Entrevista

“Temos capacidade para produzir 500 mil contadores pré-pagos por ano”

Vânia Inácio

Jornalista

Num investimento de 20 milhões de dólares, a Hengye Electronics - Indústria S.A. é uma fábrica de contadores pré-pagos eléctricos e de água. Propõe-se colocar, anualmente, no mercado nacional, 500 mil aparelhos de medição de consumo destes dois importantes produtos vitais.

05/05/2022  Última atualização 12H45
© Fotografia por: DR

Num investimento de 20 milhões de dólares, a Hengye Electronics - Indústria S.A. é uma fábrica de contadores pré-pagos eléctricos e de água. Propõe-se colocar, anualmente, no mercado nacional, 500 mil aparelhos de medição de consumo destes dois importantes produtos vitais. De acordo com o presidente do Conselho de Administração, Frederico Walamba Pinnock Makilanda, a unidade fabril está localizada na Zona Económica Especial (ZEE) Luanda-Bengo. Possui mais de 500 colaboradores, dos quais 35 por cento são mulheres, que garantem a produção, montagem e instalação dos dispositivos.

 A Hengye Electronics - Indústria S.A. é uma fábrica que se dedica à produção e montagem de contadores pré-pagos de electricidade e de água. Como e há quanto tempo surgiu a ideia da criação desta unidade?

O projecto começou há mais de quatro anos, quando nos apercebemos das necessidades que as empresas de distribuição de energia e água enfrentavam para a aquisição dos referidos aparelhos pré-pagos, que servem de medição e controlo efectivo do que se consome. Para tal, queríamos encontrar uma solução para reduzir a importação destes importantes aparelhos. Depois de um aturado estudo de mercado, através de um investimento feito, obtivemos um terreno na Zona Económica Especial, onde construímos duas naves para a produção e começarmos a servir o país.

Qual o capital social da empresa ou então o investimento para dar corpo a esta iniciativa?

A Hengye Electronics – Indústria S.A. faz parte do Grupo Zhejiang Hengye Electronics da República da China. No entanto, somos uma empresa de direito angolano com um capital misto (chinês e angolano), constituída com um investimento que ronda os 20 milhões de Angola.

Qual é a capacidade de produção da empresa?

Inicialmente, contamos com uma capacidade de produção anual de 500 mil contadores pré-pagos de baixa tensão e industriais, todos eles com a certificação STS e com o sistema de gestão por intermédio do nosso Data e Call Center (estamos a falar do suporte técnico e gestão de reclamações e avarias). Para essa primeira fase, iremos produzir 300 contadores eléctricos e 200 mil contadores de água.

Para quando a empresa deve atingir o máximo da sua capacidade de produção e até quando pensam obter o retorno do investimento?

Temos estado a analisar com as empresas do sector várias propostas, que irão ajudar a cobrir o défice que existe no mercado nacional e também ajudá-las a melhorarem as suas as receitas operacionais.

Só uma observação, a fábrica já está operacional ou é tudo isso ainda simples intenção?

Já se encontra em funcionamento desde o 1º Trimestre do corrente ano e pronta para atender as solicitações das empresas do sector. Deixa mesmo acrescentar que relativamente às vendas, sendo a Hengye Electronics - Indústria S.A. uma unidade fabril de contadores, os principais clientes são as empresas do sector de Energia e Águas. Entretanto, os particulares também podem adquir directamente os produtos, desde que tenham o aval das empresas do sector que, em última instância, são responsáveis pela instalação. Já os nossos preços estão em linha com os praticados ao nível internacional, mas por se tratar de uma fábrica local, composta por mão-de-obra nacional, isto torna-os mais competitivos, em comparação com as  empresas importadores que estão no mercado.

Em termos de capital humano, gostaríamos de saber quantos colaboradores têm?

Possuímos mais de 500 colaboradores angolanos na nossa base de dados, que garantem a produção, montagem e instalação dos aparelhos. Destes colaboradores, 35 por cento são mulheres com uma média de idade entre 25 e 30 anos.

O que o país ganha como benefício com a entrada da Hengye?

Sou dos que acreditam que a economia de um país depende do sector privado, tal como refere Bernard Arnaud, dono da marca multinacional Louis Vouiton. Queremos ajudar a industrializar Angola. Queremos ajudar o Estado angolano a reduzir os custos com a importação e deixar de recorrer às reservas líquidas de moeda estrangeira. Acreditamos que com uma fábrica local de contadores pré-pagos, vamos ajudar as empresas do sector de distribuição de água e energia a aumentarem as receitas operacionais, diminuir custos com a importação, sem que para tal se use obrigatória ou necessariamente divisas. Por outro lado, ao garantirmos postos de trabalho, estamos, também, a pensar na juventude, que representa mais de 70 por cento da população angolana. Sem esquecer que, deste modo, estamos também a valorizar a nossa indústria e a diversificar a economia nacional.

O país já tem outras empresas que fornecem contadores. Como vocês olham para a concorrência? Qual a vossa vantagem competitiva?

Numa economia de mercado, a concorrência é sempre bem-vinda e até constitui um estímulo para a auto-superação em termos de qualidade. Entretanto, há aqui um facto adicional que quero frisar. A Hengye não é um revendedor, mas sim um fabricante, com uma capacidade global de mais de 70 milhões de contadores pelo mundo. Em termos tecnológicos, partimos com uma certa vantagem em relação à concorrência. Por exemplo, os leitores dos nossos contadores de água são leitores magnéticos. E sobre os contadores eléctricos, temos a protecção contra a fraude ou violação. Ou seja, o bloqueio automático. Portanto, a concorrência não nos assusta. É mais um estímulo.

E em relação aos vossos clientes mais directos, as empresas ligadas à distribuição de energia e água?

Vamos contribuir para a inclusão dos consumidores. Entendemos que é deveras importante estabelecer uma relação mais próxima entre os prestadores de serviços e o cliente final. Com os contadores pré-pagos, os clientes poderão ter um melhor controlo sobre o consumo diário e, daí, poderão fazer uma melhor gestão do orçamento ou despesas familiares.

Porquê escolhestes a ZEE para implantar o projecto?

Estar na ZEE tem muitas vantagens competitivas. Por exemplo, as infra-estruturas, a energia e a água corrente, a segurança, a telecomunicação e, por último, a localização geográfica, também o facto de estar situada na província mais populosa do país. E não poderíamos deixar de fora o profissionalismo e seriedade da Administração da ZEE Luanda-Bengo, que tem sido preponderante para o nosso desempenho, em particular, e do crescimento e diversificação da economia angolana, no geral.

A Hengye irá limitar-se a Luanda ou pensa expandir-se para todo o país?

Isso irá depender muito das necessidades do mercado, falo da solicitação das empresas do sector. Não obstante, pensamos ter representações em todas as províncias, de modo a fornecermos suporte técnico, com qualidade, aos nossos aparelhos.

Qual o perfil de um funcionário ou candidato a funcionário da HE?

É simples. Se estivermos a falar da linha de produção, necessitamos de um técnico médio, com conhecimentos básicos sobre electricidade: um "bom angolano”, como se diz (risos). Que tenha sonhos e que aspire acompanhar o desenvolvimento da nossa empresa. Além disso, a posta na formação poderá ser o principal pilar para a sustentabilidade da nossa empresa. Acreditamos que os nossos candidatos devem ter, além do know-how, o perfil do bom patriota.

A nível do Grupo Zhejiang Hengye Electronics, que projectos existem em carteira para o nosso país?

O Grupo Zhejiang Hengye Electronics tem em carteira entre cinco outros projectos de construção de fábricas por todo o país e em vários domínios da economia nacional, que irão gerar mais de 4 000 empregos directos e outros tantos indirectos. Outrossim, estamos num processo de aquisição de licença para a exploração de madeira com o Ministério da Agricultura. Se tudo correr bem, alguns destes projectos poderão conhecer o seu lançamento ainda este ano.

Como jovem, que mensagem tem a passar à juventude angolana?

Devemos crer no nosso potencial, na nossa criatividade, ser persistente e ter muita fé. Este país é nosso. E tal como diz um amigo meu: "Ninguém recua”. Nós, jovens, durante alguns anos acompanhámos as reformas que tem sido implementadas  pelo Estado angolano o que nos dá confiança de que podemos industrializar esse país. Importamos quase tudo. Por que não começarmos a produzir localmente? Como Pierre Corneille dizia: "Vencer sem riscos é triunfar sem glória”.

O que recomendariam a um investidor estrangeiro que deseja vir para Angola?

Que venha conhecer a realidade de Angola! Desde 2017 que o Executivo angolano tem trabalhado de forma séria para a criação de um bom ambiente de negócios, com reformas, tanto económicas, como também na luta contra a corrupção e branqueamento de capitais. Podemos destacar a Lei sobre o Investimento que, entre outras coisas, já permite que um investidor estrangeiro faça negócios em Angola, sem que necessite obrigatoriamente da participação de angolanos na estrutura social. Existem, também, as vantagens fiscais oferecidas, durante um determinado período, dependendo do investimento. Por outro lado, a própria posição geográfica do nosso país, a sua ligação ao mar, a vasta fronteira que possui com quatro (4) países, que na verdade são quatro (4) grandes mercados potenciais. Não devemos também esquecer as questões de geopolítica, a adesão ao Mercado Livre Africano, o historial de Angola e a forma como conseguiu pôr cobro ao conflito interno, conferem ao nosso país uma imagem internacional de estabilidade. Agora, é preciso que mais investidores estrangeiros tenham a coragem de dar o próximo passo, porque só isso é que efectivamente irá tornar real todo esse cenário.

Também pretendem apoiar Startups angolanas?

A Hengye Electronics Indústria S.A. não é uma startup, mas sim uma fábrica que faz parte de um grupo chinês de grande envergadura, como sabe. Entretanto, fomos convidados para estar no Web Summit de Stastups, iniciativa do Ministério da Economia e Planeamento com a ZEE, a decorrer de 12 a 16 de Maio. Pela magnitude do evento, far-nos-emos representar de certeza.

Perfil

Frederico Pinnock Makilanda

Função: Presidente do Conselho de Administração

Idade: 39

Outras habilidades: Coleccionador de Arte africana

Visão sobre o Sector: Tem muita margem de crescimento, se levar em conta o grande gap que ainda existe no fornecimento  de contadores ao nível do país

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