Reportagem

Terra pode ter atingido o ponto de não retorno

Osvaldo Gonçalves

Jornalista

A determinada altura, um avião fica sem combustível para regressar ou aterrar noutro aeroporto, onde se possa reabastecer. A isso, a aeronáutica chama ponto de não retorno, conceito que se tornou metáfora de irreversibilidade muito utilizada na ciência política e económica. Mais assertivo, o povo diz que é quando se chega “tarde demais”. Para muitos cientistas, assim está o nosso Planeta, no que toca ao ambiente

27/06/2021  Última atualização 07H30
© Fotografia por: DR
O Acordo de Paris, negociado durante a Cimeira do Planeta (COP21), realizada em Dezembro de 2015, na capital francesa, estabelecia que, a partir de 2020, os estados tomariam uma série de medidas para conter a emissão de gases de efeito estufa, de modos a manter o aquecimento global abaixo dos dois graus centígrados. Essa era a temperatura sobre a qual durante muitos anos vigorou a ideia de que o sistema da Terra poderia suportar sem consequências catastróficas.


Estudos feitos a partir de 2014 revelaram, entretanto, que o gelo polar se estava a mostrar muito mais instável do que o previsto, o que provocou um aumento exponencial, segundo a comunidade científica. As conclusões a que se chegou é que a temperatura do Ártico aumenta três vezes mais depressa que no resto no Planeta, com tendência para se manter, podendo as médias aumentarem entre 3,3 e 10 graus em relação ao período entre 1985 e 2014.


Acordo de Paris

O Acordo de Paris foi um tratado firmado no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (CQNUMC), mas os últimos estudos apontam para a necessidade de os estados accionarem as medidas no sentido de conter o aquecimento global, sob pena de a camada de gelo marinho derreter por completo, o que será seis vezes mais provável se a temperatura da terra aumentar dois graus centígrados, em vez de 1,5 graus até ao final do século.


A essa conclusão chegou uma equipa de cientistas que, durante 389 dias, a bordo do quebra-gelo "Polarstern”, recolheu muitas informações sobre a mudança climática, sobretudo durante os meses em que o navio permaneceu à deriva no Polo Norte. O chefe da pesquisa, Markus Rex, alertou, numa entrevista colectiva, a 15 de Junho corrente, que a temperatura global já terá superado o ponto de não retorno e podemos estar diante de um possível aquecimento irreversível do Planeta.


Ao lado da ministra da Educação e Pesquisa, Anja Karliczek, o climatologista alemão disse que "O desaparecimento das geleiras durante o verão no Ártico é uma das primeiras bombas de um campo minado, um dos primeiros pontos de não retorno que atingimos com um aquecimento exagerado”.
"Podemos perguntar-nos se já não estamos a andar sobre esta mina e se já não activamos o início da explosão”, completou o cientista, que fez o balanço oito meses após o retorno da missão internacional no Polo Norte.


"Só as observações que faremos nos próximos anos poderão indicar-nos se ainda é possível salvar as geleiras do Ártico, presentes o ano todo graças a uma protecção do clima, ou se já superamos o ponto de não retorno”, disse.


A expedição chefiada Markus Rex, chamada Mosaic, foi a maior enviada ao Polo Norte e retornou à Alemanha em Outubro de 2020, tendo na altura ele alertado sobre a ameaça contra as camadas de gelo, que desaparecem a uma "velocidade dramática”. Durante a missão, a equipa recolheu muitas informações sobre as mudanças climáticas. O retrocesso das geleiras é considerado pelos cientistas o "epicentro do aquecimento global”.


Epicentro

A 20 de Maio, em Reiqueiavique, capital da Islândia, numa reunião ministerial do Conselho do Ártico (em que estavam representados os países com território na região), foi revelado um documento segundo o qual o aquecimento ali acontece três vezes mais depressa que o resto do planeta.


Na ocasião, o glaciólogo Jason Box, do Serviço Geológico da Dinamarca e Gronelândia, afirmou que "o Ártico é realmente um ponto quente do aquecimento global”. Na região, o aumento da temperatura média entre 1971 e 2009 foi 3,1 graus centígrados. Em 2009, os cientistas apontaram que o aumento da temperatura no Ártico era mais do dobro da média mundial.
Em 2004, houve um ponto de viragem em que a temperatura em torno do Círculo Polar Ártico começou a aumentar a um ritmo 30 por cento superior.


Em declarações à agência France Presse, Box afirmou que a região regista "episódios de calor invernal mais frequentes e mais longos”. Sistemas meteorológicos, incluindo ondas de calor, afectam, sobretudo, em Maio e Outubro, períodos em que o gelo se forma.
Até ao fim do século, as temperaturas médias no Ártico podem aumentar entre 3,3 e 10 graus em relação à média do período entre 1985 e 2014, dependendo da evolução das emissões de gases com efeito de estufa.


Consequências

As alterações climáticas já se fazem sentir nos ecossistemas, com modificações dos "habitats”, dos hábitos alimentares e das interacções entre espécies e suas migrações. No terreno, da Sibéria, na Rússia, ao Alasca, EUA, os fogos florestais incontroláveis são um problema habitual.


"O fumo que produzem contém dióxido de carbono e partículas de carbono negro que também aceleram as alterações climáticas”, afirmou o investigador norte-americano Michael Young.
A directora do Centro de Avaliação e Política do Clima do Alasca, Sarah Young, disse que, na Grenolândia, os caçadores "queixam-se que agora só têm três meses por ano, em que conseguem deslocar-se nos trenós puxados por cães, quando antes tinham cinco”. Os caçadores e pescadores canadianos e russos apanham focas cada vez mais magras e mais animais doentes.


Os cientistas acrescentam que o impacto do aquecimento acelerado do Ártico atinge, sobretudo, as populações indígenas.
"Os caçadores do nordeste da Gronelândia queixam-se que agora só têm três meses por ano em que conseguem deslocar-se nos trenós puxados por cães, quando antes tinham cinco”, relatou Sarah Young. Os caçadores e pescadores canadianos e russos apanham focas cada vez mais magras e mais animais doentes.


A diminuição do gelo abre oportunidades económicas que os ambientalistas temem, como novas zonas de pesca, novas rotas marítimas comerciais e acesso facilitado a reservas de petróleo, gás natural e minerais.


O degelo
A consequência mais visível do aquecimento global nas regiões polares é o degelo. De acordo com as pesquisas, o Oceano Ártico teve a sua área reduzida em 14 por cento. A camada de gelo tornou-se 40 por cento mais fina. No Polo Sul, onde as médias de temperatura subiram 2,5 graus centígrados desde 1940, a Antártida perdeu três mil quilómetros quadrados de extensão.


A água proveniente do gelo das calotas do Ártico e da Antártica, uma fluirá para os oceanos, que vai contribuir para a elevação do nível do mar. Cerca de 200 milhões de pessoas serão afectados e que 60 por cento da população residente em áreas costeiras terão de migrar para outras regiões.

Estudos apontam que, nos Alpes, a cadeia montanhosa mais alta e mais extensa da Europa, que vai desde a Áustria, Eslovénia e Hungria, a Leste, Norte da Itália, Suíça, Liechenstein e sul da Alemanha, até ao sudeste da França e Mónaco, cujo ponto mais alto é o Monte Branco (4.810,45m de altura), viu as suas geleiras recuarem cerca 35 por cento. Já o Monte Kilimanjaro, no norte da Tanzânia, junto à fronteira com o Quénia, cujo Pico Uhuru, com uma altura de 5.895m, é o ponto mais alto de África, perderá toda a sua de neve em 20 anos.


Os alertas dos investigadores para o facto de o aquecimento global passar o ponto de não retorno vêm de há vários anos. Em Agosto de 2018, um grupo de cientistas publicou um estudo no Earth System Dynamics, da União Europeia das Geociências. Segundo eles, o ponto de não retorno podia chegar até antes de 2035.


Então, os cientistas sublinharam que, ao darem essa data limite, poderiam estar a ser demasiado optimistas e que o mundo teria de abraçar as energias renováveis para conseguir travar os efeitos das alterações climáticas. Se o clima da Terra já passou o ponto de não retorno, só os próximos tempos dirão.

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