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“Tínhamos apenas um médico militar em Cabinda”

Enfermeiros no período colonial, ajudam a compreender como era o sector na província de Cabinda, durante o período de dominação portuguesa no país. José Pedro Benge, Alberto Bucuco Cadula e António Puna têm algo em comum: os três trabalharam, como enfermeiros, no único hospital até então na província. O primeiro, hoje com 98 anos, foi assistente de enfermagem no navio mercantil Negreiro, que transportava mercadoria diversa, presos políticos e até pessoas apanhadas em plena via pública, que não tinham imposto pago.

23/11/2021  Última atualização 08H35
José Pedro Benge, Alberto Bucuco Cadula e António Puna © Fotografia por: Edições Novembro
A província de Cabinda ocupou uma posição "geoestratégica” no processo da luta de libertação nacional, ao acolher os guerrilheiros do MPLA que, a partir de muitas aldeias do Alto Maiombe, instalaram as bases militares e, de lá, desencadeavam acções armadas contra o colono português.


Entre os vários cidadãos dessa parcela do território nacional, que tiveram uma participação activa, destaque para Pedro Maria Tonha "Pedale”, Maria Mambo Café, Evaristo Domingos Kimba, Santana André Pitra "Petrof”, Roque Ntchyendo, Saydi Viera Mingas, Nicolau Gomes Spencer, Spil Tendele Maurício e António Pedro Benge.
José Pedro Benge, de 98 anos, irmão mais novo do nacionalista António Pedro Benge, que faleceu no antigo Hospital do Ultramar, em Lisboa, a 13 Setembro de 1962, é uma testemunha ainda viva daqueles tempos difíceis.


O irmão, António Pedro Benge, depois de ter sido preso pela PIDE/DGS, em Luanda, a 3 de Abril de 1959, e julgado pelo Tribunal Militar Territorial de Angola a 20 de Dezembro de 1960, sob acusação de "conspiração contra segurança exterior do Estado sob forma de associação ilícita e organização secreta”, acabou condenado a 10 anos de prisão e perda de direitos políticos por 15 anos.

Hoje, 46 anos depois da proclamação da Independência Nacional, José Pedro Benge lembra as vicissitudes por que passou enquanto profissional de Saúde. Durante longos anos, foi assistente de enfermagem no navio mercantil "Negreiro” colonial Português denominado "28 de Maio”, que transportava mercadoria diversa, presos políticos e até pessoas apanhadas em plena via pública, que não tinham imposto pago.


Todos eram deportadas para São Tomé e Príncipe, para trabalhos forçados nas roças de café, bem como às cadeias de Tarrafal, em Cabo Verde, ou na Baia dos Tigres, no Namibe. "A Independência, embora tenha sido proclamada em condições meramente conflituosas, marcadas por terríveis conflitos armados, valeu a pena para o povo angolano, porque tornou-se livre e dono de si mesmo”, sublinha o "velho Benge”, como se notabilizou em Cabinda.


Só não foi preso no tempo colonial, porque gozava uma certa confiança do comandante português do navio mercantil "Negreiro Colonial 28 de Maio, onde trabalhou como enfermeiro assistente. "Os meus irmãos, António Pedro Benge, Alfredo Pedro Benge e Artur Pedro Benge, foram todos presos pela PIDE/DGS. Felizmente, eu não fui preso, mas fiquei submetido ao regime de residência fixa em Cahama, Cunene durante seis anos”, revela.  
O antigo enfermeiro lembra que no tempo em que exerceu a actividade de enfermagem, no período colonial, o Hospital de Cabinda tinha "um número muito reduzido de enfermeiros angolanos e são-tomenses e um único médico comunitário militar, que era também o chefe de Repartição Distrital de Saúde.


Em Outubro de 1974, um ano antes da proclamação da Independência Nacional, os médicos militares abandonaram o Hospital de Cabinda, por suspeitarem que a guerra poderia eclodir. A situação viria a complicar ainda mais o já difícil funcionamento do sector da Saúde, numa altura em que nem se quer um médico especialista tinha.
Como consequência, muitas especialidades desapareceram. As intervenções cirúrgicas passaram a ser feitas por apenas um médico anestesista, com uma vasta experiência profissional, chegado do Maquis, com o MPLA, chamado doutor "Campino”.

"Obtive muita experiência por trabalhar com este médico militar no bloco operatório, o que me permitiu, no momento da sua retirada de Cabinda, manter o funcionamento do bloco operatória do Hospital de Cabinda e outras áreas não menos importantes, fazendo algumas cirurgias menos complicadas”, disse.


Primeira cirurgia

José Pedro Benge lembra a primeira intervenção cirúrgica que realizou com sucesso. Foi em Novembro de 1974. Um militar destacado numa posição militar na fronteira de Massabi tinha ficado gravemente ferido, depois de uma granada lhe ter explodido nas mãos, quando tentava matar peixes, na lagoa do "tchuksse”. "Tive de amputar-lhe os membros superiores”, recorda.

"Dias depois, apareceu no hospital outro cidadão, desta feita um português, com uma crise apendicular. Fiz a indução com soro fisiológico e as dores cessaram. Mas o paciente, teimoso, só quis ir a casa. Tanto que lhe disse que não fosse, porque carecia ainda de uma observação. Não quis entender e lá se foi. Horas depois voltou ao hospital com um quadro altamente complicado. Não tive alternativa, se não preparar o doente e depois fazer a apendicectomia e tudo correu da melhor maneira possível, graças à Deus”, revela.   


               
Reorganização do sector

Logo após a Independência Nacional, o sector foi dirigido por Luís Gomes Sambo, que chegou para organizar a estrutura na província de Cabinda. "A primeira coisa que o doutor Luís Gomes Sambo fez foi logo criar a Escola Técnica de Enfermagem, com o objectivo de, rapidamente, formar mais enfermeiros e garantirem a assistência médica a população”, disse.

Assim, reorganizou a direcção da Saúde, criando sectores como Contabilidade, secretaria-geral, Recursos humanos, planeamento e estatística, centros e postos de Saúde, entre outras áreas que não existiam no período colonial. "Como vê, valeu a pena os angolanos terem empunhado as armadas para lutarem contra o regime colonial fascista português”, revela. 


    
Com a reorganização do sector, a cobertura sanitária estendeu-se aos municípios de Cacongo, Buco-Zau e Belize. A população passou a ter os serviços mais próximos das suas casas.


Testemunho do "Velho Cadula”

Outro antigo enfermeiro também lembra as amarguras do colonialismo português durante o tempo em que exerceram essa actividade. Alberto Bucuco Cadula, 70 anos, começou a actividade de enfermagem em 1972. Depois de 49 anos de experiência profissional, com passagens pelo sector público e agora no sector privado, o "Velho Cadula” vê muitos ganhos com a conquista da Independência Nacional. Antes, a unidade de referência na região era um único hospital distrital.


O único médico que prestada assistência aos pacientes antes da Independência nacional, era Mário Pereira, um português que devia estar na casa dos 70 anos. "Não tínhamos médicos nacionais civis. Os especialistas eram das Forças Armadas Portuguesas, que prestavam assistência aos casos de urgência que acorriam ao hospital”, afirma, para acrescentar: "o nosso sistema de Saúde cresceu muito, comparativamente à era colonial. Hoje registamos um crescimento qualitativo em número de hospitais e de técnicos, enfermeiros e médicos. Isso facilita o acesso aos Cuidados Primários de Saúde e não só”.


Revolução na Saúde

António Puna, 68 anos, é um outro profissional de Saúde com uma vasta experiência profissional, que remonta desde 1968, período em que ingressou no sector. Dois anos depois, em 1970, foi enviado à província de Malange, para frequentar um curso de agente sanitário e de assistência rural. Eram 10 praticantes para frequentar a formação acelerada. Do grupo, apenas metade concluiu o curso.

"A independência veio, de facto, revolucionar o sector da Saúde, sobretudo na província de Cabinda. Podemos, hoje, claramente, nos orgulhar, visto que já temos hospitais, centros e postos médicos em condições em todas circunscrições da província, o que já é muito bom.


Temos, hoje, uma rede sanitária eficiente, contrariamente ao cenário vivido no tempo colonial”, relatou António Puna.  
"No período colonial, não havia uma Escola de Formação de Saúde, o que impedia muitos cidadãos de se formar em enfermagem. Quem quisesse se formar nesse ramo a alternativa era deslocar-se a Luanda, Benguela ou Huambo”, recorda este antigo funcionário da Saúde, agora na reforma.


Bernardo Capita Pedro Sucalte e Arsénia Manuel| Cabinda

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