Entrevista

Entrevista

Terceira região militar foi decisiva para a conquista da independência

Daniel Rufino e Armando Mandume são dois antigos guerrilheiros do MPLA. Na altura da proclamação da Independência Nacional, Daniel Rufino estava destacado nas matas do Cuíto Cuanavale, onde, com um grupo de jovens liderados pelo comandante Kwenha, realizavam acções de guerrilha contra as unidades do Exército colonial português, na região Leste e Sul do Cuando Cubango.

18/11/2021  Última atualização 13H15
© Fotografia por: DR
No Cuito Cuanavale, o Exército português tinha, também, uma companhia de fuzileiros navais, destacada na antiga Vila Nova da Armada (actual sede municipal de Nancova) e que realizavam diversas missões de patrulhamento, ao longo do rio Cuito, e de apoio às tropas portuguesas que operavam no Mavinga, Nerequinha, Rivungo, Dirico, Cuangar, Calai e Mucusso.

Daniel Rufino lembra que os colonizadores portugueses, apesar do poderio militar que ostentavam na altura, passaram grandes dificuldades devido aos difíceis acessos e à complexidade das matas do Cuando Cubango, que facilitava os jovens guerrilheiros angolanos de realizarem as suas actividades de enfrentamento ao Exército português.

Empunhados com canhangulos (espingardas de fabrico caseiro), zagaias, arcos de flechas, catanas, mocas e pedras, os guerrilheiros dos movimentos de libertação não olhavam a meios para lutar contra um Exército português devidamente munido de armas de fogo automáticas, tanques de guerra, meios aéreos e navais.  

"Quem diz que, no Cuando Cubango, não houve acções de guerrilha contra o Exército português, não conhece bem a História da luta armada no país”, afirma, sublinhando que foi naquela região, concretamente no município do Cuito Cuanavale, onde as tropas portuguesas colocaram as suas bases, que eram apoiadas com uma quadrilha de seis helicópteros, para a transportação dos militares, armamentos e alimentação.

O antigo guerrilheiro lembra que os sul-africanos tinham a sua base principal aérea destacada na localidade namibiana do Rundu, limítrofe com o Cuando Cubango, para onde eram, também, levados os militares portugueses mortos e feridos em batalha, para posteriormente serem enviados para o seu país.
O início da guerrilha 

Segundo Daniel Rufino, a guerrilha nas áreas do Cuito Cuanavale iniciou em 1966, quando os portugueses instalaram as primeiras bases militares. Mas foi a partir de 1969 que as acções de combate se intensificaram. Na altura, o Exército português foi obrigado a pedir ajuda aos sul-africanos, para o reforço das tropas na luta contra os guerrilheiros angolanos.

Em 1972 e 1973, foram os anos que se registaram as batalhas mais sangrentas, entre as tropas portuguesas e os guerrilheiros dos movimentos de libertação da Terceira Região Política Militar. A intensidade dos combates foi tal, que os sul-africanos não conseguiram transportar todos os militares portugueses mortos em combate. Alguns corpos foram queimados e outros abandonados nas matas.

Devido a muitas baixas sofridas, os portugueses foram obrigados a recrutar angolanos, sobretudo alguns membros da comunidade Khoisan, para a formação dos Grupos Especiais (GE-311 e GE-324) que foram destacados nas matas para lutarem contra os guerrilheiros do MPLA. "O Cuito Cuanavale sempre foi uma área estratégica para o palco de grandes operações militares, prova disto foram as acções de guerrilha contra o Exército português durante a luta para a conquista da Independência Nacional e a histórica Batalha do Cuito Cuanavale, contra o regime do apartheid que vigorava na África do Sul”, lembra.
Visão de Neto 

Daniel Rufino fala em "visão estratégica” do Presidente Agostinho Neto, que soube liderar homens destemidos que, na sua maioria munidos de instrumentos rudimentares, enfrentaram o colonialista português, num acto de bravura que foi decisivo para a conquista da Independência Nacional, a 11 de Novembro de 1975.

Outro acto memorável, para o antigo guerrilheiro, foi a chegada do Presidente Agostinho Neto à província do Cuando Cubango, em 1978. Lembra que, durante um comício, na cidade de Menongue, ouviu de Neto, pela primeira vez, a palavra de ordem "O mais importante é resolver os problemas do povo”.

A entrega de Daniel Rufino levou o comando a indicá-lo, em 1976, para fazer parte do primeiro grupo de cinco jovens, no Cuando Cubango, para frequentar o curso de oficiais, na Escola Político-Militar Comandante Gika, em Luanda. Durante o curso, que decorreu de 21 de Junho 1976 a 12 de Janeiro de 1977, teve bom aproveitamento e foi patenteado ao grau de segundo tenente, sendo depois transferido para a Quarta Região Política Militar, no Huambo.

"Esta formação era para os jovens que tivessem a  4ª classe. Naquela altura era difícil encontrar alguém, no Cuando Cubango, com este nível de escolaridade, tendo em vista que muitos pais preferiram esconder os filhos nas matas, ao invés de estudarem”, explica.
Reconhecimento dos ex-guerrilheiros 

Daniel Rufino olha para a pensão dos antigos guerrilheiros e pede mais reconhecimento a  àqueles que deram o seu melhor para a Independência Nacional. Afirma que os 23 mil kwanzas que os Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria recebem, como subsídio de pensão mensal são irrisórios face às necessidades actuais.

Com tristeza estampada no rosto, revela que muitos ex-guerrilheiros, no Cuando Cubango, não recebem o subsídio que têm por direito, devido à burocracia no cadastramento no sistema do fundo de pensão dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria. Hoje, estão entregues à sua sorte. "Verificamos a maior parte dos antigos combatentes nem sequer têm uma residência ou um subsídio que justifique do grande contributo em prol da libertação do país”, lamentou.

Daniel Rufino manifestou-se, igualmente, preocupado com a "falta actualmente de sentido patriótico da juventude”, uma vez que "tudo que faz é por dinheiro ou interesse pessoal”. "Naquela altura, com ou sem condições, as pessoas tinham de cumprir o dever de defender a pátria, porque estava em jogo a defesa da integridade territorial do país e a preservação da vida de milhares de angolanos”, sublinha.
Há ganhos da Independência 

Armando Dala Mandume entrou no serviço militar em 1975, com 27 anos. Hoje, com 74 anos e depois de ter exercido vários cargos (foi administrador municipal do Cuchi e cumpriu dois mandatos de deputado à Assembleia Nacional) lembra o passado de sacrifício, mas prefere olhar para os ganhos que a Independência Nacional proporcionou, principalmente na província do Cuando Cubango.

A construção de várias unidades sanitárias, com destaque para o Hospital Geral do Cuando Cubango, e o melhoramento na assistência médica e medicamentosa na província, é uma das grandes conquistas, segundo Armando Dala Mandume.

Ao "Jornal de Angola”, refere que a região continua a registar grandes ganhos, se se comparar com a época colonial, quando Menongue contava apenas com um hospital e um médico. Apenas um número muito reduzido de trabalhadores (assimilados) tinham acesso aos Serviços de Saúde. Fala da construção e apetrechamento de mais de 100 escolas, na província, que tem permitido, cada vez mais, garantir o acesso de crianças e jovens no sistema normal de ensino, nos nove municípios da região.

Entre as estruturas existentes na província destacam-se, ainda, a central de captação, tratamento e distribuição de água potável, com capacidade para bombear 11 mil metros cúbicos por dia, as centrais térmicas do Macueva e do Kwebe com 10 e 50 megawatts, respectivamente, assim como o Aeroporto Comandante Kwenha, que foi reabilitado e ampliado para receber aviões de grande porte, como a Boeing 777-300 ER.

Foram ainda construídos e reabilitados, em toda a província, mais de 500 quilómetros de estrada das principais vias, dezenas de pontes e pontecos, que facilitam, sobremaneira, a circulação de pessoas e mercadorias. A Universidade Cuíto Cuanavale, Instituto Superior Politécnico Privado de Menongue (ISPPM), o Estádio Municipal, o Tribunal da Comarca de Menongue e o Cemitério Municipal, fazem parte dos empreendimentos de vulto construídos e que representam o estado de paz que o país vive.

Assim como, a construção da Escola Nacional de Fiscais Ambientais, o Canal de Irrigação e o Centro de Larvicultura e Engorda do Missombo, assim como a circulação regular do comboio do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes (CFM) entre as cidades de Menongue, Lubango (Huíla) até ao Namibe que tem permitido o transporte de pessoas e bens.

Armando Dala Mandume sublinha que, apesar dos esforços empreendidos, muitos investimentos ainda devem ser feitos, para a melhoria dos indicadores sociais, com maior realce para o combate à fome e à pobreza. Esforço, no seu entender, deve ser canalizado, também, para acções que levem a redução do desemprego na juventude, apontado como um dos motivos do aumento da criminalidade e da prostituição na região.                                  
Cadeia de Missombo
A 16 quilómetros da cidade de Menongue, está a cadeia de Missombo. Construída pelo Governo colonial português, entre 1961 e 1962, funcionava como campo de repressão colonial. A estrutura, hoje em estado avançado de degradação, foi palco de sofrimento de valorosos guerrilheiros da luta de resistência colonial, com realce para alguns presos políticos do "Processo 50”, como Imperial Santana, Salvador Sebastião, Paiva Domingos da Silva, Manuel Pedro Pacavira, Virgílio Francisco Sotto Mayor, Afonso Dias da Silva, David Massango Machado (Minerva), Pedro José Van-Dúnem e outros.

Construída na altura de pau-a-pique e arame farpado, foi o cativeiro de mais de 800 prisioneiros oriundos, maioritariamente do Norte de Angola. "Era difícil escapar das cadeias, porque havia guarnição por todos os lados e o preso que tentasse fugir era morto de imediato, ao passo que os que resistiram não gozam de boa saúde, devido aos maus tratos e trabalhos forçados a que estavam sujeitos”, lamentou, para apelar às autoridades no sentido de preservar as estruturas de Missombo para que as novas gerações entendam o sacrifício e o heroísmo dos nacionalistas.  

Um dos mais importantes lugares da história do nosso país, ligado à luta de libertação e interdependência nacional, a Cadeia de Repressão Colonial do Missombo" é Património Histórico-Cultural Nacional, através do Decreto Executivo 62/18, de 20 de Abril.

O Governo do Cuando Cubango tem em carteira a reabilitação e transformação das cadeias do Missombo em complexo museológico, enquadradas nas obras do PIIM. Está prevista a construção de uma escola de artes e ofícios, posto médico, quiosques, restaurante, parque de estacionamento, anfiteatro, hospedaria e a criação de zonas turísticas.


Carlos Paulino e Weza Pascoal | Menongue

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Entrevista