Opinião

Tão perto e tão distantes

Manuel Rui

Escritor

Apareceu recomendado, muito tímido, o jovem estucador, fiquei mirando o seu trabalho cuidadoso, parecia um escultor, quase não falava, eu é que lhe puxava conversa sobre a vida, pesada, só de biscatos, a companheira de limpeza numa casa da cidade, cuidadosos, ainda não ganhavam para terem filhos, raro, muito raro, este pensamento entre os despossuídos.Apareceu recomendado, muito tímido, o jovem estucador, fiquei mirando o seu trabalho cuidadoso, parecia um escultor, quase não falava, eu é que lhe puxava conversa sobre a vida, pesada, só de biscatos, a companheira de limpeza numa casa da cidade, cuidadosos, ainda não ganhavam para terem filhos, raro, muito raro, este pensamento entre os despossuídos.

05/05/2022  Última atualização 10H40

Ele não queria parar para o almoço oferecido ou não queria o  almoço por vergonha mas acabou almoçando na confissão de que noutras casas onde fizera biscato nunca lhe tinham tratado assim. Tomou coragem e pediu livros, tá bem quando acabar a obra, livros autografados. Acabou a obra. O preço? Eu achei que era pouco, acrescentei. Ele falou que assim também era muito. Foi com o dinheiro, livros e um cartão com o meu telefone. Fiquei a pensar que poderia não ser uma pessoa mas um emissário da nossa ancestralidade.

Tempos depois, o quadro trifásico de minha casa, depois de dois apagões de vem e cai luz, incendiou, a casa toda escura, o fumo quente, tóxico, fui à janela e gritei socorro. O resto não conto. Só o nome de quem  nos  salvou a vida: o jovem Mingo que, de lanterna na testa e ferramentas, subiu o meu telhado, deu de homem-aranha trepando pelas grades e entrando pelo terraço e pronto. Estou vivo.

Mas continuamos a viver muito perto e muito distanciados. É a montanha de gente que se acumulou por mor das guerras, trouxe sua identidade que anda por aí com tantas outras. Esta cidade era do invasor ocupante. Com sua idiossincrasia mesclada pelo estar e o quase ser em África. As populações que tiveram de largar seus kimbos para chegarem a Luanda, traziam outra imagética simbólica os reis do Bailundo, das embalas dos grandes sobas que nada tinham a ver com os arranha-céus.

Mas veio gente de trabalho variado e muito necessário. Gente que não lê jornal e nem tem dinheiro para colocar anúncio a oferecer o seu trabalho. Aliás, basta ler os anúncios neste jornal e o oferecesse …é sempre a mesma coisa.

Um domingo em Joanesburgo. Sábado tínhamos estado a discutir sobre o problema das terras e os problemas do trabalho.Então, domingo de manhã, levaram-me a um espaço, com degraus, tipo bancada desportiva e tabuletas distintivas: SAPATEIROS,ALFAIATES, PEDREIROS, ELECTRICISTAS, CARPINTEIROS, CONTABILISTAS, COZINHEIROS, etc., etc..

Então quem procurava, falava com as pessoas, escolhia, tinham minutas para contrato e muita, muita gente saia dali empregada. Quem sabe, eu montar uma banca de cartas de amor.

Não podíamos fazer isto lá naquela escadaria para atos públicos, ao domingo, as pessoas encontrarem-se para umas prestarem serviço a outras e ficarem a conhecer-se melhor e aumentarem a rede social de conhecimentos que se podem transformar em fraternidade e, por isso, ficarmos mais próximos?

Se calhar estou a dizer asneira grosso porque, quem sabe, isto já foi pensado pelos empregadoristas, os desempregadoristas e os empreendedoristas que eu nunca percebi o que é…será que vamos prosperar com cada jovem a vender quitaba a quem compra jinguba? Tem aqui algum milionário, desses de cartola e charuto em Nova York que foi empreendedorista?

Mas andamos muito próximos e muitos distantes. Dois dias sem luz. Comprei um radinho de pilhas para saber da situação. Pergunto: não é dever social informarem a sociedade sobre o que se tá a passar com a falta de luz em vez de música e só música? Estou a falar assim porque li no jornal uma pessoa do sistema a teorizar sobre a nossa liberdade de imprensa e é em nome dela que desabafo. Também, o tio Jorge não chegou de manhã mas só ao fim da tarde. Falou em autocarros que não deixavam passar. Não acredito. Se está errado cortem que coisas erradas não devem passar nos jornais. A liberdade de imprensa é para a verdade.

Pois é. Próximos e tão distantes. Os finalistas das escolas e universidades, mesmo essas de cuspe e giz, não fazem viagens de Luanda para o Huambo. Do Lubango para Cabinda. Fazendo Jogos de futebol, basquete ou andebol. Espetáculos, leitura de poesia e outras maneiras de convívio, bailaricos sem falta nas kizombadas da gente. Isso é que faz falta. Isso é que une mais a unidade nacional. Devia haver uma frota para cada província afeta a estas excursões.

As fotografias, os vídeos, as redes sociais, as recordações que ficam, depois, todos os daquele curso reúnem, recordam cantigas com saudade que se vai multiplicar nos cursos seguintes que já são as viagens de finalistas dos filhos a cantar  cantigas do antigamente que ninguém mais vai esquecer.

Vamos deixar de estarmos tão distantes porque para levantarmos a paz deste país tivemos  de fazer uma barricada de corações. Vamos cada vez mais unir mais os nossos corações que não se podem partir pelos partidos.

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