Especial

Tarrafal: a prova da crueldade do regime colonial de Salazar

Béu Pombal

Jornalista

Tristemente célebre, o Campo de Concentração de Tarrafal- Chão Bom, situado na ilha de Santiago, em Cabo Verde, continua a ser a prova inequívoca da crueldade praticada pelo regime fascista português, de 1962 a 1974, que tinha à cabeça António de Oliveira Salazar e, nos seus últimos tempos, Marcelo Caetano.

17/11/2021  Última atualização 06H35
Cela onde eram mantidos os presos angolanos
Passaram pelo Centro Penal de Tarrafal 106 angolanos, que faziam parte de grupos de diferentes orientação política (MPLA, UNITA e FNLA). Estes angolanos foram desterrados para ilha de Santiago por estarem inconformados com a re-pressão fascista e procuravam, então, fórmulas para derrubar os comandados de Salazar que, em Angola, e nas outras colónias, não davam espaço para nenhum tipo de liberdade aos próprios donos da terra.

Entre os angolanos que padeceram nas masmorras de Chão Bom, cujas idades estavam na faixa dos 20 aos 70 anos, havia intelectuais, jovens com formação técnico-profissional e superior, estudantes com níveis bem avançados, operários, médicos, engenheiros, enfermeiros, funcionários de serviços públicos, escritores e músicos. Era um grupo bastante heterogéneo. Pelo seu posicionamento político e intelectual, inquietava a PIDE/DGS, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado português, cuja finalidade era perseguir, prender e interrogar qualquer indivíduo que fosse visto como inimigo à ditadura salazarista.



Primeiros presos angolanos chegaram em 1962

A cela dos angolanos tinha as mesmas dimensões que aquelas onde estavam os presos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Pouco mais de 50 metros de comprimento e cerca de 15 de largura, com um quarto de banho exíguo, com latrina e uma torneira, onde escorria água sistematicamente.

Inicialmente, em 1962, um ano depois dos ataques do 4 de Fevereiro de 1961, que marcaram o início da luta armada no país, a cela albergou 31 indivíduos.


Portanto, o primeiro grupo de presos angolanos que pisou o solo cabo-verdiano era composto por 31 elementos. Entre eles constavam os destacados nacionalista Adriano Mendes de Carvalho, José Diogo Ventura, António Cardoso, Carlos Alberto Van-Dúnem, entre outros, que eram os principais alvos a "abater” da PIDE/DGS, pouco depois 1957, quando em Angola, particularmente em Luanda, a luta na clandestinidadeganhava corpo.

Pouco depois de 1962, segundo os arquivos do Centro Prisional, a que o Jornal de Angola teve acesso, o regime colonial transferiu de Angola para Tarrafal um grupo de 65 presos. Alguns, que integravam o elenco tinham sido condenados no célebre julgamento do Processo 50.  A esmagadora maioria tinha sido preso em 1958 e 1959, pela PIDE, e acabaram por ser julgados pelo Tribunal Militar de Luanda, em finais de 1960.

O grupo dos primeiros que conheceram as amarguras do cárcere de Tarrafal, do qual também fazem parte João Fialho da Costa, Manuel Bernardo de Sousa, Armando Ferreira da Conceiçao, José Diogo Ventura, não passaram pelas piores sevícias, segundo relatos de muitos deles, que podem ser consultados em documentos arquivados no centro.


Tinham direito a ir à missa, biblioteca, praticar desporto e algumas actividades recreativas, tudo dentro do centro prisional. Tinham ainda aulas de línguas e outras disciplinas do currículo escolar de vários níveis de ensino, na altura.Durante alguns anos, a cela chegou a ficar com cerca de 70 pessoas, porque todos os anos chegavam presos. Alguns também eram libertados, mas o número que saía era inferior ao que entrava.

A vingança de Salazar contra os anti-facistsa

O campo de concentração de Tarrafal foi construído em 1936 a mando de António Salazar. A pretensão era de encarcerar neste lugar os seus opositores, aqueles que se revelavam anti-fascistas. Os primeiros portugueses que chegaram à cadeia foram severamente torturados em termos globais.


A cadeia

A infra-estrutura da cadeia não oferecia condições para albergar presos. O quintal era cercado de arame farpado, morros de areia e o mar estava logo a volta. Não havia habitações nas redondezas. Em 1953, a cadeia foi encerrada para obras. Só foi reaberta em 1962, altura em que passou a receber os primeiros presos angolanos. A época marcou a segunda fase da reactivação da cadeia, quando as autoridades nas antigas colónias portuguesas, concretamente em Angola, Guiné-Bissau e no próprio país, Cabo Verde, começaram a enviar presos para o local. Há registo de 33 portugueses, dois angolanos e dois guineenses que não resistiram aos maus tratos e acabaram por morrer. Foram sepultados no cemitério Municipal de Tarrafal.

Triste memória da história de Chão Bom

"Chegamos ao Sal através de um avião militar. Entrámos no quintal, de onde só saí 10 anos depois”. Este é um dos depoimentos de Mendes de Carvalho, ao jornalista cabo-verdiano José Vicente Lopes, que constam nos arquivos de Tarrafal.O trecho completo diz o seguinte: "Chegamos ao Sal através de um avião militar.


Aí tomamos um barco da Marinha de Guerra. Como era pequeno, por medida de segurança, fomos separados. Os mais perigosos vão primeiro. Mendes de Carvalho!.. E lá seguimos. Fomos recebidos por José Pedro Queimado Pinto, subimos nos camiões e entrámos no quintal, de onde só saí 10 anos depois”.

Adriano Mendes de Carvalho, nacionalista que já não faz parte do mundo dos vivos, estava entre os considerados "mais perigosos” pela PIDE/DGS, por ter sido muito activo na mobilização dos seus compatriotas para a adesão à luta na clandestinidade. Foi com este rótulo que foi desterrado para a ilha de Santiago. As autoridades coloniais, em Luanda, fizeram recomendações especiais para terem cuidado com o então recluso.


De acordo com os registos, o jornalista cabo-verdiano perguntou: "Que sentimento lhe veio à cabeça quando vocês entraram no campo?”

Ao que Mendes de Carvalho respondeu: "Alguns soldados da Marinha, ao nos verem, comentaram entre si: ‘Estes não voltam, vão morrer por lá. Se os portugueses que lá estavam morreram...’ Mas havia outros que nos diziam:‘coragem’. Vimos o panorama. O panorama do Sal era bonito, depois em Santiago, as montanhas também eram bonitas...”


Mais uma pergunta: "O vosso dia-a-dia em Tarrafal, como era?”

"Já tínhamos ouvido falar do Tarrafal, as histórias que nos contavam entre alguns presos portugueses, de delito comum, que estavam connosco ainda em Luanda. Não sabiam que nós íamos para o Tarrafal, nem nós sabíamos, mas iam contando coisas do Tarrafal. Sabendo disso, tomamos todas as medidas cautelares.

Os soldados que nos acompanharam daqui para lá achei que iriam nos fazer a vida cara. Outros cabo-verdianos, policias, auxiliares iam nos dando informações de longe. E habituamo-nos.
Depois de Queimada Pinto, vieram mais dois ou três directores e, portamo-nos muito bem. Havia um tal Adelino Fernandes, natural do Tarrafal, que era secretário da cadeia, e a mulher dele, nossa conterrânea, era escriturária. Na Praia estava a Mementa, casada com um enfermeiro, que nos dava apoio moral de todas as maneiras e feitios. E quando podia passar-nos um bilhete; às vezes, era apanhada pela polícia e lá sofria qualquer coisa”.
"Quando saímos de Angola,não sabíamos para onde íamos”.
O jornalista José Vicente Lopes entrevistou, também, Beto Van- Dúnem, que, como tantos outros, passou pela cadeia. Hoje já não estão entre nós.
 
Porque razão foi parar a Tarrafal?
"Nós, do Processo 50, é que iniciámos a luta clandestina para a independência de Angola. Por orientação de Ilidio Machado e Higino Aires, alguns de nós estiveram com Viriato da Cruz, recebeu as orientações etc. sobre o que deveríamos fazer. Éramos jovens, mas naquele tempo já tínhamos o sentimento de revolta em relação àquilo que a Polícia colonial fazia  aos africanos”.


E foram presos em que ano?
Em 1959. Fomos julgados em 1960 e princípios de 1961. No meu caso, fui condenado a três anos de cadeia, com medidas de segurança. Portanto, de seis meses a três anos. Isso fez com que a gente estivesse na cadeia o tempo superior à condenação”.


Lembra-se de quando chegou a Tarrafal?
"Fomos num avião da Força Aérea Portuguesa. Saímos daqui às 10 horas da noite, o voo durou 11 horas, de Luanda a Sal. Foi um Hércules, avião com hélices, quatro motores. Estávamos algemados nos bancos e os polícias estavam com metralhadoras.

Quem quisesse ir a casa de banho tiravam-lhe as algemas e um polícia o acompanhava. A pessoa urinava, mas com a arma apontada nas costas.Chegamos às 7h00 da manhã, na Ilha do Sal. Desembarcámos, meteram-nos numa cerca, uma espécie de quintal, com um metro de altura. Estava uma corveta portuguesa ao largo e ficámos à espera da lancha para sermos embarcados para Tarrafal.
Uma das coisas que nos animou, que nos deu uma certa confiança e uma certa força, foi que, quando chegamos ao Sal, no local onde fomos colocados, cercados por tropas portuguesas, que eram na maioria jovens, entre os 22 e 30 anos, um alferes, que era o comandante das tropas, aproximou-se de nós e disse: ‘ Olhem, amigos, vocês não tenham medo, tenham calma, estamos aqui e temos o mesmo pensamento que vocês.

O que pudermos fazer para vos defender, faremos’. Fomos depois metidos na lancha e, de seguida, num barco de guerra. Lá seguimos para o Tarrafal. No Tarrafal, entramos de novo numa lancha e levados para a terra de onde saímos a pé até ao Campo de Chão Bom”.



A ideia que teve de Tarrafal construiu-a de que forma?
Os indivíduos mais velhos, Viriato da Cruz e Ilídio Machado, quando nos mentalizavam nas reuniões diziam: ‘Um dia, se os portugueses nos apanharem, não tenhamos dúvidas absolutamente nenhumas, matam-nos! Porque os próprios portugueses que lutavam contra a ditadura, eles enviaram-nos para Tarrafal e acabaram por morrer lá. Quando saímos de Angola, não sabíamos para onde íamos, só quando chegamos lá, através da tropa, é que ficamos a saber que estávamos em Cabo Verde, na Ilha do Sal. E o sentimento que me veio à cabeça era o que os mais velhos diziam: " Bom, aqui, agora acabou! É para um indivíduo morrer".     


A cadeia como Património da Humanidade
As autoridades cabo-verdianas estão a empreender uma ofensiva política e diplomática para transformar o Centro Prisional em património da Humanidade. "Pela importância histórica do empreendimento e com os argumentos que estão a ser apresentados pelas autoridades de Cabo Verde, acredito que tarde ou cedo este centro vai receber o certificado de Património da Humanidade das Nações Unidas”, disse Samora Moreira, um dos responsáveis pela Administração de Tarrafal. Actualmente, o centro está transformado numa espécie de museu. Diariamente, recebe turistas de várias partes do mundo, particularmente pessoas que se interessam pela história universal.

Holandinha ou Frigideira é um espaço de dois metros quadrados usado como cela. Era um autêntico inferno para quem tivesse o azar de ir lá parar.


Os carrascos usavam o local para castigar os presos que cometiam indisciplina. Alguns chegaram a ficar encarcerados nesta "Jaula” por dois meses.

O nome Frigideira se deve ao facto de, em função da estrutura apertada, as temperaturas internas serem muito altas. Já Holandina, porque muitos reclusos gostariam de conhecer a Holanda. Então, quando fossem para lá, é como se tivessem a passar umas férias na Holanda. Uma espécie de sarcasmo. 


Béu Pombal | em Tarrafal

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