Especial

Terra do gado bovino quer contribuir para o progresso do país

Vladimir Prata | Bibala

Jornalista

A vila desperta cedo, talvez por causa do sol madrugador cujos raios irrompem das fendas da Tundavala às cinco da manhā, ou talvez devido às manadas de bois e rebanhos de cabras barulhentas em busca de pasto fresco. Afinal, estamos num dos principais municípios pecuários do país, com um efectivo de 190.000 cabeças de gado bovino.

05/12/2021  Última atualização 06H55
© Fotografia por: Edições Novembro
O apito do comboio que ora sobe, ora desce a Serra da Humbia, fazendo a ligação entre as províncias do Namibe e da Huíla, ajuda a dar vida à sede da Bibala. Desde 1912 que o Caminho-de-Ferro de Moçâmedes passa pela antiga Vila Arriaga.
Com os ventos da paz, foi construída, entre 2006 e 2015, uma estação de primeira classe, cujo edifício, o maior e mais do que luxuoso desta modesta vila, 70 por cento envidraçado, espelha a necessidade de se utilizar da melhor maneira a imponente obra chinesa em benefício da população local.

Ainda se podem ver algumas residências e estabelecimentos comerciais construídos na era colonial, como o Palácio, a Administração Municipal e pequenas lojas, mas nota-se claramente que o município cresceu com o surgimento de novos edifícios destinados a habitação, comércio e outros serviços. Apesar de ser habitada por uma população predominantemente autóctone e baseada no meio rural, entre criadores de gado e camponeses, aos poucos os sinais da urbanização se tornam mais evidentes, à luz dos programas gizados sobretudo pela administração local nos últimos anos.


O Programa Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) e o Programa de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza (PDLCP) são os que conformam o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) para o período 2018-2022 proposto pelo Executivo saído das últimas eleições. No âmbito do PIIM, para a Bibala foram inscritos 11 projectos e disponibilizado um valor total de 1.937.093.000,36 kwanzas, ao passo que o PDLCP conta com um orçamento anual de 300.000.000,00 kwanzas.

Os investimentos estão a ser feitos nos sectores da Educação, Saúde, Saneamento Básico, lazer e fomento do em-
preendedorismo. Contudo, é na pecuária e na agricultura que se espera um maior impacto do dinheiro disponível, por se tratarem das principais actividades das populações locais. E para potenciar o sector agro-pecuário, o principal desafio tem sido encontrar soluções que garantam um dos seus principais recursos: água.

De acordo com o administrador adjunto para o sector financeiro, Jandir Eduardo, importantes projectos estão em execução no município para fazer face a escassez deste líquido precioso. Nas comunidades de Mungongo (Caitou), Tchitumba (Camapupa) e Tchissanguela (Montipa) três importantes represas, aqui chamadas de chimpacas para retenção das águas pluviométricas, recebem obras de requalificação, com trabalhos a cargo da construtora CSN. A mesma empresa está a construir três furos de água nas localidades do Ngolo, Bombo e Tchitumba.

"Queremos, com esses projectos, criar uma solução para a melhoria das condições de abeberamento do gado e aumentar o abastecimento de água às populações da Bibala”, referiu.

Os referidos projectos, inseridos no PIIM, têm um orçamento na ordem dos 243.632.091,05 kwanzas. Quando estiverem concluídas, segundo projecções da Administração, as três chimpacas vão servir a um total de 98.000 animais, dos quais 51.000 cabeças de gado bovino, beneficiando deste modo cerca de 19.000 criadores.

Um dos objectivos também é promover a comercialização desses animais com a qualidade desejada, gerando lucros para os seus criadores. Para tal, foi construído na sede municipal um centro de retemção  do gado e um matadouro ao lado para venda e abate de animais de forma organizada e controlada. Todavia, ainda são muitos os pastores que não aceitam vender os bois por razões tradicionais, preferindo mesmo acumular por vezes um número indeterminado de animais e correr riscos de perdê-los por conta da seca e estiagem que de for-ma cíclica afecta a região.
 
Fomentar a prática da agricultura

Em relação aos furos de água, os projectos em execução incluem a construção de tanques com capacidade de 5.000 metros cúbicos, lavandarias e fontenários para atender aos habitantes e fomentar a prática da agricultura.

O director municipal da Agricultura, Manuel Xavier, diz esperar por um aumento da produção já a partir da campanha agrícola 2021-2022, sendo que foram preparados cerca de 8.000 hectares de terra e estarão envolvidos mais de 14.500 camponeses organizados em cooperativas e associações. Revela que foram adquiridos pela Administração 20 motobombas, 74 charruas e materiais como enxadas e catanas, bem como diversos tipos de sementes, e entregues aos grupos organizados para melhorar a colheita.

Cerea is como milho, massango e massambala, leguminosos (feijão, abóbora) e hortícolas diversas, com destaque para o tomate, cebola e melancia, constituem os principais produtos cultivados nesta região, com particular destaque para as comunas do Caitou e do Capangombe, onde se produz a uma escala que permite abastecer os mercados do Namibe e da Huíla. Nas demais localidades, a agricultura vai dando os primeiros passos como actividade comercial.

Na comuna da Lola, a 76 quilómetros da sede municipal e com uma população estimada em mais de 13.900 habitantes, a nossa reportagem chegou a testemunhar a abertura da primeira feira agrícola que reuniu 30 expositores com produtos como milho (600 quilos), feijão (400 quilos), batata-doce, cebola, alho, melancia, abóbora, tomate, repolho, couve, limão, laranja, cana-de-açúcar, ginguba e outros, avaliados em mais de 1.000.000 de kwanzas.

A administradora municipal, Amélia Camunheira, realça a importância de se apostar na agricultura para combater a prática do fabrico de carvão que tem ameaçado o ecossistema e contribuído para o aumento da seca na região. Disse que a nível do município da Bibala existem zonas consideradas críticas devido ao abate de árvores para o fabrico de carvão, nas localidades das Mangueiras, Caraculo, Quilemba Velha e Serra da Umbia.

"A Administração está a trabalhar com as pessoas envolvidas no fabrico de carvão para que deixem de lado esse negócio e passem a praticar a agricultura, apoiando com sementes e alguns instrumentos de trabalho”, referiu.

  Vias de acesso
Os principais acessos ao município da Bibala fazem-se através da Estrada Nacional 280-2, que liga as províncias do Namibe e da Huíla. Para quem sai da cidade de Moçâmedes, percorre-se 97 quilómetros até ao desvio do Chicolongilo, e daí mais 64 quilómetros, passando pelo Munhino (sede comunal do Capangombe) e por uma série de comunidades pastoris até chegar à sede municipal; para quem sai do Lubango, faz-se 46 quilómetros passando pelas localidades da Quilemba Nova, Quilemba Velha e Serra da Humbia.

O troço foi reabilitado há alguns anos, está bem sinalizado e não tem qualquer buraco até pelo menos na Quilemba, mas requer todo o cuidado dos automobilistas devido à passagem do comboio – cuja linha férrea atravessa o asfalto em vários pontos – e a presença de animais, sobretudo bois e cabritos, atravessando a estrada.

Pode-se ainda aceder à Bibala através do município do Camucuio que tem uma via com ligação à Estrada Nacional 100, no troço entre o Bentiaba e a Lucira. Entretanto, a asfaltagem do troço entre Bibala e Camucuio é uma batalha que continua por se vencer. Nesta altura, encontra-se a empresa Telhabel a fazer trabalhos de terraplanagem no referido troço que passa pela comuna do Caitou, no âmbito do plano de emergência do Ministério da Construção e Obras Públicas. Já a estrada que liga a sede municipal à comuna da Lola (EN104), numa extensão de 76 quilómetros, esta começou a ser asfaltada em 2014, e os trabalhos que deviam ser concluídos em 24 meses nunca terminaram e nem passaram dos 12 quilómetros de asfalto. No troço ainda se pode ver a placa da obra e o que restou do estaleiro do empreiteiro Terponte S.A. Se os trabalhos, orçados em 5.700.000,00 kwanzas, fossem concluídos, o passo seguinte seguramente seria a reabilitação do troço de 73 quilómetros entre a Lola e o município de Quilengues, em Benguela, facilitando as trocas comerciais.

 
Terra com comunidades peculiares


O município da Bibala tem 7.612 quilómetros quadrados e cerca de 57.000 habitantes. Com uma população heterogénea, constituída por povos da cultura mucubal, nhaneka humbi, nhaneka muila, kuisses e umbundos, Bibala é uma terra cheia de particularidades.

Começa abraçada pelas montanhas da Serra da Leba que se estendem até a Tundavala, de onde se tem a melhor vista da vila – que primeiro chamou-se Vista Alegre, depois Vila Arriaga, até ser rebaptizada com o nome de Bibala, depois da Independência Nacional.

No sopé da Serra da Leba, descendo uma altitude de cerca de mil metros pelo serpentear da sinuosa estrada, encontra-se a localidade das Mangueiras. O nome diz tudo, ou seja, surgiu do facto de ser uma região com inúmeras árvores de mangas que, entre os meses de Novembro a Fevereiro, enchem os mercados locais. Lá nasceu a praça das Mangueirinhas que se tornou referência não só pela quantidade da fruta à venda, mas por ser a única com barracas de "comes e bebes” ao longo do troço Lubango-Moçâmedes, com as tradicionais fitas (carne de vaca) grelhadas e churrasco de galinha gentia.

Poucos quilómetros mais abaixo, encontra-se a localidade do Capangombe, onde foi construída uma fortaleza, no século XIX, pelo regime colonial, que na altura era utilizada como entreposto para o comércio de escravos. O local foi transformado em instituto técnico médio agrário, com um internato que tem acolhido jovens provenientes doutros pontos do país. A sede da comuna do Capangombe é o Munhino, uma localidade que tem como principal referência a fazenda do serviço penitenciário do Namibe.

No interior do município, encontra-se a comunidade da Montipa, um local famoso pelas suas águas termais, consideradas medicinais pelos nativos. Aqui foi construído um complexo turístico, com piscina para os banhistas que acreditam no poder medicinal das águas quentes cuja fonte é mesmo ao lado. Hoje o complexo encontra-se em estado de abandono, mas a administração afirma que será promovido um concurso público para uma nova empresa que deverá explorar o mesmo.

A serra da Humbia re-serva para si fascinante passagem de comboio por um túnel que, durante alguns segundos, mergulha as carruagens numa imensa escuridão que dá arrepios aos viajantes. A caminho de capital da província, encontra-se, ainda em território da Bibala, a localidade do Caraculo, cujo nome foi atribuído na década de 1940 devido às ovelhas karakul importadas do Turquestão por cientistas alemães do Sudoeste Africano, por serem duma espécie resistente às condições semidesérticas e que até hoje pastam em numerosos rebanhos pela região.


A mesma é atravessada pela Estrada Nacional 280 e pelo Caminho-de-ferro de Moçâmedes, contando ainda com um desvio que dá acesso ao município do Virei.

Bibala surgiu primeiro como povoação, fundada a 1 de Fevereiro de 1912 como um acampamento operário que servia para apoiar a construção do Caminho-de-ferro de Moçâmedes. Em 21 de Junho de 1918, foi criada a circunscrição civil, e em 13 de Dezembro foi elevada a concelho.


Vladimir Prata | Bibala 

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