Reportagem

Tômbwa: Maravilha da natureza

João Upale | Moçâmedes

Jornalista

O município do Tômbwa, o maior em área territorial da província do Namibe, tem 18.019 km². A cidade e comuna-sede é o principal centro urbano do município. Nela vive 60 por cento da população, sendo na sua maioria pescadora. Limitado a norte pelos municípios de Moçâmedes e a leste pelo município do Virei e pela província do Cunene, a sul pela República da Namíbia, e a oeste pelo Oceano Atlântico, Tômbwa, há vários anos, vem enfrentando o avanço das areias do deserto, num desafio ecológico de desfecho imprevisível. Além da comuna-sede, o município possui as comunas do Iona e São Martinho dos Tigres.

03/07/2022  Última atualização 08H00
© Fotografia por: Irineu Cola | Edições Novembro

O principal referencial geográfico da cidade do Tômbwa é a baía, que fornece à localidade um porto muito bem protegido, vital para a sua economia pesqueira.  Único município do Namibe abastecido por um rio de curso permanente, o rio Cunene, o Tômbwa tem outro rio importantíssimo para a produção agrícola: o Curoca.

O nacionalmente famoso "Arco” é uma das suas principais atracções turísticas. Trata-se de um espantoso e inesperado oásis no meio do deserto, com um lago de água doce cujo acesso se faz por uns arcos de calcário que lhe dão nome. 

Além do grande potencial turístico, o municipio do Tômbwa passou a contar, desde segunda-feira, com um laboratório de qualidade reconhecida. E a equipa técnica provou isso, com a realização das primeiras cirurgias com resultados bastante satisfatórios.

Hospital Municipal realiza as primeiras cirurgias

O paciente operado é Tiago Canduco João, 31 anos de idade, oriundo de Caluquembe, província da Huíla, que padecia de uma hérnia inguino-escrotal, que carregava penosamente durante anos.

Depois do frenesim dos profissionais de saúde, trajados com as habituais indumentárias para essas ocasiões (batas azuis descartáveis sobre as brancas, tocas e luvas), quando menos se esperava ouviram-se salvas de palmas - em uníssono – transmitindo a mensagem de que a operação tinha sido um sucesso.

A segunda cirurgia realizada, também com êxito, culminou com a remoção de um tumor gigante do ovário a uma mulher, também originária da Huíla, que padecia do mal há quase cinco anos. O tumor pesava oito quilos.

 

Bloco operatório de qualidade

Em declarações à imprensa, Luís Cardoso, líder da equipa médica, tranquilizou a população local, que passa a contar com um "bloco operatório de qualidade”, uma vez que os equipamentos estão a comportar-se bem, sendo todos de última geração, preparados para cirurgias de médio porte.

Esclareceu que o bloco operatório está igualmente preparado para a área de cirurgia geral e tem material para as cirurgias ortopédicas. Há ainda a possibilidade de serem feitas cirurgias ginecológicas (cesarianas programadas).

Continuidade de investimentos

O governador do Namibe, Archer Mangueira, que visitou o município do Tômbwa, considerou a instalação do bloco operatório uma "grande valência” para o hospital, o que vai reduzir a pressão sobre o Hospital Ngola Kimbanda, em Moçâmedes.

Informou que a intenção do Governo provincial é dar continuidade a esse tipo de investimentos noutros municípios, para permitir que algumas cirurgias sejam realizadas no local e reduzir o risco de morte dos pacientes.

O governador destacou a concretização do princípio governativo segundo o qual "com pouco fazer muito”, permitindo a racionalização e optimização de recursos, com o engajamento da administração municipal do Tômbwa, do Gabinete Provincial da Saúde e do Hospital Provincial Ngola Kimbanda. "Todos participaram no investimento que foi feito”, sublinhou.  

O governador destacou igualmente a implementação do programa de formação de quadros a nível local, a nível de especialidade. O objectivo é haver, no futuro, profissionais que se fixem no município para realizarem cirurgias de urgência de médio porte.

Desafios

O director do Gabinete Provincial da Saúde, Coríntios Miguel, informou que o Hospital do Tômbwa é a unidade de referência a nível do município. Tem capacidade de 70 camas e uma média diária de atendimento de 200 utentes. É assegurado por 92 trabalhadores, sendo 13 médicos dos quais um expatriado. Seis profissionais estão a fazer formação nas especialidades de cirurgia gineco-obstetra, cirurgia geral, nefrologia e medicina familiar.

Dada a qualidade da via que liga Moçâmedes ao Tômbwa (95 quilómetros de estrada asfaltada), o também médico informou ao Jornal de Angola que inicialmente vai se trabalhar em função do tipo de cirurgia, fazendo deslocar uma equipa do Hospital Materno Infantil de Moçâmedes para as cirurgias obstétricas calculadas que se impuserem, ou ainda uma equipa do Hospital Ngola Kimbanda, para as cirurgias gerais.

Aguarda-se que os formandos enviados para outras regiões do país regressem dentro de um a dois anos para darem sequência, de forma fixa, às cirurgias no Hospital Municipal do Tômbwa.

Disse que os reagentes e outros materiais de consumo corrente para o Tômbwa estão garantidos, através da Direcção Provincial da Saúde ou de outra unidade de referência.

O responsável da Saúde esclareceu que numa primeira fase, o bloco operatório do Tômbwa vai atender, também, os demais municípios da província para todo o tipo de cirurgias, mas com realce para as de âmbito gineco- obstetras e gerais.

Coríntios Miguel informou, a título de exemplo, que um dos próximos pacientes a ser operado naquela unidade é de Moçâmedes. "Como os blocos operatórios dos hospitais provinciais encontram-se sempre ocupados com urgências, então o bloco indicado para cirurgias electivas é o do Hospital Municipal do Tômbwa”, reiterou.  

Serviços do hospital

O hospital conta com duas alas: administrativa e clínica. Os serviços clínicos comportam um banco de urgência, medicina e ginecologia obstetrícia. Conta igualmente com serviços de diagnóstico e terapêutica, tais como o laboratório de análises clínicas internas e externas, fisioterapia e estomatologia. Conta ainda com uma área de imagiologia para os serviços de Raio X e ecografia.

Coríntios Miguel lamentou a escassez de especialistas que disse continuar a ser um "desafio” do Hospital Municipal, que tem uma frequência de partos de 210/mês e uma transferência mensal de 38 gestantes que procuram serviços especializados.

Considera ser uma infra-estrutura que vem tornar robusta a capacidade clínica do Hospital Municipal e também transforma-se num facto histórico, pelo facto de o bloco operatório anexo ao hospital do Tômbwa ser o primeiro fora do hospital provincial do Namibe a realizar cirurgias.

"Isto é um grande ganho na vida da comunidade”, por eliminar o transtorno de transferência de pacientes do município do Tômbwa para a sede da província.

Antes disso, a província contava apenas com dois blocos operatórios funcionais acoplados ao Hospital Provincial Ngola Kimbanda e ao Materno Infantil. "Pela demanda dos pacientes, não éramos capazes de dar resposta imediata às cirurgias electivas e isso levava muita gente a ficar na lista de espera até que o banco de urgência ficasse descongestionado para dar espaço às cirurgias electivas”, contou Coríntios Miguel.

O responsável apontou o município da Bibala como próximo desafio, onde já existem infra-estruturas instaladas. Disse que vai ser traçado um cronograma para fazer com que em menos de seis meses possa ter todos os dispositivos necessários para o arranque de cirurgias naquela localidade.

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