Sociedade

Transformação de sucatas assegura sustento de centenas de famílias

André da Costa

Jornalista

O barulho das máquinas é ensurdecer e um grupo de uma centena de trabalhadores, na sua maioria, jovens, entre os quais 30 mulheres, está em constante movimento.

07/08/2022  Última atualização 05H00
Responsáveis da Fabrimetal asseguram que têm denunciado à Polícia quando recebem qualquer tipo de material proibido © Fotografia por: Ándre da Costa | Edições Novembro

Entre esses operários está Leandro Lendula, de 33 anos. O jovem, trajado a rigor para o trabalho, com farda verde, botas pretas e máscara, trabalha há seis meses na Fabimetal como operador de máquinas.

A missão de Leandro é descarregar a sucata levado por camiões à fábrica. Ele, também, tem nas mãos uma máquina de corte, que usa para desfazer  o ferro-velho.

No interior da Fabimetal, há zonas que se parecem lixeiras, com muito ferro-velho e outro tipo de lixo à mistura. Mas, esses resíduos é a matéria-prima usada para fabricar uma série de materiais de construção civil.

Esse trabalho é feito desde às primeiras horas da manhã, sob controlo computarizado. E, apesar do sacrifício, Leandro é apaixonado pela actividade, onde tem um salário acima de 60 mil kwanzas, com o qual sustenta a esposa e três filhos.

Tal como Leandro, a jovem Maria Francisco, 36 anos, é, igualmente, um exemplo de dedicação ao trabalho. Fruto da sua dedicação, ocupa o cargo de directora de Higiene e Segurança no Trabalho e Ambiente.

Há quatro anos na empresa, a senhora começou como estagiária e três meses depois admitida como efectiva. Maria Francisco, que fez formação superior, tem estado a desenvolver estratégias para a redução dos acidentes de trabalho.

Apesar disso e da obrigação do cumprimento das normas de segurança, a empresa regista, em média mensal, três acidentes de trabalho. São todos de índole leve, mas, Maria Francisco quer acabar com esses casos.

Outra jovem mulher, que ao lado de centenas de homens, dá o melhor de si no trabalho de transformação de sucatas em materiais úteis é a engenheira Rita Vemba, de 35 anos, actual coordenadora de produção.

 
Material proibido é apreendido

À porta de entrada principal da Fabimetal, dezenas de camiões estão carregados de lixo ferroso, com destaque de metades de chapas antigas, pontas de ferros, carcaças, entre outros objectos, a aguardar autorização para aceder ao interior da fábrica e descarregar o material.

Localizada na Zona Económica Especial, município de Viana, a Fabimetal é uma indústria siderúrgica vocacionada na fundição de material ferroso para a obtenção de varões e cantoneiras, usados na construção civil.

Ali é descarregado todo o lixo das sucatas de ferro, para serem transformados em aço, ou seja, varões de ferros com várias medidas, cantoneiras e tubos de ferros.

Alguns camiões são provenientes de outras províncias e descarregam sucatas, principal instrumento para a fabricação dos varões, usados nas obras de construção civil, cujas qualidades são testadas em sede de três laboratórios.

O lixo vai, directamente, para um local apropriado, onde é feita a separação, desde o material precioso e os proibidos.

É nessa fase em que a fábrica detecta que alguns fornecedores tentam vender material proibido, alguns dos quais, retirados dos caminhos-de-ferro de Luanda, como denuncia o director de segurança operações da Fabimetal.

Nuno Pereira realça que alguns desses indivíduos que praticaram tais actos de tentativa de material vandalizado da linha férrea foram detidos pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC).

Em fase de descarga do material, quando se notam haver objectos proibidos, são comunicados os investigadores do SIC de Viana, que comparecem no local e detêm os acusados.


Casos ilegais mais recentes

Nuno Pereira disse que, no dia 22 de Julho, foi detido um fornecedor com um camião, onde continha material proibido, retirado dos caminhos-de-ferro de Luanda.

O director de Segurança e Operações da Fabimetal afirma que há um outro caso de material retirado do caminho-de-ferro, como barras e linhas, em que os fornecedores chegaram à Fabimetal, mas os acusados estão detidos pelo SIC.

No ano passado, houve quatro ocorrências, também, encaminhadas para o SIC, em Viana. Para evitar isso, a fábrica costuma a sensibilizar os fornecedores para levar apenas material permitido.

Apesar disso, muitos não cumprem. Por causa dessas anomalias, no ano passado, diz Nuno Pereira, a empresa suspendeu o contrato com um dos fornecedores, que chegou a fazer dois fornecimentos de material furtado, tendo essa matéria-prima sido negada e congelada.

"Esse procedimento de congelamento é para evitar que o fornecedor possa ir vender esse material em outras quatro siderurgias existentes e vocacionadas à transformação de sucatas em ferro”, explica o responsável da área de Segurança e Operações da fábrica.


Fábrica tem capacidade para produzir 15 mil toneladas por mês

Na fábrica, as sucatas, depois de certificadas, são encaminhadas para uma zona onde são trituradas por uma máquina de grande porte, onde são detectados os materiais proibidos. O material segregado e seleccionado vai para a fundição.

As matérias-primas são ferros, desde carcaças, ou seja, tudo que leva aço. As proibidas são cabos eléctricos, postes de electricidade de alta tensão e normais.

"Os postos eléctricos só os fornecidos pela ENDE, mediante uma declaração autorizada e em estado de degradação”, conta para avançar que os mais de 100 fornecedores estão registados numa base de dados.

O lixo é transformado em aço por 800 trabalhadores, dos quais, 100 estrangeiros de várias nacionalidades, com destaque para portuguesa, chinesa, sul-africana, indiana.

A transformação de material ferroso em varões para a construção civil e cantoneiras leva menos tempo, mas obedece a todo um processo de preparação.

"Nenhum cidadão vende isoladamente o material. Trabalhamos com 190 fornecedores e recebemos perto de 60 a 70 camiões, perfazendo 600 toneladas de material ferroso por dia”, explica.

Bruno Marques, director de produção, avança que a capacidade instalada da fábrica é de 15 mil toneladas por mês. Há novos projectos e a intenção é aumentar a produção e contratar mais trabalhadores.

Cumprimento de normas

Para colmatar o barulho ensurdecedor das máquinas pesadas, os operários usam equipamentos de protecção e são submetidos a exames anuais de audição, visão e pulmonar, aliado ao seguro contra acidentes de trabalho e doenças profissionais.

Na empresa, tem ocorrido alguns acidentes de trabalho, sendo a maioria causada por negligência. Para acudir esses casos, a unidade fabril tem posto médico, que funciona durante 24 horas.

Sobre o produto final, a fábrica tem três laboratórios de certificação de produtos estruturais, de química e de mecânica, liderados pelo jovem João Miguel Kitoco, 36 anos.

"Temos cumprido com as regras e normais internacionais, onde, diariamente, são feitas entre cinco a 100 amostras de diversas qualidades na produção do ferro. Por isso, o nosso produto tem a mesma qualidade dos fabricados em outras províncias do país”, realça.

É este material, que atinge 15 mil toneladas por mês, que serve muitas obras de construção do país e, para exportação, a fábrica dedica perto de cinco mil toneladas. Senegal, Congo, Namíbia e Gana são os países para os quais a fábrica exporta o ferro, estando, nesse momento, a serem projectados mercados na Europa, com porta de entrada em Portugal.

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