Opinião

Tempo de indignação

João Melo*

Jornalista e Escritor

Apesar de ainda faltar entre uma a duas semanas para terminar a avaliação sobre os verdadeiros riscos da nova variante da Covid-19 – Ómicron -, as primeiras observações dos cientistas são animadoras. Aparentemente, a Ómicron, embora mais contagiosa do que as variantes existentes até agora, é muito menos perigosa, possuindo um grau de letalidade muito inferior.

08/12/2021  Última atualização 09H39
O epidemiologista alemão Karl Lautberbach disse mesmo, há dias, que a Ómicron era "um presente de Natal”, pois, ao sobrepor-se às variantes anteriores, poderá contribuir para a extinção da pandemia. A afirmação corrobora declarações similares feitas por cientistas sul-africanos.

Isso tudo, por enquanto, são hipóteses. Mas o facto é que, quase duas semanas depois do seu anúncio, não houve notícia de nenhuma morte causada pela Ómicron.


Os seus sintomas, considerados leves, são apenas febre, tosse e dor de garganta. Outro facto: na África do Sul, 90% dos hospitalizados com Ómicron são pessoas não vacinadas (alguma semelhança com o que se passa em todo o mundo, com indivíduos contaminados por outras variantes da Covid-19?).

Vivemos, contudo, uma era em que os factos valem menos do que as versões, as crenças de cada um e até do que as falsidades "puras e duras”. É por isso que, mau grado os sinais animadores existentes, o clima de histeria criado pela imprensa mundial a propósito da descoberta da Ómicron teima em persistir. Tal histeria tem, volto a dizê-lo, contornos inadmissíveis e cada dia mais intoleráveis.

É por isso, por exemplo, que embora tenha sido noticiado que, na Holanda, já tinham ocorrido dois casos de Ómicron antes da chegada ao país de passageiros com a mesma variante provenientes da África do Sul e apesar, igualmente, de ser sabido que a mesma está espalhada por vários continentes, o assunto continua a ser tratado pelos jornalistas preguiçosos (no mínimo) que pululam pelas redacções como se a origem dessa nova variante fosse, comprovadamente, da África do Sul. E – pergunte-se – mesmo que o fosse? Seria razão para o comportamento do mundo "civilizado” (bota aspas nisso, como diriam os brasileiros) em relação aos países da África Austral, por causa da Ómicron?

Além do fechamento das fronteiras, alguns países ocidentais têm ido mais longe nos seus patéticos exercícios de estupidez. A recusa da União Europeia em aceitar os certificados de vacinação anti-Covid-19 dos cidadãos africanos que tomaram a AztraZeneca – doada pela própria União Europeia! – é disso um exemplo. Não colhe, diga-se, o argumento de que a medida abrange apenas os lotes fabricados na Índia, pois, além da AztraZeneca ser uma farmacêutica europeia, os referidos lotes foram oferecidos no âmbito do Covax, um mecanismo do qual a União Europeia faz parte.
Há poucos dias, soube-se de outro facto espantoso: o Canadá declarou não aceitar os testes PCR feitos na África do Sul, Botswana, Egipto, e-Swatini, Lesoto, Malawi, Moçambique, Nigéria e Zimbabwe. Sim, o mesmo Canadá que açambarcou cinco vezes mais vacinas do que a sua população e, recentemente, teve de inutilizar milhões de doses expiradas da vacina anti-Covid-19.

A decisão das autoridades canadenses foi ironizada pela sul-africana Claudia Gastrow no Twitter: - "Os nossos cientistas são tão bons que descobriram e sequenciaram a Ómicron. Somos líderes em pesquisa anti-HIV, mas o Canadá não aceita os nossos testes?”, perguntou ela.

Outro facto é que, apesar do boicote ocidental ao fornecimento de vacinas à África, o número de mortes em todo o continente devido à Covid-19 é largamente inferior ao do resto do mundo, pelo que só é possível uma conclusão: o tratamento discriminatório de que os países africanos estão a ser vítimas, a pretexto da Covid-19, é tão burro, que só pode ser outra coisa. "Racismo” – insista-se - é o nome dessa outra coisa.
Está na hora do mundo se indignar, a começar pelos nossos países.

* Jornalista e escritor

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