente, o médico oftalmologista chegou à conclusão que a situação era irreversível porque as lesões tinham danificado o meu sistema nervoso”, recordou.

Sebastião Pedro diz que hoje, além da limitação pela falta de visão, sente-se feliz por voltar a estudar. As aulas nesta instituição de ensino têm sido muito importantes para a sua superação e os professores, qualificados e treinados, têm habilidades, paciência e dedicação para ensinar os alunos com necessidades especiais.

"Estudei braille de 2016 a 2019. Graças a Deus em ano e meio aprendi, embora não tenha sido um processo fácil. Depois entrei para o ensino de inclusão, começando na 6ª classe por causa da idade e porque eu já estudava antes. Com a perda da visão tudo se complicou na minha vida, mas com a escola de ensino especial pude voltar a estudar”, disse.

A adaptação, segundo Sebastião Pedro, não é fácil. Pode durar meses ou anos, dependendo da habilidade de cada aluno. "A formação é a base de tudo. Não importam as características físicas da pessoa. Todo mundo é livre para fazer ou realizar o sonho de um dia ter um futuro brilhante. Então, não tenham medo ou receio de serem discriminados, no ensino especial não existe discriminação, mas sim atenção, amor e muito mais. Em regra, a discriminação acontece nas nossas casas e em alguns sectores da sociedade. Não na escola. Espero que venham ver a realidade e se enquadrem connosco”, concluiu.

Lussilavova Lopes | Uíge

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