Reportagem

Svante Pääbo: Pesquisador do ADN de outras espécies humanas vence Nobel da Medicina

O Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina de 2022 foi atribuído ao cientista Svante Pääbo, pelas descobertas sobre os genomas de hominíneos extintos e a evolução humana, anunciou, esta segundafeira, o Comité do Nobel, no Instituto Karolinska, em Estocolmo (Suécia).

04/10/2022  Última atualização 05H05
O Prémio Nobel da Medicina de 2022 fez estudos sobre a sequenciação do genoma de neandertais, uma espécie humana já extinta, o que o obrigou a enfrentar grandes desafios técnicos © Fotografia por: Edson Fabrizio | Edições Novembro

Svante Pääbo tem-se debruçado sobre os mistérios de espécies humanas já extintas. "A humanidade tem-se sempre intrigado pelas suas origens. De onde é que viemos, como é que estamos ligados àqueles que viveram antes de nós? O que faz de nós, Homo sapiens (a nossa espécie), diferentes de outros hominíneos?”.

Estas questões referidas no anúncio do prémio e que abrem um comunicado sobre esta atribuição são as perguntas que Svante Pääbo tem tentado responder.

O cientista especializou-se em Genética aplicada à evolução humana e está, actualmente, no Departamento de Genética do Instituto Max Planck para Antropologia Evolutiva, na Alemanha.

"Está sem palavras, está maravilhado. Está muito feliz”, disse durante a conferência de anúncio do prémio Thomas Perlmann, secretário do Comité do Nobel da Medicina, sobre a reacção de Svante Pääbo ao prémio, quando ligou ao cientista para dar a notícia.

Minutos mais tarde, na conta do Twitter dos Prémios Nobel, o galardoado aparecia visivelmente feliz e acompanhado por uma caneca com café. "Depois do choque inicial, uma das primeiras coisas que ele disse foi se poderia partilhar a notícia com a sua esposa, Linda”, lê-se na publicação com uma fotografia tirada pela própria.

 

Dos neandertais aos denisovanos

Um dos trabalhos que fez com que Svante Pääbo fosse internacionalmente reconhecido é a sequenciação do genoma de neandertais, uma espécie humana já extinta. Desde muito cedo o estudioso se interessou na possibilidade de usar métodos genéticos para estudar o ADN de neandertais.

Mas, também sabia que tinha de enfrentar grandes desafios técnicos —​até porque, com o tempo, esse ADN se ia modificando quimicamente e se degradava em pequenos fragmentos. Mesmo assim, o cientista começou a desenvolver métodos para estudar o ADN de neandertais.

Já na década de 1990, na Universidade de Munique, decide analisar o ADN mitocondrial de neandertal. Este ADN é aquele que está presente nas mitocôndrias e é herdado da mãe, mas contém apenas uma pequena fracção da informação genética nas células. Contudo, como está presente em milhares de cópias, aumentava a possibilidade de sucesso.

Svante Pääbo acaba por conseguir mesmo sequenciar essa região do ADN de um osso com 40 mil anos. "Pela primeira vez, tivemos acesso a uma sequência de um parente extinto”, assinala-se no comunicado do Prémio Nobel. Ao comparar-se essa informação com a de humanos modernos e de chimpanzés, percebe-se que os neandertais são geneticamente extintos.

A partir daí, a sua missão passa a ser sequenciar o genoma nuclear do neandertal. Vai para o Instituto Max Planck, na Alemanha, e é aí que tudo acaba por acontecer. Explora novas técnicas, melhora outras e atrai mais investigadores para este trabalho. Em 2010, consegue então publicar a primeira sequência de um neandertal. Desde então, tem vindo a investigar a relação entre neandertais e os humanos actuais (nós, portanto).

 

O osso de um dedo

Mais: muito do seu reconhecimento vem também da descoberta de uma outra espécie já extinta: os denisovanos. Tudo aconteceu a partir da descoberta de um fragmento de um osso de um dedo encontrado na gruta de Denisova, no Sul da Sibéria. O osso tinha ADN bem preservado e a equipa de Svante Pääbo sequenciou-o. E essa informação genética era diferente de toda a que se conhecia antes.

"As descobertas de Svante Pääbo geraram uma nova compreensão da nossa história evolutiva”, nota-se no comunicado a que o jornal português Público teve acesso. "Através da sua investigação pioneira, Svante Pääbo criou uma área científica completamente nova, a paleogenómica”.

Esta disciplina debruça-se sobre o estudo de genomas de organismos antigos. Além das descobertas iniciais, o seu grupo já estudou outras sequências genómicas de hominíneos extintos e tem possibilitado um conhecimento mais aprofundado dos humanos no passado e, até, as influências da nossa fisiologia actual.

Um dos exemplos dessa influência é a versão denisovana do gene EPAS1, que confere uma vantagem para a sobrevivência em altitudes elevadas e é comum na população que actualmente vive no Tibete. Outro grande exemplo são os genes dos neandertais que afectam a resposta imunitária em diferentes tipos de infecções.

Na altura da entrevista, o jornal Público lembrava que, depois de publicar o artigo na revista Cell, em 1997, em que apresentava o primeiro fragmento do genoma de um neandertal, espécie de humanos extinta, muita coisa mudou.

Em 2010, foi identificada uma nova espécie extinta de humanos, os denisovanos, e em 2013, era publicado na Internet o genoma completo da mulher neandertal, estudada pela equipa do biólogo sueco que, em 2019, se dedicava a investigar uma nova espécie que, também, entra na história do ADN ancestral, o Homo floresiensis (conhecido como "hobbit”, pelas suas características físicas), encontrado na Indonésia.


Outros premiados e expectativas

No ano passado, o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina foi atribuído aos investigadores David Julius e Ardem Patapoutian, pelas descobertas de receptores para a temperatura e o tacto. Já nesse ano, a expectativa era a de que o galardão fosse atribuído a um cientista envolvido na batalha mundial contra o SARS-CoV-2, que mobilizou tudo e todos. De novo, este ano, muitos esperavam que os esforços para desenvolver uma vacina em tempo recorde e que salvou milhões de vidas fossem reconhecidos pelo Comité do Prémio Nobel.

Ao longo de 120 anos, entre 1901 e 2020, pelo menos 222 cientistas receberam o Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina, 12 dos quais foram entregues a mulheres. Na história deste famoso reconhecimento do trabalho nesta vasta área de investigação, consta que o mais jovem laureado de todos os tempos foi Frederick G. Banting, que recebeu o Prémio de Medicina em 1923 pela descoberta da insulina quando tinha apenas 32 anos.

O mais velho laureado com o Prémio Nobel em Fisiologia ou Medicina até à data é Francis Peyton Rous, que tinha 87 anos, em 1966. Nessa categoria, o primeiro português, o neurologista Egas Moniz partilhou o prémio, em 1949, com o fisiologista suíço Walter Rudolf Hess, com quem desenvolveu a técnica da leucotomia pré-frontal.

Nobel da Física é conhecido hoje

Para esta terça-feira, está previsto o anúncio do vencedor ou vencedores do Prémio Nobel da Física e, amanhã, o Comité do Nobel vai premiar o melhor trabalho na área da Química, para, na quinta-feira, ser galardoado o Prémio Nobel da Literatura.

O Prémio Nobel da Paz, considerado o mais famoso de todos, também pode ser conhecido na sexta-feira, seguido do Nobel da Economia, na segunda-feira.

Os prémios Nobel são atribuídos anualmente pela Academia Real das Ciências da Suécia, pelo Comité do Nobel e pelo Instituto Karolinska a pessoas ou organizações que contribuíram de forma excepcional nos campos da Química, Física, Literatura, Medicina e Paz.

Os prémios foram criados em 1895, por Alfred Nobel e, entre 1901 e 2021, contam-se 975 laureados. Um pequeno número de indivíduos e organizações foi distinguido mais de uma vez, o que significa que 943 pessoas e 25 organizações únicas receberam o Prémio Nobel.

Desde o início, em 1901, houve alguns anos em que os prémios Nobel não foram atribuídos. No total, houve 49 prémios em várias categorias que não foram outorgados a ninguém, sendo que a maioria dessas decisões foi tomada durante as duas guerras mundiais (1914/1918 e 1939/1945, recpectivamente.

Nos estatutos da Fundação Nobel, pode ler-se: "Se nenhum dos trabalhos em consideração for da importância indicada no primeiro parágrafo, o dinheiro do prémio será reservado até ao ano seguinte. Se, mesmo assim, o prémio não puder ser atribuído, o montante será acrescentado aos fundos da fundação.”


Filho de cientista galardoado

A história que hoje temos sobre o passado da espécie humana foi escrita por muitos cientistas (desde arqueólogos a paleontólogos, passando por biólogos e geneticistas) e tem um pouco de tudo, incestos, guerras, romance, cruzamentos, extinções e vários cenários espalhados por sítios e grutas que guardaram ossadas e fósseis preciosos.

Resta, felizmente para todos, uma certeza: a história ainda está incompleta. "Acredito que vamos descobrir outras espécies extintas de humanos”, referiu Svante Pääbo ao Público, na entrevista publicada em 2019.

Svante Pääbo nasceu em 1955, na Suécia, e defendeu a tese de doutoramento, em 1986, na Universidade de Uppsala. Passou também pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos.

Desde criança que tinha um certo fascínio pela Arqueologia, o que foi transmitido pela mãe, que o levou ao Egipto quando tinha 13 anos, relata-se no site da Fundação Gruber, que lhe atribuiu o seu prémio de genética em 2013.

"Tinha uma ideia romântica do que era a arqueologia”, nota nesse site o próprio cientista. "Mas, quando cheguei à Universidade de Uppsala e comecei a estudá-la, descobri que não era assim tão romântica como imaginava.”

Depois, estudou Medicina, influenciado pelo pai, o bioquímico Sune Bergström, que também recebeu o Prémio Nobel da Medicina em 1982. "Naquela altura, se estivesse na Suécia e com interesse em investigação de biologia básica, ia-se para a escola de Medicina”, recordou. Sempre com a arqueologia na sua mente, ainda estudou adenovírus e a sua interacção com o sistema imunitário.

Curioso sobre o ADN que se poderia obter de tecidos antigos, começou por tirar e isolar amostras de múmias egípcias. Acabou por conseguir publicar esse trabalho em revistas científicas. Foi apenas o início de algo ainda mais remoto, os genomas de neandertais ou de denisovanos.

"O seu trabalho revolucionou a nossa compreensão da história evolutiva do humano moderno”, reagiu Martin Stratmann, presidente da Sociedade Max Planck, num comunicado da instituição sobre a atribuição do Nobel.

"Svante Pääbo demonstrou, por exemplo, que os neandertais e outros hominíneos tiveram um contributo significativo para a ancestralidade dos humanos modernos”, rematou.


Patrono do Prémio Nobel   

Alfred Bernhard Nobel, que nasceu em Estocolmo, a 21 de Outubro de 1833, e morreu em San Remo, a 10 de Dezembro de 1896, foi um químico, engenheiro, inventor, empresário e filantropo sueco.

O homem era mais conhecido por ter deixado a sua fortuna para estabelecer o Prémio Nobel, embora também tenha feito várias contribuições importantes para a ciência, mantendo 355 patentes em sua vida.

A invenção mais famosa de Nobel foi a dinamite, um meio mais seguro e fácil de aproveitar o poder explosivo da nitroglicerina; foi patenteado, em 1867, e logo foi usado em todo o mundo para mineração e desenvolvimento de infra-estrutura.

Nobel demonstrou desde cedo uma aptidão para a ciência e a aprendizagem, particularmente, em Química e línguas, tendo se tornado fluente em seis idiomas, e registou sua primeira patente aos 24 anos.

Nobel embarcou em muitos empreendimentos comerciais com a família, mas notavelmente possuindo Bofors, um produtor de ferro e aço que ele desenvolveu num grande fabricante de canhões e outros armamentos.

Depois de ler um obituário erróneo condenando-o como um aproveitador da guerra, Nobel foi inspirado a deixar a sua fortuna para a instituição do Prémio Nobel, que reconheceria anualmente aqueles que "conferiram o maior benefício à humanidade”.

Nobel foi eleito membro da Real Academia Sueca de Ciências, que, de acordo com seu testamento, seria responsável pela escolha dos laureados como o Nobel de Física e Química.

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