Cultura

Teta Lágrimas in memoriam: “Faço arte para me comunicar com o público”

Analtino Santos

Jornalista

O ano 2020 tem sido aterrorizador para a classe artística, e não só. Esta semana, na terça-feira, a surpresa veio com a notícia da morte de Teta Lágrimas, músico que se destacou cantando e exaltando a beleza da mulher, da cidade de Luanda e o dia-a-dia, com muito enfoque na crítica política e social numa mescla de sátira, romantismo e recriação de provérbios

29/11/2020  Última atualização 06H10
© Fotografia por: DR
Teta Lágrimas era um músico com uma forte veia empreendedora herdada da família. Prova disso é que abriu uma das primeiras lojas de instrumentos musicais no pós independência, situada na Estrada de Catete, além de ter investido nas artes gráficas e noutros empreendimentos, que, no seu conjunto, lhe permitiam viver sem depender inteiramente da sua arte. Graças a essa independência material, conquistada com muito esforço, disse um dia, com muito e legítimo orgulho: "Não canto para os cifrões. Faço arte para me comunicar com o público”.

Muito cedo Teta Lágrimas iniciou-se nas lides artísticas, pois era proveniente de uma família onde a música fervilha nas veias. Maria Teta, a mãe, tocava guitarra e acordeão, o avô cantava fado, o irmão Teta Lando é "tão somente” um dos mais respeitados intérpretes e compositores da Música Popular Urbana Angolana; Gutto, seu sobrinho, além de produtor é um dos mais refinados cantores da cena rapper... Outros membros da sua família despertaram para outras vertentes  artísticas, nomeadamente a artística plástica Fineza Teta... 

Teta Lágrimas, em "Keta Chorada”, uma música em homenagem ao irmão Teta Lando, cantou assim: "porque chorar se você está presente / pois suas canções matam as saudades / e não terminei a sua keta / pois a letra escapava escorrendo num canto do olho”. Esses versos, na hora de evocarmos a partida de Teta Lágrimas para a eternidade, de modo arrepiante aplica-se a ele próprio.  "Eu queria fazer uma keta chorada / mas chorar porquê mano / pensei que não valia nada / vale mais pensar no Maritimo da Ilha, Desportivo de São Paulo / onde mexias com a sua gente / com um Semba ou uma balada”...

Por isso não adianta chorar pelo passamento físico do músico no dia 24 de Novembro. E aqui, muito a propósito, sentimo-nos "obrigados” a citar António Cardoso, num dos seus melhores poemas: "É inútil chorar / ‘Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar’ / por todos os que tombam pela verdade / ou que julgam tombar / O importante neles é já sentir a vontade / de lutar por ela. / Por isso é inútil chorar. // Ao menos se as lágrimas / dessem pão, / já não haveria fome. / Ao menos se o desespero vazio / das nossas vidas / desse campos de trigo... / Mas o que importa é não chorar. / ‘Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar.’ / Mesmo quando já não se sinta calor / É bom pensar que há fogueiras / e que a dor também ilumina. // Que cada um de nós / lance a lenha que tiver, / mas que  não chore / embora tenha frio. / ‘Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar.’”

Contra a morte e o esquecimento do artista devemos assimilar a sua obra, incorporá-la nas nossas vidas, na nossa memória colectiva e transmiti-la às gerações vindouras. Assim terá valido a pena todo o seu sacrifício e ele continuará vivo em nós.

 "Amizade colorida”, "Esta preta me mata”, "Nga Nginga Kia”, "Só só só”, "Me abraça forte pequena”, "Amor em crise”, "Quero ser político”, "Cai comigo na noite”, "Beijo do sapo”, "Tolerância zero”, "Luvuvamo”, "Mãe de todos nós”,  "Luanda já foste linda”, e outros temas, são a prova provada do empenhamento artístico e cívico de Teta Lágrimas.
Na primeira pessoa

Nesta breve celebração da vida e obra de Teta Lágrimas respigamos algumas declarações do artista numa entrevista que concedeu em 2014 ao jornalista Tchinganeca Dias, da Angop. É o homem na primeira pessoa.
"Os artistas não têm trabalho. Os artistas ainda são pedintes. Entretanto vão fazendo muito pela cultura, por isso é importante que se mude esta situação que afecta a classe artística”

 "Logo que aprendi a tocar guitarra surgiu o bicho da música, não com a vontade de ser famoso, mas com a vontade de mostrar às pessoas que eu podia fazer coisas bonitas. Eu não canto para os cifrões, faço arte para me comunicar com o público. Isto é o mais importante para mim.”

"Sou muito original, gosto de ser original, embora veja o Teta Lando como ícone da nossa música, para mim um dos melhores autores e compositores. Mas sou muito original, gosto de cantar o que me vem na alma”.
"Muitas vezes quando inadvertidamente aparece alguma coisa que se pareça com o trabalho do meu irmão tento tirar, para dar a  entender que não existe influência do meu irmão; mas é difícil porque nós somos irmãos, somos irmãos de pai e mãe, e nestes casos a génese sempre puxa alguma coisa. Há quem diga que a minha voz é semelhante à do Teta Lando. Há quem diga que em palco somos iguais, mas tento ser o Teta Lágrimas: procuro ser o mais original possível.”

 "Teta Lagrimas é o meu nome, só que invertido. Isto foi em Portugal aquando do meu primeiro disco. A editora que lançou o disco decidiu trocar o nome; perguntaram-me como era o nome de família e assim decidiram colocar um nome mais artistico, que despertasse o interesse e ficasse na mente das pessoas.”

"Tenho alguns empreendimentos que dão algum rendimento e que dão para viver sem depender da música. Mas o que queria mesmo é viver da música: uma entrega 100 por cento à música e ser um profissional de mão cheia”.   

Acontecimento
Canções para o Banquete


Teta Lando morreu na semana em que o telejornal da TPA passou a emitir a série de reportagens "O Banquete”, que ilustra o quanto um grupo de altos dirigentes se serviu dos recursos de todos nós para benefício próprio. Talvez a TPA ainda vá a tempo de incluir na banda sonora algumas das peças musicais de Teta Lágrimas, que corajosamente denunciou através da arte a anormalidade do estado de coisas. Basta ouvir as canções "Tolerância zero” e "Quero ser político”. Na primeira Teta Lágrimas fala dos que não querem saber do povo e olham o povo de cima a baixo como se fosse gado a pastar. Ele denuncia os que confundem governar com abonar e diz que "o povo chora / enquanto tem gente que joga kumbú porta fora / com mambos que mexem com qualquer / o povo chora, ele se regala e o resto não lhe interessa”. Em "Quero Ser Político” o músico continua na mesma senda e descreve como muitos servidores públicos arruinaram o país. De forma satírica, ele afirma que a sua intenção é também ser político "porque é o que está a dar”.
Perfil

Teta Lágrimas ou Abel Lágrimas da Conceição Santos Teta nasceu na província do Zaire há 64 anos e cresceu nos bairros Operário e Popular, em Luanda. Em 1975, na sequência do eclodir da guerra civil, foi viver na RDC, onde trabalhou com o grupo Bakongo Star e a Orquestra Veve Center. Em 1985 opta por viver em Portugal, para dar seguimento à carreira musical e estreia-se com o disco "Amizade Colorida”, e de seguida "Luanda já foste Linda”, "Esta preta me mata” e "Dilema”. Tem ainda os discos "Mãe de Todos nós”, "Coisas da Vida”, "Renascente esperança”, "Letra Chorada”, também em Dvd, e "Lagrimas do Coração”.

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