Cultura

Trincheira das Artes em Angola

Há 47 anos participei no arranque do Barracão- Escola de Artes, a convite da malograda Teresa Gama, assessora para as Artes Plásticas do Conselho Nacional da Cultura, uma pessoa altamente dinâmica e de grande carisma, moldada na guerrilha do MPLA.

23/11/2022  Última atualização 08H09
© Fotografia por: DR
O Barracão foi um projecto do poeta António Jacinto destinado a acolher e dar meios de Educação pela Arte a órfãos de guerra e também para reabilitar algumas instalações criadas em 1972-73 já em finais do período colonial, com vista a proporcionar meios de trabalho a artistas da época e situava-se nas barrocas da Cidade Alta atrás da actual Universidade Lusíada.

Com o apoio dos transportes do Conselho de Cultura, todos os dias chegavam aos nossos ateliers de Desenho, Pintura e Gravura e mais tarde Tapeçaria, Fotografia e Cinema, grupos de miúdos entre os 6 e 14 anos com vista a darem os primeiros passos naquelas artes, fazendo-os esquecer dos traumas e das visões que traziam dos conflitos armados. Mais tarde, o Barracão abriu-se à comunidade luandense com a entrada de crianças de vários estratos sociais para se conseguir uma melhor inserção dos pioneiros na sociedade.

Desta escola de artes, para além do Projecto Pedagógico, saíram intervenções decisivas para a dinamização das Artes Visuais angolanas, ajudando a definir o que ela é hoje, através do levantamento na época da situação das Artes e do Artesanato nas províncias, depois dos conflitos após a descolonização e  a criação de Brigadas de Pintura Mural para a criação de obras de intervenção política e enaltecimento da nação. É assim que com a colaboração dos  pioneiros surgem os murais no Prenda, na fachada lateral do Ministério da Agricultura (30 m de altura frente à TPA), em laterais de algumas ruas e prédios e em volta do Hospital Militar de Luanda (que ainda hoje perdura).

No entanto, apesar da actividade intensa prosseguida depois com a monitoragem da Cecília Amaral Martins por ter-me ausentado para prosseguimento de estudos, foram aparecendo mudanças nas políticas culturais que levaram à extinção do Barracão e sua reconversão na Escola de Artes do Ministério da Cultura, embrião durante duas décadas com direcção do artista plástico Van da que é hoje a CEARTE no Camama.

 

Rui Garção*
*Artista visual, docente, realizador de TV e membro da APROCIMA

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