Sociedade

“Trabalho infantil é indicador de desestruturação familiar”

Fernando Neto | Mbanza Kongo

Jornalista

Zolana Avelino frisou que o facto de várias crianças serem obrigadas a vender produtos ou recolherem garrafas de plástico nas ruas e lixeiras demonstra a fraqueza económica de muitas famílias, situação que resulta na destruição da infância e do papel tradicional dos pais, que se circunscreve ao sustento da prole

17/05/2022  Última atualização 09H40
Zolana Avelino defende mais acções para o reforço do combate ao trabalho infantil © Fotografia por: Garcia Mayatoko | Edições NovembrO | Mbanza Kongo

O surgimento de casos de trabalho infantil a nível da província do Zaire, assim como noutras do país, foi, domingo, considerado, na cidade de Mbanza Kongo, pelo sociólogo Zolana Avelino, como um dos indicadores da desestruturação do núcleo familiar em Angola, situação que concorre para o aumento da pobreza, tanto nas comunidades, como nas grandes cidades.

O também docente das cadeiras de Sociologia Geral e da Sociologia da Educação na Escola Superior de Ciências Sociais, Artes e Humanidade, em Mbanza Kongo, fez esta afirmação no âmbito do Dia Internacional da Família, assinalado domingo.

Ao justificar a sua afirmação, Zolana Avelino frisou que o facto de várias crianças serem obrigadas a vender produtos ou recolherem garrafas de plástico nas ruas e lixeiras demonstra a fraqueza económica de muitas famílias, situação que resulta na destruição da infância e do papel tradicional dos pais, que se circunscreve no sustento da prole.

"As crianças devem estudar e participar de actividades lúdicas, mas notamos uma inversão de tarefas quando são obrigadas a vender fruta e hortaliças pelas ruas da cidade e nos mercados, para garantir o próprio sustento e dos irmãos, o que indica desestruturação familiar. Esta questão exige um estudo do perfil destas crianças, para que sejam direccionadas políticas do Estado às suas zonas de origem, no sentido das famílias afectadas serem reinseridas no tecido económico da província”, disse.

Segundo o sociólogo, a exposição das crianças ao perigo de rapto, violação sexual e maltrato físico durante o trabalho que realizam nas ruas deve impelir os adultos a realizarem acções concretas e direccionadas ao processo da sua reinserção social, através da construção de centros de acolhimento e de reeducação de menores em conflito com a Lei.

O desemprego, num contexto onde tudo depende da inserção no mercado de trabalho, como frisou, constitui, igualmente, um factor que contribui para a desestabilização das famílias e leva as crianças a enveredarem ao mundo da criminalidade.

"A incapacidade de certos pais poderem sustentar suas famílias também leva à perca de certos padrões, normas, valores morais e cívicos, fundamentais para manter a sociedade sã. Daí a necessidade do Estado continuar a implementar políticas viradas a superar a questão da pobreza que afecta várias famílias angolanas”, frisou.

Quanto às influências socioeconómicas e culturais, segundo o especialista, a nível da província do Zaire prevalece a família polinuclear (alargada) ao envolver ainda parentes com laços biológicos e uterinos, além do pai, mãe e filhos, onde a figura do Nfumu a Makanda (chefe de família ou de clã) lidera a resolução de problemas, tais como casamentos e óbitos.

"A família é a primeira instância de socialização e humanização do indivíduo que nasce como tábua rasa e vai recebendo os códigos sociais, práticas, comportamentos, interioriza regras, um processo consolidado pelas instituições escolares e religiosas, o que justifica a atenção que o poder político tem com a família”, acrescentou Zolana Avelino, que lamentou o facto de existirem muitos lares monoparentais, cujas tarefas são atribuídas apenas a mãe ou ao pai.

Por seu turno, o professor das cadeiras de Fiscalidade, Organização e Gestão de Empresas da mesma instituição do ensino superior, Lona Toco Ramos, referiu que, apesar da falta de indicadores, o desemprego está entre os factores da vulnerabilidade e situação de pobreza em que se encontram muitas famílias a nível urbano, ao passo que, no plano rural, como avançou, regista-se escassez de meios de produção modernos, para as famílias desenvolverem as suas actividades económicas e maximizar a sua renda.

Acrescentou que o Executivo angolano criou várias políticas para ajudar as famílias que vivem em situação de pobreza, a exemplo do Kwenda, o Programa de Reconversão de Economia Informal (PREI) e não só, como forma de combater a exclusão social e garantir estabilidade social, pelo que, afirmou, defende-se maior acompanhamento do uso dos valores, para que o grupo alvo saia completamente da situação de vulnerabilidade.

"O Kwenda é um bom programa, ajuda muitas famílias, o anúncio que dá conta da extensão do período de vigência, bem como incentivar os beneficiários a maximizarem os valores que recebem através de pequenas actividades comerciais, para reforçar o tecido social, é louvável”, concluiu.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Sociedade