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Uíge: Histórias de crianças expostas ao trabalho

O número de crianças expostas ao trabalho infantil, na cidade do Uíge, cresceu nos últimos dois anos, por causa das dificuldades económicas que algumas famílias vivem. Existem inúmeros menores que são obrigados pelos próprios familiares, sob ameaça de agressão, a pedir dinheiro e alimentos na rua

04/09/2022  Última atualização 08H23
© Fotografia por: DR

Os petizes, com idades entre 5 e 16 anos, geralmente ficam junto de estabelecimentos comerciais, onde pedem alimentos ou dinheiro para poderem comprar bens de primeira necessidade e materiais escolares. 

Pedro, um rapaz de 10 anos, é órfão de pai e mãe e vive actualmente com uma avó no bairro Kakiuia. Disse ao Jornal de Angola que não estuda porque a avó, que tem problemas de visão, não dispõe de condições para comprar o material escolar, roupa e calçados.Acrescentou que aplicou parte do dinheiro da esmola na compra de um pacote de máscara que agora vende unidade a unidade defronte ao supermercado Shoprite. 

"Se eu não vier aqui pedir esmolas então vou passar fome todo o dia. Os meus pais me mandam vender comidas do campo e quando não aceito eles me batem. Prefiro fugir e pedir esmola a ficar em casa a me baterem. Aqui na rua me dão dinheiro e comida”, disse um outro adolescente, de 14 anos de idade.

Francisco, cujo sobrenome foi propositadamente suprimido, adiantou haver dias em que vai para casa com 3 mil ou 4 mil kwanzas, suficientes, no seu entender, para resolver algumas das suas preocupações, uma rotina que faz há um ano por influência de outros rapazes, com os quais cruzou nas imediações do estabelecimento comercial acima mencionado.  

Afonso José é um miúdo de 12 anos, nascido em Mbanza Kongo, a sede capital da vizinha província do Zaire. Veio viver no Uíge trazido pela mãe, conjuntamente com dois irmãos. "Eles estudam mas eu desisti no ano passado, quando estudava a 3ª classe na escola do Paco. A minha mãe vende tomate na praça da feira”, contou.

O pequeno, assumindo o que faz, reiterou que "a minha mãe vende mas eu gosto de passar o dia na rua para pedir comida e dinheiro para comprar as minhas coisas”.

Betinho tem 16 anos e vive com a madrasta no bairro Kixicongo. Ele é órfão de pai. Revelou que a madrasta em certos dias não lhe deixa entrar em casa, o que o leva a passar a noite na casa de banho que fica no quintal, onde também guarda as suas coisas. Betinho, cujo nome próprio é Alberto, abandonou a escola em 2016 quando frequentava a 5ª classe, passando desde então a maior parte do seu tempo na rua "para conseguir alguma coisa de comer e vestir”. A mãe biológica de Betinho vive no município do Bungo. "A minha mãe não sabe da situação que tenho passado e talvez não saiba também que o meu pai já morreu. Tem pessoas que podem me ajudar a contactar a minha mãe para vir me buscar, mas não o fazem. E não tenho como chegar até ela”, disse o menino.

Joana, menina de 13 anos, vende roupa, que recebe de pessoas adultas, na zunga (venda ambulante). No final do dia pagam-lhe algum dinheiro. Essa rotina faz geralmente no período de férias, porque estuda a 5ª classe. Joaninha, nome por que é tratada no seio familiar, vive com os pais, mas aproveita as férias para vender e conseguir dinheiro para comprar as suas próprias coisas.

 

Reacção do INAC

Confrontado com a situação, o chefe em exercício do serviço provincial do Instituto Nacional da Criança (INAC), José Domingos, disse existir um plano de combate contra a exposição e o trabalho infantil, que é levado a cabo conjuntamente com as administrações municipais, a Polícia Nacional e outros sectores. Adiantou ainda que tem sido feita sensibilização nos mercados informais e nos bairros, com foco nas consequências da violação dos direitos das crianças.

"O INAC tem o conhecimento da situação que muitas crianças têm passado, sendo um fenómeno verificado diariamente na sociedade uígense, com o número de miúdos expostos ao trabalho forçado a aumentar consideravelmente”, salientou o responsável, que acrescentou: "A maioria das crianças envolvidas em trabalho infantil são as que vivem com padrastos, madrastas, ou ainda com avôs e pais em condições de pobreza”.

José Domingos disse ainda existirem casos de fuga à paternidade e de acusações a menores por suposta prática de feitiçaria, com o acusado a ser expulso de casa. Muitas crianças nestas condições são filhos de pais que não trabalham e não conseguem trazer qualquer coisa para casa, pelo que os filhos menores são obrigados "a certos trabalhos” para ajudarem no sustento das suas famílias, afirmou José Domingos, socorrendo-se de alegações de alguns desses menores.


Wiliana Cadia, Albertina Miezi  e Lussilavova Lopes | Uíge

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