Opinião

Tango, o canibal do Semba

Leonel Kassana

Jornalista

De há uns anos a esta parte, o Semba, enquanto dança de salão, tem vindo a transformar-se de forma quase radical. Os da geração de Elias dya Kimuezu, David Zé e Artur Adriano que aprenderam a escrever o nome da dama no chão, hoje se sentem ultrapassados, quase despedidos dos salões de festas, quando ensaiam os passos de Semba aprendidos há mais de 40 anos.

30/10/2019  Última atualização 08H25

A velha passada que levava a dama a rodopiar pela pista de dança foi substituída por certos maneirismos copiados do Tango argentino. Esta nova coreografia e passadas à Tango podem ser observadas muito particularmente nos concursos de danças de salão, onde as damas se estiram perpendiculares nos braços do par, ou de perna cruzada à altura da cintura do parceiro de dança, bem como os toques de pés sincronizados. Mas também nas festas familiares, em salões alugados ou nos quintais dos bairros se pode observar este "desvio" latino-americano.
Esta assimilação via Internet dos passos da marcha do Tango formatou uma nova modalidade de dança que oscila entre o estilo Kizomba e o Tango, e quase já não tem nada de Semba. Quer dizer que o Semba, enquanto dança de salão, está a desaparecer, pois que esta nova passada dançante não pode ser chamada de Semba.
À primeira vista, poder-se-ia aplaudir esta “criatividade” da nossa juventude urbana, principalmente a de Luanda, por trazer uma "inovação" à vida festiva dos angolanos. Mas, ao relermos a famosa oração de sapiência do escritor moçambicano Mia Couto, nos perguntamos: “em vez de inovação do Semba, não estaremos perante o sétimo sapato sujo descrito na famosa fala de Mia Couto?"
Vamos reler o escritor moçambicano: “Sétimo sapato – A ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros. (...) a produção cultural nossa se está convertendo na reprodução macaqueada da cultura dos outros. O futuro da nossa música poderá ser uma espécie de hip-hop tropical, o destino da nossa culinária poderá ser o Mac Donald’s. (...) Estamos dançando a valsa, com vestidos compridos ... Casamo-nos de véus e grinaldas e atiramos para longe da Julius Nyerere tudo aquilo que possa sugerir uma cerimónia mais enraizada na terra e na tradição moçambicanas.”
O mais curioso é que este fenómeno não só secou a dança do Semba, mas já transformou, de modo quase irreversível, a música popular urbana de Luanda, ao ponto de quase toda a juventude enveredar pela estilização ocidental, com destaque para o Jazz, o Hip-Hop e o RnB ou a chamada Bossa Nova brasileira. De igual modo, já cansa escutar sempre a valsa nupcial de Félix Mendelssohn em todos os rituais de casamento. É demais! Temos temas universais mais consanguíneos, como Besoka, de Manu Dibangu, temos Nge Spirit, de Oliver Ngoma, só para citar dois. O europeu agora é o genuíno?
Este fenómeno das novas colorações e até derretimentos dos icebergs culturais urbanos na grande capital, Luanda, pode buscar uma explicação no conceito de imperialismo cultural, tal como sugere Pierre Bourdieu, como “uma violência simbólica que se apoia numa relação de comunicação coercitiva para extorquir a submissão e cuja particularidade consiste, nesse caso, no fato de universalizar particularismos vinculados a uma experiência histórica singular, ao fazer com que sejam desconhecidos, enquanto tal, e reconhecidos como universais.”
No caso angolano, mais especificamente luandense, a parte visível do iceberg, a música, as artes plásticas e a dança fogem do paradigma da diversidade, para se situar expressamente no conceito bourdieano de imperialismo cultural.
É certo que 'Tango’ é termo originário das línguas africanas (pequeno tambor). É certo que, tal como jazz, também é o resultado da grande viagem transatlântica dos navios negreiros. Contudo, tanto um como o outro são já o resultado de incorporações da instrumentalização ocidental.
Se os recriadores do Semba tivessem outra visão da Cultura angolana, haveriam de constatar que existe um fundo residual cultural do Semba, assente na tradição da Massemba que permite inovar a dança sem se copiar a sépia o Tango argentino. O elemento principal que está na origem do nome Semba é a “umbigada” (massemba). Ora, porque não inovar por aí? O toque dos ventres da Massemba é sensual, é mágico.
É que a grande marca de África e dos africanos, nesta era Android é somente a nossa Cultura. Não produzimos automóveis, portanto, não podemos ter um carro na Fórmula Um a representar um país africano, como a marca Mercedez. Não produzimos naves espaciais, portanto não temos nenhuma Appolo 11 ou Soyuz no espaço sideral, com a bandeira da União Africana. O que temos é uma Cultura muito própria, um ritmo-emoção que nos faz suar, temos contos especiais, cantares que adormecem os leões da savana e um tã-tã que faz vibrar as paredes do coração.
Se perdermos a nossa matriz cultural, só poderemos tornar-nos iguais aos outros, e assim nós, depois de perdermos a fala bantu para o Mundo, como poderemos mostrar diversidade neste mundo global?

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