Opinião

Tragédia americana

Sousa Jamba

Jornalista

Mais uma tragédia americana: na pequena cidade de Uvalde, no Estado do Texas, 19 alunos morreram quando um jovem de 18 anos foi para uma escola e começou a disparar contra os alunos e uma professora.

28/05/2022  Última atualização 07H25

 Mais uma tragédia recorrente; os analistas apontam à fácil disponibilidade de armas. Salvador Ramos, de 18 anos, comprou legalmente duas armas e cartuchos de munição.

O jovem tinha, obviamente, muitos problemas mentais. Da mesma forma que existe uma rede sofisticadíssima para identificar espiões e terroristas, nos Estados Unidos deveria surgir também um sistema para detectar os potenciais assassinos em massa. Geralmente estes são homens brancos, altamente solitários e têm uma obsessão por armas. Alguns deles até não hesitam em proclamar as suas intenções. O atirador de Uvalde teve muito em comum com os outros jovens que mataram centenas de estudantes; ele odiava os colegas e até os próprios parentes. Salvador Ramos escreveu nas redes sociais que iria matar a avó, o que ele chegou a fazer. Todos os seus colegas estão a insistir que ele era bastante esquisito.

Depois há mesmo a questão da venda de grandes quantidades de munições. Um dia antes de matar as crianças, Salvador Ramos comprou várias munições para as suas armas. O que é que um jovem iria fazer com tantas balas? Depois há, também, a própria cultura que vai glamourizando a violência; os filmes americanos, assim como os videojogos são altamente violentos. Há jovens que se perdem naquele mundo e vão criando fantasias…

Estou cada vez mais convencidos de que o problema nos Estados Unidos é mesmo a disponibilidade de armas. Vivi uma boa parte da minha vida no Reino Unido e nos Estados Unidos. Em Londres é muito difícil obter uma AK47; lá, até a polícia não é, em geral, armada. Na Inglaterra há também muitos homens (são sempre homens) desajustados, que gostariam de descarregar a sua raiva num local cheio de inocentes. Só que não é fácil comprar armas na Inglaterra. Lembro-me que em 1996 em Dumblane, Norte da Inglaterra, um senhor foi para uma escola e matou vários alunos. Ele também era alguém com várias raivas e que tinha uma obsessão por armas. O Governo britânico reforçou a lei que proibia  cidadãos comuns terem acesso as armas de guerra.

No Reino Unido não existe um lobby para manter-se a favor das armas como nos Estados Unidos. O problema no Reino Unido são os bêbados, que nos sábados à noite não hesitam em trocar socos.  Tem havido políticos no Reino Unido que insistem que o problema está na cabeça e não na arma e que os cidadãos poderiam possuir armas. O próprio público britânico não pode com este argumento — as armas pertencem aos quartéis, ponto final.

A National Rifle Association, lobby das armas nos Estados Unidos, patrocina vários políticos e tem feito tudo para que não haja legislação para controlar a compra e uso de armas. Nos Estados Unidos há quem argumenta que o cidadão deve ter armas para se defender; há os outros que insistem que as armas fazem parte da cultura americana.

Nos Estados Unidos existem vários grupos que vêm nas suas armas uma garantia de liberdade. Quando os europeus se implantaram nos Estados Unidos havia comunidades que foram conquistando terreno usando violência contra os nativos. Em certos casos, a violência era tanta que a Igreja Católica disse que aquilo era inaceitável; que os nativos americanos também o eram. As várias colónias não estavam confortáveis com os líderes na Inglaterra que impunham impostos sem, segundo eles, fazer nada em prol deles. Surgiram, então, vários pequenos exércitos dos cidadãos.

Na luta para a independência contra os britânicos, foram estes pequenos exércitos que levantaram as suas armas. Depois da Guerra Civil nos Estados Unidos e também do fim da escravatura, houve leis que proibiam os negros de possuir armas. Claro que os brancos não queriam milícias constituídas por negros, que poderiam organizar insurreições.

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