Reportagem

Trajectória de um alfabetizador por amor à camisola

Domingos Mucuta | Lubango

Jornalista

Frederico Henriques recebeu das mãos do director municipal do Lubango da Educação o diploma de mérito pelos 20 anos dedicados a ensinar a ler e escrever

11/09/2022  Última atualização 06H50
© Fotografia por: Arimateia Baptista

O sorriso tímido no rosto do alfabetizador Frederico Henriques Mica revela um extremo do estado de espírito marcado por dois sentimentos. 

Vale a alegria que brota no rosto do mais velho orgulhoso por ter ensinado muita gente a aprender a ler, a escrever e a contar. 

O ex-militar e técnico de enfermagem pulou de alegria quando foi chamado para receber o diploma de mérito, no acto provincial do 8 de Setembro, Dia Mundial da Alfabetização.

O Senhor Mica, como é conhecido no Bairro "A Luta Continua”, Vulgo Sofrio, arredores do Lubango, recebeu o diploma de mérito das mãos do director municipal da Educação, António Correia, pela dedicação à erradicação do analfabetismo na Huíla. 

A homenagem entusiasmou Frederico Mica pelos 20 anos dedicados a abrir mentes de crianças, jovens e adultos na luta para conhecimento do alfabeto, formação de palavras e sua leitura.

Neste dia, Mica fez duas retrospectivas emocionantes de uma carreira de empenho. Ao balancear o impacto da sua trajectória na vida de outras pessoas, alegrou-se porque perdeu contas do número de cidadãos alfabetizados.

Mas, o sorriso desapareceu quando fez um balanço sobre o impacto do seu trabalho na vida pessoal. O enfermeiro desempregado descreveu que a recompensa do tempo de dedicação "não mudou a sua condição social”. 

"Este ano, completo 20 anos como alfabetizador contratado. Pagavam-me 10 mil kwanzas de subsídios por mês. Mas, desde 2019, que não recebemos nada. Não sabemos porquê?”, lamentou aquele pai de 11 filhos. 

Frederico Henriques Mica é um dos muitos alfabetizadores que, actualmente, passaram à condição voluntária, depois da uma directiva da ministra da Educação que suspende os contratos. Considera-se alfabetizador circunstancial pelo facto de abraçar a profissão por "não ingressar no sector da saúde”. 

O enfermeiro, cujo rosto e vestimenta revela amargura,   explicou que abraçou a carreira de alfabetizador depois de participar de um curso de capacitação de adultos. "Agradeço a Direcção da Educação que hoje me brinda com certificado de mérito. Obrigado pelo reconhecimento”,  regozijou-se.

Frederico Mica congratulou-se por ter sido partícipe na alfabetização de 100 mil pessoas, das 170.203 matrículas desde a institucionalização, em 2019, do Plano de Educação de Jovens e Adultos, de acordo com dados revelados pela directora do Gabinete provincial da Educação, Paula Joaquim.

 

Crise afecta subsídios

A suspensão dos contratos e pagamentos de subsídios aos alfabetizadores consta de uma directiva do Ministério da Educação, nº 2139, de 7 de Abril de 2020. No ofício enviado aos governadores provinciais, a ministra Luísa Grilo orienta a suspensão da celebração de contratos com alfabetizações, até que a situação da dívida seja regularizada.

O documento apontava para a crise económica e financeira como obstáculo no pagamento dos subsídios dos alfabetizadores.

Na directiva, a ministra definiu como estratégia para se o ultrapassar o quadro o levantamento e cadastro dos alfabetizadores com subsídios em atraso, apurando o número e o valor global.

Defendeu a mobilização de alfabetizadores voluntários por municípios, devendo a relação nominal ser encaminhada ao Ministério da Educação para o devido acompanhamento e aprovisionamento logístico.

O despacho orienta a mobilização da sociedade civil, com realce para empresas, igrejas, Forças Armadas, Polícia Nacional e estudantes, para, de forma voluntária, participar como alfabetizadores.

Está, igualmente, prevista a constituição das comissões provinciais e municipais de alfabetização e dos respectivos grupos técnicos, em cumprimento o que orienta o Despacho Presidencial nº 174/19, de 9 de Outubro, sobre a elaboração dos planos operativos locais com vista à intensificação da alfabetização de jovens e adultos.

Regularização dos subsídios

Verónica Chitima, alfabetizador há 15 anos, na escola Nossa Senhora de Fátima número 200, ano bairro da Lalula, recebeu, este ano, pela primeira vez, um subsídio de 90 mil Kwanzas.

Apesar da falta de remuneração, a alfabetizadora encontrava motivação nos filhos para continuar a ensinar jovens e adultos. 

"Nunca tinha recebido nada. Mas este ano recebi este valor. Continuamos a trabalhar porque quando estou diante dos alunos penso também nos meus filhos”, afirmou a alfabetizadora, que já perdeu a conta de quantas pessoas passaram por si.

Verónica Chitima apelou ao pagamento dos subsídios de 2020 e 2021 e à regularização dos próximos, para motivar os alfabetizadores na missão de levar as pessoas a aprenderem a ler e escrever. 

O alfabetizador Leonardo Pinto, há 18 anos no Centro Assembleia de Deus, lamentou também a falta de subsídios. O pai de 10 filhos considerou impossível sobreviver com o subsídio de 10 mil Kwanzas pago com muitos de meses de atraso. 

Leonardo Pinto apelou à revisão da política de remuneração dos alfabetizadores, por serem os protagonistas no desafio de erradicar o analfabetismo no seio dos cidadãos. 

Especialista fala dos desafios da alfabetização

Um dos principais desafios da alfabetização é promover a transformação social. Isso vai além de aprender a ler e escrever, considerou o especialista Ventura Augusto, quando proferia  uma palestra no acto provincial alusivo ao Dia Mundial da Alfabetização, assinalado dia 8 deste mês.

O especialista em Alfabetização apelou a uma análise e adequação profunda do lema deste ano, "Transformar os espaços de aprendizagem da alfabetização”, para o contexto actual. 

"Entre vários desafios que se impõem passam pela profissionalização. Porque de nada adianta levar a aprendizagem do ABC sem o ensino de competências e habilidades transformadoras”, argumentou. 

O especialista disse que os actores do processo devem pensar em soluções que proporcionem espaços para a aprendizagem da escrita, da leitura e de habilidades. 

"Não basta que as pessoas aprendam a ler e escrever. É preciso criar espaços para a profissionalização. Se todos os centros tiverem cursos profissionalizantes, poderemos marcar passos seguros para que a alfabetização produza resultados impactantes”, considerou.

Ventura Augusto disse acreditar na possibilidade de  criação de centros integrados de alfabetização e formação profissional, bastando que "haja vontade política”.  "A integração é possível, desde que haja conjugação de esforços e o envolvimento de outros parceiros neste desafio”, afirmou.

O palestrante afirmou que o jovem ou adulto com atraso escolar precisa de formação profissional para facilitar a sua integração no mercado. "Uma pessoa com formação profissional, mesmo que não saiba ler, mesmo que esteja empregado, pode encontrar caminhos para criar soluções para a sua sobrevivência. Porque o ler e escrever não é sinónimo de nada”, esclareceu. 

A vice-governadora da Huíla para o Sector Político, Social e Económico, Maria João Chipalavela, alinhou no mesmo diapasão, ao afirmar que a "alfabetização não é um simples processo de ensinar e aprender”.

Maria João Chipalavela concorda com a ideia de transformar os centros de alfabetização em espaços de transferência de habilidades e competências essenciais para uma vida de iniciativa e de autonomia.


Data foi instituída pela ONU

Todos os anos, a 8 de Setembro, assinala-se o Dia Mundial da Alfabetização. A data foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 1966.

Essa celebração foi instituída com o objectivo de que assuntos e questões ligados à alfabetização fossem discutidos no mundo todo, promovendo o amplo debate sobre a importância da alfabetização, principalmente em países que ainda possuem índice de analfabetismo considerável.

A alfabetização de crianças e adultos pode mudar de maneira significativa o rumo de um país, uma vez que, quanto maior o acesso do indivíduo a tudo o que a leitura oferece, seja por via cultural, lazer ou até mesmo pela própria educação, maiores são as chances de conquistar melhores oportunidades no mercado de trabalho e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida e acesso a novos caminhos.

Assim sendo, esta data tem uma relevância muito grande, já que não só conscientiza sobre a importância de saber ler e escrever, como também discute e propõe alternativas possíveis para que a alfabetização seja acessível a todos.

Nas últimas décadas, vários países têm assumido o compromisso de combater o analfabetismo. Actualmente, a alfabetização atinge cerca de 85 por cento da população mundial, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas.

Em Angola, a alfabetização foi lançada em 1976,  pelo primeiro Presidente da República, António Agostinho Neto. Na altura, a taxa de analfabetismo da população economicamente activa era estimada em 85 por cento.

Agostinho Neto tinha noção da "herança pesada” que o colonialismo tinha deixado, e que só seria apagada depois de muitos anos. Por isso, lançou o desafio da alfabetização.

De lá para cá, foi feito um grande trabalho para reduzir o número de pessoas iletradas. Várias campanhas foram realizadas em fábricas,  zonas rurais e centros e salas de alfabetização. Hoje, a taxa de analfabetismo entre os cidadãos com idade acima dos 15 anos é de 24 por cento.

De acordo com dados oficiais, o país conta, actualmente, com mais de cinco mil alfabetizadores voluntários, que atendem nas salas de alfabetização um total de 152.591 cidadãos.  Muito ainda deve ser feito para acabar com o analfabetismo. O objectivo é que todo o cidadão saiba ler e escrever e tenha acesso a outros níveis de ensino, para garantir uma vida melhor.

A alfabetização é a base da educação, uma das prioridades do Estado angolano. Este processo está directamente relacionado com o desenvolvimento de um país. Quanto mais pessoas analfabetas tiver um país, menor é o índice de desenvolvimento. E quem disse que "país desenvolvido é mundo que lê”, não se enganou.

Investir na  educação é investir no desenvolvimento,   pois, quanto mais instruído for  um indivíduo, tem maiores possibilidades de conquistar melhores oportunidades no mercado de emprego e contribuir para o progresso.

A luta contra o analfabetismo constitui, assim, um grande desafio ainda por vencer, mas esta não é apenas uma tarefa do Estado, mas sim de toda a sociedade.

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