Cultura

Tshiamalenga Ntumba e a reformulação analítica

Luís Kandjimbo |*

Escritor

Há um ano, calou-se uma das vozes mais representativas da Escola Filosófica da África Central, na sua âncora congolesa. Trata-se de Ignace Marcel Tshiamalenga Ntumba (1932-2020).

30/05/2021  Última atualização 11H08
© Fotografia por: DR
As minhas primeiras referências sobre o filósofo e o teólogo de Mbuji-Mayi, datam da década de 80 do século passado. Nessa época, frequentando as diferentes bibliotecas públicas e centros de documentação que havia em Luanda, eu acumulava fotocópias e fichas de leitura sobre a produção literária, científica e filosófica do nosso continente. Andava a ler artigos de autores africanos publicados na revista francesa "Recherche, Pédagogie et Culture” [Pesquisa, Pedagogia e Cultura]. Foi aí onde o seu nome suscitou a minha curiosidade.

A primeira informação mais importante a respeito do pensamento de Tshiamalenga Ntumba ocorreu em 1985, quando trabalhava na biblioteca do Centro de Documentação e Investigação Histórica. Li a sua comunicação apresentada no painel "Filosofia e Religiões” do Colóquio Internacional sobre "Povos Bantu. Migrações, Expansão e Identidade Cultural”, organizado pelo Centro Internacional de Civilizações Bantu em Libreville, Gabão. Com essa intervenção, Tshiamalenga Ntumba desenvolvia ideias já formuladas na sua tese de doutoramento, "Pensamento e Linguagem. Uma Contribuição sobre o Princípio do Relativismo Linguístico”, defendida em 1980, na Universidade J.W. Goethe, Frankfurt. Começava a desenhar-se a sua filosofia do "bisoïté”, elaborada a partir do conceito "biso” (nós), em lingala. Nesse sentido, estabelece um diálogo com uma das fortes correntes de pensamento que emerge na Escola Filosófica da África Ocidental, em que se destacam a nigeriana Sophie Olwole e seu compatriota Theophilus Okere, e os ganenses Kwame Gyekye e Kwasi Wiredu. Mas na África Central, o momento inaugural desse método de filosofar em línguas africanas ocorre em 1910, com a publicação do livro "Psychologie Bantu” de Stefano Kaoze (1886-1951), membro do clero nativo da actual República Democrática do Congo.

Quem foi Tshiamalenga Ntumba?

Era titular de dois doutoramentos, um em Teologia e outro em Filosofia. O seu percurso assemelha-se ao de tantos outros teólogos da Escola Filosófica da África Central, tais como Alexis Kagamé (ruandês), Vincent Mulago (democrata-congolês), Fabien Eboussi-Boulaga e Meinrad Hegba (camaroneses). Nasceu em 1932 na cidade de Mbuji-Mayi, membro de uma família de doze irmãos, oito meninos e quatro meninas. Frequentou os seminários menor e maior de Kananga de 1946 a 1958. Foi  ordenado padre em 1960, tendo obtido com distinção a licenciatura em Teologia pela Universidade Lovanium de Kinshasa, dois anos depois. Obteve o doutoramento em Teologia pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, em 1963, com uma dissertação que revelava já as suas preocupações metodológicas. Por isso, aprofunda a sua abordagem e em 1965 obtém a licenciatura em Filosofia.

Após o regresso à sua região natal, o Kasai Oriental, no seminário maior de Kabue, dedicou-se à docência de disciplinas como filosofia e teologia,  até 1968. Paralelamente, preparava a sua tese de doutoramento em Filosofia cuja defesa ocorreu em 1980. De Kabue foi transferido para a Universidade de Kinshasa, tendo assumido, a partir de 1971, a docência da disciplina de filosofia e a chefia do Departamento de Filosofia das Faculdades Católicas, cargo que ocupa até 1986. Na Alemanha, foi sucessivamente professor visitante na Universidade de Witten/Herdecke (1987-1990), na Universidade em Oldenburg (1992-1993) e na Academia Católica de Stafelfels. De 1973 a 1993, integrou o Comité Director da Federação Internacional de Sociedades Filosóficas.


Tshiamalenga Ntumba marca a sua posição no campo dos debates filosóficos em Kinshasa, ainda na década de 60 do século XX. O acontecimento teve lugar quando se opôs às teses de Franz Crahay, apresentadas numa conferência proferida em Março de 1965 com o seguinte tema: "Descolagem Conceitual: Condições de uma Filosofia Bantu”. O intelectual belga, que representava a corrente crítica contra a etnofilosofia, põe em causa a existência de uma filosofia africana, operando com a hipótese fundada no facto de ser uma fantasia.


Numa demonstração inequívoca da sua condição de oponente, Tshiamalenga Ntumba parte do pressuposto segundo o qual a existência de uma filosofia tradicional africana é concomitante à filosofia africana contemporânea. Para tal recorre à Filosofia Comparada. Entende que se os pensamentos pré-socráticos podem ter estatuto filosófico, conclui-se que a mesma categorização deve ser atribuída aos textos das chamadas "filosofias negro-africanas”. Por essa razão, a "filosofia tradicional africana”  pode ser constituida por uma colecção de frases declarativas da tradição oral, tais  como máximas cosmogónicas ou religiosas, mitos morais, provérbios didácticos, através dos quais se transmite uma percepção do homem, da sociedade, da terra e do céu.

O percurso académico de Tshiamalenga Ntumba no domínio da filosofia confunde-se com a história do ensino da disciplina na República Democrática do Congo. É que  em 1971, quando se forma a Universidade Nacional do Zaire, procedia-se à fusão dos três principais pólos universtários que existiam na época, nomeadamente, Kisangani, Lovanium (Kinshasa) e Lubumbashi. Por força das circunstâncias, a Faculdade de Filosofia e Letras que se encontrava situada em Kinshasa viria a ser transferida para Lubumbashi. Ao mesmo tempo, eram extintos os cursos de filosofia. Apesar disso seguiu-se depois a organização de um núcleo de filosofia no Campus de Kinshasa. Entretanto, desenvolveu-se um trabalho de que resultaria a formação de um departamento de filosofia na Faculdade de Teologia. Em 1974, definitivamente, por decisão política do Bureau Político do Movimento Popular da Revolução, partido único governante, as faculdades de teologia da Universidade Nacional do Zaire foram todas elas extintas. Mas a vitalidade intelectual desses centros universitários atraem muitos professores estrangeiros, entre os quais filósofos africanos, tais como Paulin Hountondji e Issiaka-Prosper Lalèyê.

Revistas especializadas
Como consequência da reconfiguração institucional universitária, a Conferência Episcopal do então Zaire toma a inciativa de autonomizar a Faculdade de Teologia Católica de Kinshasa. Assim, surgem duas faculdades, Faculdade de Teologia e a Faculdade de Filosofia. Com elas emerge o Departamento de Filosofia e Religiões Africanas que, em 1981, patrocina a constituição da Sociedade Filosófica de Kinshasa.

Nessa altura aumentavam em África as publicações especializadas na área da filosofia. "Cahiers philosophiques de Lubumbashi”, órgão do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade Nacional do Zaire, sai em 1972. O filósofo beninense Paulin Hountondji, então professor de filosofia em Lubumbashi, foi o seu primeiro secretário editorial. Havia ainda o "The Journal of Philosophical Association” [Jornal da Associação de Filosofia], em Nairobi, editado por Henry Odera Oruka. Em Dakar, surgia a "Revue de Philosophie Senegalaise” [Revista  de Filosofia Senegalesa] do Departamento de Filosofia da Universidade Cheikh Anta Diop, fundada em 1982. A Universidade de Bangui publica, em 1983, "Cahiers de Philosophie” [Cadernos de Filosofia]. Por sua vez, a "Revue Philosophique de Kinshasa” [Revista Filosófica de Kinshasa] começou a ser publicada igualmente em 1983. O seu primeiro director é o professor Tshiamalenga Ntumba. No editorial do primeiro número, considerava que a revista vinha preencher uma lacuna no domínio das reflexões filosóficas em línguas africanas. Para o então Chefe do Departamento de Filosofia e Religiões Africanas, fazia falta uma revista especializada que pudesse assgurar uma colaboração com filósofos de outros continentes.

Filosofar em línguas africanas
Na comunicação apresentada no painel "Filosofia e Religiões” do Colóquio Internacional organizado pelo Centro Internacional de Civilizações Bantu, Tshiamalenga Ntumba sintetiza o seu pensamento numa argumentação que se desenvolve em torno das seguintes teses:
1) Uma filosofia autenticamente africana não pode ser produzida senão a partir das línguas e problematizações africanas em diálogo com outras problematizações que há pelo mundo.

2) Semelhante filosofia é possível se se prestar atenção aos indicadores matriciais dos sistemas sintáctico-semântico-pragmáticos e outras formas de elaboração filosófica das línguas africanas.
Tshiamalenga Ntumba adverte os seus leitores e oponentes. Para o efeito, numa perspectiva dialéctica desdobra as suas teses. Considera que não é suficiente filosofar em línguas africanas ou partir de línguas africanas. É necessário filosofar com fidelidade à mensagem africana autêntica sem obediência às teses europeocêntricas ou qualquer outro paradigma filosófico ocidental.


A sua argumentação é suportada por exemplos, recorrendo à análise do que designa por indicações matriciais contidas nos sistemas sintácico-semântico-pragmáticos. Para Tshiamalenga Ntumba esta análise vai conduzir à reformulação do princípio do relativismo linguístico ou da relação entre a língua e o pensamento. O filósofo democrata-congolês identifica a principal fraqueza do relativismo linguístico no facto de assentar na tese da disparidade e da inseparabilidade da linguagem  e do pensamento. Neste sentido, afirmar que o relativismo exprime a dependência que se estabelece entre o pensamento e a linguagem, suscita objecções da parte de Tshiamalenga Ntumba. Ele defende que "o pensamento é analiticamente idêntico à linguagem”. Donde se revela necessário reformular o argumento que sustenta aquela tese nos seguintes termos: "Se as elaborações filosóficas são actos de fala, e se os actos de fala são regidos, entre outros, por sistemas sintáctico-semântico-pragmáticos naturais, e se estes sistemas sintáctico-semântico-pragmáticos naturais variam de uma comunidade cultural para outra, então as elaborações filosóficas variam de uma comunidade cultural para outra”.
Portanto, a avaliação dos indicadores matriciais e a análise dos sistemas sintáctico-semântico-pragmáticos permitiram que Tshiamalenga Ntumba tivesse, por exemplo, chegado à conclusão de que nas línguas bantu da República Democrática do Congo regista-se o primado da "bisoïté”, que deriva da unidade lexemática "biso” do lingala, sobre a inter-subjectividade. A "bisoïté”, (bisoidade) é a socialidade humana que se sobrepõe à "guerra de todos contra todos”. Tem primazia o "nós”, "tetu” e "biso”, sobre o "eu-tu”, "meme-wewe” ou "ngai-yo”, isto é, a inter-subjectividade.
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             * Ensaísta e professor universitário

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