Opinião

Tiros no alvo e ao lado

Luciano Rocha

Jornalista

As declarações, ao nosso jornal, a propósito de 46º aniversário da implementação da Banca angolana, de quatro experientes ex-trabalhadores do sector, não trazendo a público nada surpreendente, lembram, ao menos, algumas causas das fragilidades do país.

19/08/2021  Última atualização 05H40
As afirmações dos quatro têm o condão de avivar memórias, mas, também, explicar aos mais novos algumas das razões pelas quais Angola, em pleno século XXI, continua a ser um país adiado, onde as diferenças sociais continuam a acentuar-se de forma vincada, tão distante da Pátria da fraternidade, sem tantos ricos, parte substancial deles sem conseguirem explicar origens honestas das fortunas que ostentam e escondem, nem pobres, sem nada para mostrar ou esconder, a não ser sinais de miséria.

As afirmações dos quatro antigos bancários - Generoso Almeida, José Augusto, Wilson Benje, Rui Fortes - são elucidativas quanto ao estado desastroso a que chegou, na generalidade, o sector do qual eles fizeram parte, excepções a comprovarem que não há regras sem elas.

Todos eles são unânimes nas criticas ao que se verifica no sector bancário, desde a admissão de gente sem preparação, norteada apenas no dinheiro, o que origina desfalques, a que se junta, por exemplo, o mau atendimento aos clientes. Mesmo que não fossem referidos mais motivos, apenas aqueles, entre os quais estão explícitos amiguismo, nepotismo, troca de favores, chegavam e sobravam para fazer com que o sector bancário em Angola continua a ser a balbúrdia em que se transformou.

Problema maior é que tudo o que se passa em vários estabelecimentos bancários em funcionamento em Angola - já foram mais, mas, pelos vistos, ainda são muitos - estende-se à maioria dos outros sectores, para não dizer a totalidade,. Não fosse isso, mesmo com crises económicas e pandemias, o país não tinha chegado a onde chegou. 

Os alertas coincidentes de Generoso Almeida, José Augusto, Wilson Benje e Rui Fortes, a que se podiam juntar, certamente muitos mais - que o sector bancário e todos os outros tem mais vozes experientes que se podem erguer - foram dados por quem sabe do que fala. Tal e qual tiros certeiros no alvo, com balas a sério, não de pólvora seca, que fazem barulho e pouco mais, nem expelem fogo de artifício, que distrai, mas extingue-se num instante. 

Balas, mesmo de pólvora verdadeira, se disparadas por armas empunhadas por mãos inseguras, de quem se limita a fazer o que viu sem medir consequências, somente por acaso atinge o alvo. Na maioria das ocasiões sai ao lado, sem direcção definida e com desfecho imprevisível.O que se passa na generalidade da banca em Angola é o avolumar de irresponsabilidades, com admissões e promoções em catadupa de gente inabilitada para as funções pelas quais é paga em detrimento de quem reúne experiência, mas faz questão de não bajular, entrar em "jogadas subterrâneas”, antes privilegiar dignidade e bom senso.

Os exemplos de má conduta referidos pelos ex-bancários, ouvidos pelo Jornal de Angola, publicados na edição do dia 14, confirmam alguns dos motivos pelos quais o sector que serviram chegou ao estado em que está. Infelizmente, não é o único. Porque a hora é de acção ao invés de conversa fiada, como, por mais do que uma vez, alertou o Chefe de Estado, de acção, agravem-se as medidas contra a pandemia do amiguismo, nepotismo, incompetência e discriminação de géneros, idades, origens de nascimento, ideologias políticas, preferências partidárias. Antes tarde do que nunca e os ponteiros do relógio só têm um sentido. Há alvos a acertar em cheio, por armas empunhadas por quem sabe. Dispensa-se quem dê tiros ao acaso ou use fogo de artifício, que a vida não está para brincadeiras. 

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